segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

MENOTTI DEL PICCHIA DURANTE A SEMANA DE 22

A CONFERÊNCIA DO
DR. MENOTTI DEL PICCHIA
NO MUNICIPAL EM 15/2/1922.


Menotti Del Picchia - Foto Reprodução, nd.


Pela estrada de rodagem da via-láctea, os automóveis dos planetas correm vertiginosamente. Vela o Cordeiro do Zodíaco, perseguido pela Ursa Maior, toda dentada de astros. As estrelas tocam o jazz-band de luz, ritmando a dança harmônica das esferas. O céu parece um imenso cartaz elétrico, que Deus arrumou no alto, para fazer o eterno reclamo da sua onipotência e da sua gloria.
Este é o estilo que de nós esperam os passadistas, para enforcar-nos, um a um, nos finos baraços dos assobios das suas vaias. Para eles nós somos um bando de bolchevistas das estéticas, correndo a 80 H.P. rumo da paranóia. Somos o escândalo com duas pernas. O cabotinismo organizado em escola. Julgam-nos uns cangaceiros da prosa, do verso, da escultura, da pintura, da coreografia, da música, amotinados na jagunçada dos Canudos literários da Paulicéia desvairada...
Que engano! Nada mais ordeiro e pacífico que este bando de vanguarda, liberto do totemismo tradicionalista, atualizado na vida policiada, violenta e americana de hoje. Ninguém respeita mais o casse-tête do guarda-cívico da esquina que esse pugilo de facínoras aparentes, ainda com as mãos fumegantes do sangue de Homero, Virgílio, Dante, Camões, Victor Hugo, sobretudo Zola e os neogregos, com Heredia à frente...
É que, se assassinamos, sem pena, papões inaturais, lhes beijamos, com reverência, os túmulos, amando-os com alma localizada na data dos epitáfios dos seus carneiros.
Aos nossos olhos riscados pela velocidade dos bondes elétricos e dos aviões, choca a visão das múmias eternizadas pela arte dos embalsamadores. Cultivar o helenismo como força dinâmica de uma poética do século é colocar o corpo seco, enrolado em vendas, de um Ramsés ou de Amnésis, a governar uma república democrática, onde há fraudes eleitorais e greves anarquistas.
Aos discóbolos de Esparta, opomos Friedenreich e Carpentier. À derrocada de Ílion, a resistência de Verdun ou uma batalha de Kemalistas. Às princesas de baladas dos castelos roqueiros, preferimos a datilógrafa garota. Não queremos fantasmas! Estamos num tempo de realidades e violências.
A nossa estética é de reação. Como tal, é guerreira. O termo futurista, com que erradamente etiquetaram, aceitamo-lo porque era um cartel de desafio. Na galeria de mármore de Carrara do parnasianismo dominante, a ponta agressiva dessa proa verbal estilhaçava como um aríete. Não somos, nem nunca fomos “futuristas”. Eu, pessoalmente, abomino o dogmatismo e a liturgia da escola de Marinetti. Seu chefe é, para nós, um precursor iluminado, que veneramos como um general da grande batalha da Reforma, que alarga seu front em todo o mundo. No Brasil não há, porém, razão lógica e social para o futurismo ortodoxo, porque o prestígio do seu passado não é de molde a tolher a liberdade da sua maneira de ser futura. Demais, ao nosso individualismo estético repugna a jaula de uma escola. Procuramos, cada um, atuar de acordo com nosso temperamento, dentro da mais arrojada sinceridade.
O que nos agrega não é uma força centrípeta de identidade técnica ou artística. As diversidades das nossas maneiras são verificáveis na complexidade das formas por nós praticadas. O que nos agrupa é a idéia geral de libertação contra o faquirismo estagnado e contemplativa que anula a capacidade criadora dos que ainda esperam ver erguer-se o sol atrás do Partenon em ruínas.
Queremos luz, ventiladores, aeroplanos, reivindicações, obreiros, idealismos, motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho na nossa Arte! E que o rufo de um automóvel, nos trilhos de dois versos, espante da poesia o último deus homérico que ficou anacronicamente a dormir e sonhas na era do jass-band e do cinema, com a frauta dos pastores de Arcádia e os seios divinos de Helena!
No século das descobertas, que foi o passado, o gênio insone das reformas, trabalhava na obra de Cézanne, Rodin, Rimbaud e Wagner. No século da construção e aproveitamento dessas descobertas, encartamo-nos no formidável movimento de fixação basilar de uma nova estética, no qual seremos, futuramente, os neoclássicos. O exotismo torturado dos obreiros da nossa diretriz artística não é mais que a poeira de ouro de uma grande nebulosa que dará à luz um novo mundo.
