terça-feira, 4 de dezembro de 2007

BRECHERET: O MODERNISTA PAULISTANO ESQUECIDO

Victor Brecheret... Esse modernista, tão paulistano quanto Mário de Andrade, deixou sua obra espalhada pela Paulicéia para que possamos apreciar. Diante de uma obra de Brecheret chegamos ao êxtase. Mas... pouco se fala de Brecheret... ou melhor, suas obras não são mesmo para serem faladas, mas visualizadas – apesar que existem algumas obras que só mesmo faltam falar. Quando admiro a obra “Banho de Sol”, ao olhar para a expressão facial daquela musa, tenho a impressão que ela vai abrir a boca e dizer:
“- Que preguiça gostosa... que sol maravilhoso... preciso passar mais bronzeador”.
É perfeita, lindíssima e de uma sensualidade descomunal.
Mas, o importante mesmo é deixar aqui cravado o fato do artista Brecheret ser pouco estudado. Suas obras são vistas, admiradas, tudo bem – mas estudadas por poucos. Raríssimos os estudos que podemos ter acesso das leituras das obras e da própria vida do artista. E, como ele é um dos ícones mais importantes do Modernismo Brasileiro, abro aqui este tópico com uma síntese biográfica e um artiguete sobre um dos módulos da sua vasta produção artística: a Arte Tumular de Brecheret.



DADOS BIOGRÁFICOS
1894 – Nasceu em Farnese de Castro, Itália, a 15 de dezembro. Recebeu o nome de Vittorio Breheret (sobrenome de origem francesa), depois transformado em Victor Brecheret. Existe um documento, de tão paulistano que Brecheret foi, documento esse dos anos 30, que registra seu nascimento em São Paulo a 22 de fevereiro de 1894;
1912 – Faz os primeiros estudos de desenho, modelagem e entalhe em madeira, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo;
1913 – Viaja para Roma (Itália) para estudar escultura e torna-se discípulo de Arturo Dazzi. Interessa-se pelas obras de Ivan Mestrovic. Permanece na Itália até 1919;
1915 – Em Roma, instala seu primeiro ateliê, na Rua Flaminia nº 22;
1916 – Participa de Exposição Coletiva, a Exposição Internacional de Belas Artes, em Roma (Itália). Participa também da Exposição do Amatori e Cultori - com a obra Despertar, recebe o 1º prêmio na Exposição Internacional de Belas Artes;
1917 – Viaja para Paris (França) para acompanhar os funerais do escultor Auguste Rodin;
1919 - São Paulo SP - Instala ateliê no Palácio das Indústrias, em sala cedida pelo engenheiro Ramos de Azevedo;
1920 – Retorna para o Brasil e fixa-se na cidade São Paulo. Conhece os futuros modernistas: Di Cavalcanti, Hélios Seelinger, Menotti Del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Faz o projeto da Medalha Comemorativa do Centenário da Independência. Inspira personagem do romance Os Condenados, de Oswald de Andrade, e de O Homem e a Morte, de Menotti del Picchia. Mário de Andrade atribui o estado de espírito que fez surgir a Paulicéia Desvairada ao contato com sua obra. Na cidade de Santos – SP, realiza a exposição da maquete do Monumento aos Andradas. Em São Paulo, realiza a exposição da primeira maquete do Monumento às Bandeiras, na Casa Byington. A execução do monumento começa em 1936 e sua inauguração é em 1953;
1921 – Viaja para Paris (França), patrocinado pelo Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, estuda e entra em contato com vários artistas. Em Abril realiza Exposição Individual, na Casa Byington, em São Paulo - e expõe a escultura "EVA", já mostrada em Roma;
1922 - Tem obras expostas na Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo;
1923 – Recebe Prêmio no Salon d’Automne;
1925 – Recebe menção Honrosa no Salon dês Artistes Français;
1926 – Realiza a considera sua Primeira individual na cidade São Paulo, apresentando 33 esculturas da fase francesa. Doa Porteuse de Parfum à Pinacoteca do Estado;
1927 – Elabora a capa do livro A Estrela do Absinto, de Oswald de Andrade, segundo volume da Trilogia do Exílio;
1930 – Realiza outra Exposição Individual na cidade de São Paulo;
1932 – Torna-se Sócio-fundador da Sociedade Pró-Arte Moderna – SPAM, em São Paulo;
1934 – Na França, o governo francês adquire a escultura Grupo para o Musée Jeu de Paume e concede a Brecheret a Cruz Legião de Honra, a título de belas artes, no Grau de Cavaleiro. Realizada Exposição Individual no Rio de Janeiro;
1935 – Realiza nova Exposição Individual na cidade de São Paulo;
1936 – Em São Paulo, inicia a execução do Monumento às Bandeiras, cujo anteprojeto data de 1920 e que é inaugurado em 1953 na Praça Armando Salles de Oliveira;
1941 – Vence o concurso internacional das maquetes do Monumento a Duque de Caxias, em São Paulo - considerada a maior escultura equestre do mundo: 14 metros de altura sobre um pedestal oco de 24 metros de altura, 7 metros de largura e 11,5 metros de comprimento. No ano seguinte: 1942: Esculpe "Fauno";
1946 – Esculpi a Via Crucis para a capela do Hospital das Clínicas de São Paulo;
1948 – Realiza Exposição Individual na Galeria Domus, em São Paulo – SP;
1951 – Premiado na I Bienal de São Paulo – Prêmio Nacional de Escultura;
1953 – Executa os painéis da fachada e do interior do Jockey Club de São Paulo. Realiza Exposição Individual na Galeria Tenreiro, em São Paulo. Inauguração do Monumento às Bandeiras, em São Paulo;
1954 – Executa os afrescos Três Graças e São Francisco, em Osasco – São Paulo. Executa afrescos para a Capela Paranga, em Atibaia – SP;
1955 – Falece, em São Paulo, no dia 17 de dezembro.

