terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A MÚSICA NA SEMANA DE 22: VILLA-LOBOS E GUIOMAR NOVAES

MÚSICA NA PROGRAMAÇÃO DA
SEMANA DE ARTE MODERNA DE 22

(Desenho de Luiz de Almeida: Nanquim sobre papel cartão (80 x 120 cm), elaborado para o Módulo "Música na Semana de 22" da exposição Retalhos do Modernismo).

Quando da realização da Semana de Arte Moderna de 1922, a música, principalmente os músicos Guiomar Novaes e Ernâni Braga, levaram mais público ao Teatro Municipal que os literatos, que na verdade haviam planejado "protestos" e não "apresentação" ou "show" artístico. Enquanto o público "enfrentava" os literatos, os músicos "enfrentavam-se" nos bastidores.
É pertinente descrever parcialmente um estudo de José Miguel Wisnik, quando executou o trabalho defendido como dissertação de mestrado na USP, em setembro de 1974, editado pela Livraria Duas Cidades, em 1977, com o título: O Coro dos Contrários - A Música em torno da Semana de 22 - págs. 70 e 71, somente para ilustração do mencionado no primeiro parágrafo acima:
"(...) Peças de Satie e Poulenc, interpretadas por Ernâni Braga, ilustraram a conferência de Graça Aranha, "A Emoção Estética Na Arte Moderna", na abertura da Semana. A pequena peça de Satie, utilizada pelos modernistas, correspondia exatamente à intenção de provocar impacto polêmico logo de saída: trata-se "D'Edriophthalma", a segunda da série tripartite dos "Embryons dessechés", e é uma citação paródica da "Marcha Fúnebre" de Chopin. "Desta zombaria está impregnada a música moderna que na França se manifesta no sarcasmo de Eric Satie e que o grupo dos Seis organiza em atitude", dizia Graça Aranha. Nessa peça, Satie faz contrastar o tom misterioso da parte inicial da marcha fúnebre com a redução desnudada da parte central, cuja melodia apresenta na obra de Chopin uma intensidade elegíaca e que é despida aqui, no entanto, de suas inflexões dinâmicas (o que resulta numa espécie de achatamento dos relevos sonoros) e reduzida a exposição da harmonia ao mecanismo de um baixo infantilizado. (...) A apresentação dessa peça corresponde, no contexto da Semana, enquanto atitude de ruptura com o passado, às afirmações de Oswald de Andrade sobre Carlos Gomes: "Carlos Gomes é horrível. Todos nós o sentimos desde pequeninos. Mas como se trata de uma glória de família, engolimos a cantarolice toda do 'Guarani' e do 'Schiavo', inexpressiva, postiça, nefanda". Os dois acontecimentos têm, paralelamente, consequências polêmicas: se as afirmações de Oswald provocam a resposta irada do crítico carioca Oscar Guanabarino, motivando polêmica deste com Menotti del Picchia, a execução da peça de Satie no primeiro festival é causa de uma dissenção interna, já que Guiomar Novaes, participante do movimento, manifesta-se publicamente contrária à paródia, em carta dirigida ao jornal "O Estado de São Paulo", na edição de 15 de Fevereiro de 1922".
Dentre os músicos que participaram dos Festivais da Semana de 22, destacaram-se: Villa-Lobos, Guiomar Novaes, Ernâni Braga, Fructuoso de Lima Vianna, Lucila G. Villa-Lobos, George Marinuzzi, Paulina d’Ambrósio, Orlando Frederico, Alfredo Gomes, Alfredo Corazza, Pedro Vieira, Antão Soares, Frederico Nascimento Filho e Maria Emma. Conforme a programação anunciada pelos jornais da época, a Semana de Arte Moderna desenvolveu-se em três festivais, realizados nos dias 13, 15 e 17 de Fevereiro.
Na sequência: Biografias simplificadas de Villa-Lobos e Guiomar Novaes. A de Guiomar Novaes está sendo revisada pelo Retalhos e será postada quando concluída. A de Villa-Lobos foi revisada e completada em junho de 2012.
(Luiz de Almeida – julho/2012)


VILLA-LOBOS
(SÍNTESE BIOGRÁFICA)
 Villa-Lobos (foto do Museu Villa-Lobos)

Notas:
1        Abreviaturas utilizadas:
1.1       Villa (Villa-Lobos)
1.2       MA (Mário de Andrade)
1.3       MB (Manuel Bandeira)
1.4       SAM (Semana de Arte Moderna de 1922)
1.5       p. (Página)
1.6       pp. (Páginas)
2 – Cartas, Notas e Textos: foi conservada a ortografia da edição original.