Não vos espante o dadaísmo, o tactilismo, o cubismo, o futurismo, o bolchevismo, o erostratismo: são ingredientes mágicos e efêmeros da alquimia humana, preparando o novo molde mental sobre o qual se repetirão, secularmente, os futuros acadêmicos, os decadentes e os passadistas. Nós somos o Alfa do novo ciclo. Queremos esfarelar apenas os últimos destroços do Ômega do ciclo morto, para desenvolvermos a autonomia vibrante da nossa maneira de ser no tempo e no espaço.
Que é a nossa arte?
Senhoras, chorai a morte da mulher leit-motif das jeremiadas líricas.
Até ontem, poetas cabeludos, falsos como brilhante pingo d’água, só descantavam ELA. Ela era o que Marinetti chamava a mulher fatal. Para eles - idiotas! - não havia automóveis, corsos, sapateiros martelando solas, ministros vendendo pátrias a varejo no balcão internacional de conferências e tribunais de arbitragem. Ela era onímoda. Fazia carnívoros pensantes despencarem do viaduto do Chá em loopings imprevistos, cismavam debaixo dos salgueiros, em outonos preparados pelos jardineiros do senhor Firminiam Pinto. Picavam o braço com injeções de cocaína, que as faziam gramar uns olhos românticos e coruscantes como dois faróis voiturettes.
E choravam, guedelhudos, inúteis, parvos, inatuais, necessitados de Institutos Disciplinares e abluções de Água de Colônia...
Quando o recheio das empadinhas poéticas, que são os sonetos, não eram um rabo de saia, lá vinham, fatalmente, guisados com acepipes verbais parnasianos, os truculentos deuses de Homero. ELA ou Júpiter. A poesia crifrava-se nesse dilema: Elvira ou o Olimpo.
E enquanto a engenharia moderna fazia cócegas nas estrelas com a unha de aço dos pára-raios dos arranha céus, e na pauta dos fios telefônicos, a sinfonia dos telégrafos orquestrava revoluções bolchevistas, trucidações de armênios, a descoberta de novos tipos de hélices, eles, com os olhos travados na Grécia caricatural do rei Constantino, cantavam as estroinices de Vênus, a saturnal sórdida dos deuses precursores obscenos do Maxim’s e o Apolo, onde até ontem zuniam roletas!
Júpiter poderá entrar em nossa Arte, mas não admitiremos nu, inatural, cabeludo, como o aceitam os parnasianos. Não queremos saber de escândalos, nem de ter que ajustar as contas com a polícia. O pai dos deuses, para transitar nas nossas ruas, é mister que vá, antes, ao barbeiro, vista uma sóbria sobrecasaca, deixe em casa o perigoso revolver olímpico, que era a caixinha dos raios, e, burguês e pacífico, tal qual o pintou André Gide, se anule na vida comum, na tragédia comum dos outros homens.
Basta de se exaltar artimanhas de Ulisses, num século em que o conto do vigário atingiu a perfeição de obra prima. Basta de se descrever as correrias dos sátiros caprinos atrás das ninfas levípedes e esguias: a Babilônia paulista está cheia de faunos urbanos e as ninfas modernas dançam maxixe ao som do jazz sem temer mais egipãs da República...
Morra a Elíade! Organizemos um zé-pereira canalha para dar uma vaia definitiva e formidável nos deuses do Parnaso!
E a mulher? Fora a mulher-fetiche, a mulher-cocaína, a mulher-monomania, l’eternelle Madame!
Queremos uma Eva ativa, bela, prática, útil no lar e na rua, dançando o tango e datilografando uma conta corrente; aplaudindo uma noitada futurista e vaiando os tremelicantes e ridículos poetaços, inçados de termos raros como o porco-espinho de cerdas.
Morra a mulher tuberculosa lírica! No acampamento da nossa civilização pragmatista, a mulher é a colaboradora inteligente e solerte da batalha diuturna e voa no aeroplano, que reafirma a vitória brasileira de Santos Dumont, e cria o mecânico de amanhã, que descobrirá o aparelho destinado à conquista dos astros!