ARTE TUMULAR E VICTOR BRECHERET


Cemitério: segundo alguns dicionários, é o espaço, terreno ou recinto em que se enterram e guardam cadáveres humanos. Particularmente é o local onde inumamos os nossos entes queridos que chegaram na linha de chegada e final da vida – os nossos mortos. Tristeza e saudade se perpetuam entre os humanos vivos quando ali vão. Porém, esta questão não fica restrita apenas na dor de familiares e amigos. Na maioria dos cemitérios, entre árvores, roseiras, arbustos e vasos para flores artificiais e naturais, entre chapas de ferro ou bronze com inscrições lapidares, os túmulos sustentam imagens, carinhosamente escolhidas, muitas das vezes, em conformidade com a crença demonstrada em vida pelo finado ali sepultado. Dentre essas imagens encontramos verdadeiras obras de arte. Esculturas lindíssimas e significativas, que passam muitas vezes desapercebidas por nós, temporariamente ainda vivos, mas ali, no cemitério, diante dessas obras, permanecemos com os olhos moribundos.
Na cidade que Mário de Andrade tanto amou, seus cemitérios tradicionais mais parecem ser verdadeiras Exposições Cemiteriais, pois se nossos olhos e intenções não estiverem voltadas somente para o fundo dos túmulos e sim para o que eles ostentam sobre as lápides, nos deliciaremos com esculturas de Galileo Emendabili, Celso Antonio de Menezes, Nicola Rollo, Bruno Giorgi, e dele, VICTOR BRECHERET.
Victor Brecheret, que nasceu na Itália, mas tem registro de paulistano e que distribuiu suas esculturas pela cidade da Paulicéia, tais como: Monumento as Bandeiras no Parque do Ibirapuera, Duque de Caxias na Praça Princesa Isabel, Fauno no Trianon e outras mais, possui inúmeras obras nos cemitérios paulistanos. Destacamos, por exemplo, os cemitérios da Consolação, do Araçá e São Paulo.
No Cemitério da Consolação, no jazigo da família Guedes Penteado, a obra de Brecheret que foi premiada no Salon d’Autonne, em Paris: SEPULTAMENTO. No da família Botti, a escultura ANJO, com ar misticamente angelical e um sorriso que demonstra paz e certeza.
A primeira experiência de Brecheret na arte cemiterial está no Cemitério do Araçá: Túmulo de FRANCISCA JULIA DA SILVA, poetisa do movimento literário Parnasianismo.
No Cemitério São Paulo, no jazigo da família Scuracchio, a última obra de Brecheret: AVE MARIA, dois anjos lindíssimos em posição de oração profunda cercam uma grande cruz.


(Luiz de Almeida - 2007)