1887 – 5 de março: nasce Heitor Villa-Lobos, numa casa da Rua Ipiranga, em Laranjeiras - RJ, filho de Raul Villa-Lobos (professor, funcionário da Biblioteca Nacional, autor de livros didáticos) e Noêmia Monteiro Villa-Lobos, filha de músico: Santos Monteiro. Os pais de Villa eram imigrantes espanhóis. Villa ganha um apelido da família: Tuhú;
1888 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 10 de janeiro: Nasce no Rio de Janeiro, Ernani Braga, músico, compositor, escritor e poeta. Participou da SAM. Amigo de Villa;
- Abolição da Escravatura no Brasil, em 13 de maio.
1889 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- Programação da República, em 15 de novembro;
- 2 de dezembro: nasce em S. Paulo a pintora Anita Catarina Malfatti – a pioneira do Modernismo no Brasil.
1890 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 11 de Janeiro: nasce em S. Paulo, Oswald de Andrade;
- 24 de julho: nasce na cidade de Campinas – SP, o futuro Poeta, autor de Nós, A Dança das Horas, Messidor e outros: Guilherme de Almeida;
- 15 de novembro: no Brasil, instalação da Assembleia Constituinte.
1891 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 24 de fevereiro: promulgação da Primeira Constituição da República do Brasil.
1892 – A família de Villa, por perseguição política, passa a residir em Sapucaia – RJ e em Bicas e Cataguases – MG, permanecendo até meados de 1893;
Adendo:
- 17 de janeiro: morre em S. Paulo o regente, compositor, pianista e crítico musical, Alexandre Levy;
- 20 de março: nasce em S. Paulo o escritor Menotti Del Picchia;
- 30 de maio: Em Fortaleza, na Rua Formosa (atualmente Barão do Rio Branco), Antônio Sales e outros fundam a “Padaria Espiritual”, cujo artigo primeiro, dos quarenta e sete do Programa de Instalação, declara o objetivo principal: “I – Fica organisada, nesta cidade da Fortaleza, capital da Terra da Luz, antigo Siará Grande, uma sociedade de rapazes de Lettras e Artes denominada – Padaria Espiritual, cujo fim é fornecer pão de espirito aos socios em particular e aos povos em geral”[1]. A Padaria Espiritual pode ter sido o primeiro movimento com tendências de cunho modernista no Brasil.
- 27 de outubro: nasce em Quebrangulo, sertão de Alagoas, o escritor Graciliano Ramos.
1893 – A família retorna a residência para o Rio de Janeiro. Villa começa a aprender clarinete e violoncelo com o pai;
 Adendo:
- 19 de janeiro: nasce em Petrópolis, RJ, a pianista Magda Tagliaferro;
- 16 de maio: nasce no Rio de Janeiro o poeta: Ronald de Carvalho;
- 9 de outubro: na cidade de S. Paulo, nasce Mário de Andrade.
1894 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 28 de fevereiro: nasce em São João da Boa Vista – SP, a pianista Guiomar Novaes Pinto;
- No Rio de Janeiro, o autor teatral Arthur Azevedo lança campanha para construção de um teatro. Foi criada Lei Municipal determinando a construção, mas não foi cumprida, apesar da existência do imposto para arrecadação de fundos, que nunca foi utilizado;
- Prudente de Morais assume a presidência da República.
1895 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 26 de julho: nasce em de São José dos Campos – SP, o escritor Cassiano Ricardo Leite.
1896 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 25 de fevereiro: nasce em Nova Friburgo – RJ, o pintor Alberto da Veiga Guignard;
1897 – (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 23 de abril: nasce no Rio de Janeiro, Alfredo da Rocha Viana Filho, o “Pixinguinha”, compositor, flautista, saxofonista e arranjador;
- 28 de julho: numa sala do Museu Pedagogium, Rua do Passeio – RJ, realizou-se a sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras, sob a presidência do escritor Machado de Assis e com a presença de dezesseis acadêmicos. O discurso inaugural foi feito por Joaquim Nabuco;