Só isso? Não. Não nos limitamos somente a banir da gaiola das rimas o fetiche “fêmina”, nem a rechaçar para a montanha a tropa olímpica dos deuses. Queremos libertar a poesia do presídio canoro das fórmulas acadêmicas, da elasticidade e amplitude aos processos técnicos, para que a idéia se transubstancie, sintética e livre na carne fresca do Verbo, sem deitá-la, antes, no leito de Procusto dos tratados de versificação. Queremos exprimir a nossa mais livre espontaneidade, dentro das mais espontânea liberdade. Ser, como somos, sinceros, sem artificialismo, sem contorcionismos, sem escolas. Sonorizar no ritmo e profundo tudo o que reboe nas nossas almas de sino, carrilhonando as aleluias das nossas íntimas páscoas, dobrando a angústia dos nossos lutos.
Dar à prosa e ao verso o que ainda lhes falta entre nós: ossos, músculos, nervos. Podar, com a coragem de um Jeca que desbasta a foice uma capoeira, a “selva áspera e forte” da adjetivação frondosa, farfalhuda, incompatível com um século de economia, onde o minuto é ouro. Matar Verlaine, esse desalentado Wilde, esse psicopata Zola, esse açougueiro Farrére, esse Ohnet de casaca, Geraldy, esse amofadinha...
Nada de postiço, meloso, artificial, arrevesado, precioso: queremos escrever com sangue - que é humanidade; com eletricidade - que é movimento, expressão dinâmica do século; violência - que é energia bandeirante.
Assim nascerá uma arte genuinamente brasileira, filha do céu e da terra, do homem e do mistério.
Neste palco, há meses, quem tinha uma casaca para se sentar numa poltrona ou 20$000 para se encarapitar nas torrinhas, assistiu a esta cousa inaudita: Quarto Ato de Mefistófeles, de Boito. Fausto e Mefisto vão ao Olimpo à procura de d. Helena, uma senhora bonita e desonesta, que fugiu de Menelau, seu predestinado marido, e fez Cassandra dizer profecias, Ulisses inventar o Cavalo de Tróia, Enéas fugir com o velho Anguises para o Lácio. Aos requebros da batuta de Marinuzzi, apareceram em cena os deuses da Grécia! Quem era? Júpiter, Marte, Mercúrio, Vulcano, Plutão, Netuno... Claro que, no palco, eram comparsas, gigantes latagões italianos, de pernas felpudas, gestos de pantomima.
Na cabeça, por coroas reais, tinham pedaços de latas. O ouro de suas túnicas de canga era feito de papel pintado. O espadagão de Marte era de estanho. Os raios de Zeus, de ferro batido...
Pois bem, essa ridícula comparsaria gaiata lembrou-me todo o parnasianismo, com seus heróis de papelão, com seus deuses de fancaria, com seus menestréis de gravura...
Hoje que, em Rio Preto, o cowboy nacional reproduz, no seu cavalo chita, a epopéia eqüestre dos Rolandos furibundos; que o industrial de visão aquilina amontoa milhões mais vistosos do que os de Creso; que Edu Chaves reproduz com audácia paulista o sonho de Ícaro, por que não atualizarmos nossa arte, cantando essas Ilíadas brasileiras? Porque preferimos uma Atenas cujos destroços de Acrópole já estão pontilhados de balas metralhadoras?
Não! Paremos diante da tragédia hodierna, a cidade tentacular radica seus gânglios numa área territorial que abriga 600.000 almas. Há na sua angústia e na sua luta odisséias mais formidáveis que as que cantou o aedo cego: a do operário reivindicando seus direitos, a do burguês defendendo sua arca; a dos funcionários deslizando nos trilhos dos regulamentos; a do industrial combatendo o combate da concorrência; a do aristocrata exibindo o seu fausto; a do político assegurando a sua escalada; a da mulher quebrando as algemas da sua escravidão secular nos guníceos (sic) eventrados pelas idéias libertarias post-bellum... Tudo isso - e o automóvel, os fios elétricos, as isomas, os aeroplanos, a arte - tudo isso forma os nossos elementos da estética moderna, fragmento de pedra em que construiremos, dia-a-dia, a Babel do nosso Sonho, no nosso desespero de exilados de um céu que fulge lá em cima, para o qual galgamos na ânsia devoradora de tocar com as mãos as estrelas!
Estou certo de que não vos espantou nosso programa. Vou mais longe: sinto que nos destes razão. Pois bem, já que tenhais testemunhos das afirmações de agora, passemos em revista as forças dos avanguardistas da “Arte Nova”.

(Fonte: Del Picchia, Menotti - in: A “Semana” Revolucionária - Editora Pontes - 1ª Edição - Organização, apresentação, resumo biográfico e nota de Jácomo Mandatto - páginas: 17 a 23 - texto original editado no Correio Paulistano em 17 de Fevereiro de 1922, assinado por “Hélios”, pseudônimo de Paulo Menotti Del Picchia).
(Cópia na íntegra para o Acervo da Exposição “Retalhos do Modernismo”, por Luiz de Almeida).