- 3 de setembro: nasce em S. Paulo o compositor, professor e regente Francisco Mignone;
- 6 de setembro: nasce no Rio de Janeiro: Emiliano Augusto Cavalcanti Albuquerque Mello, o “Di Cavalcanti”;
- 4 de novembro: nasce no Rio de Janeiro o músico, compositor e regente Lorenzo Fernadez.
1898 (Nenhum registro encontrado).
Adendo:
- 21 de março: nasce em S. Paulo o pianista, compositor e maestro João de Sousa Lima;
- 20 de setembro: nasce em S. Paulo o escritor modernista, crítico de artes Sérgio Milliet;
- Campos Sales: inicia seu governo como presidente da República.
1899 – 18 de julho: falece seu pai, vitimado pela varíola. A pedido da mãe escreve uma cançoneta: Os Sedutores. Passa a tocar violoncelo em teatros, cafés e bailes. Foi sua tia Fifina que lhe apresentou os Prelúdios e Fugas do Cravo bem temperado de J. S. Bach, compositor que lhe serviu como fonte de inspiração para a criação das nove Bachianas Brasileiras;
Adendo:
- 16 de junho: nasce no Rio de Janeiro, o poeta Dante Milano;
- 10 de agosto: nasce em Amparo da Barra Mansa – RJ, o artista plástico Flávio Resende de Carvalho.
1900 – Inicia o Curso de Humanidades no Mosteiro de São Bento. Escreve A Panqueca, para violão;
Adendo:
- Comemorações do IV Centenário do Descobrimento do Brasil.
1901 - A família muda-se para MG, primeiro para Bicas e depois para Cataguazes;
Adendo:
- 17 de maio: nasce em S. Paulo, o Poeta Luís Aranha;
- 25 de maio: nasce em S. Paulo, o escritor António Castilho de Alcântara Machado d’Oliveira;
- 19 de outubro: Santos Dumont, pilotando o balão nº 6, dá a volta em torno da torre Eiffel, em Paris, percorrendo 11 quilômetros;
- 7 de novembro: na cidade do Rio de Janeiro, nasce a Poeta Cecília Meireles.
1902 – Inicia o aperfeiçoamento da técnica de violoncelo com Benno Niederberger, concertista e professor;
Adendo:
- 31 de outubro: nasce em Itabira – MG, o poeta Carlos Drummond de Andrade, ano que foi publicado Os Sertões, de Euclides da Cunha;
- 15 de novembro: Rodrigues Alves assume o poder e começa a reconstruir e sanear o Rio de Janeiro.
1903 – Villa vai morar com sua tia Fifina. Começa a frequentar os “chorões”;
Adendo:
- 29 de setembro: nasce em Brodósqui – SP, o artista plástico Cândido Portinari;
- 15 de outubro: o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, nomeado pelo presidente Rodrigues Alves, lança edital com Concurso para a apresentação de projetos para a construção do Theatro Municipal;
- 7 de novembro: nasce Ary Barroso, em Ubá, MG.
1904 – Villa matricula-se no curso noturno do Instituto Nacional de Música, RJ, para estudar violoncelo. Não existem registros que Villa realmente frequentou as aulas;
1905 – Vende parte dos livros herdados do pai e inicia, com o dinheiro arrecadado e o violoncelo debaixo do braço, sua primeira viagem ao Norte (passou por Espírito Santo, depois Bahia e Pernambuco), pesquisando seu folclore e entrando em contrato com musicas diferentes das que estava acostumado a ouvir: as modas caipiras, tocadores de viola sertaneja, repentistas, o aboio dos vaqueiros e outros tipos que mais tarde viriam a universalizar-se através de suas obras. Encantou-se mais com as regiões norte e nordeste, com paisagens e ruídos diferentes do que estava acostumado. [Nota: Existe entre os biógrafos uma dúvida muito grande quanto às viagens de Villa pelo Brasil - esta no Norte e as outras que vieram nos anos posteriores. Alguns chegam afirmar que algumas das viagens não tiveram o itinerário mencionado pelo próprio Villa – este, acreditam, inventou muita coisa a respeito – e também afirmam até mesmo que algumas viagens não foram realizadas. O escritor Paulo Renato Guérios, no seu: “Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação. Ed. do Autor, Curitiba, 2009”, faz um relato espetacular a respeito desse assunto.];
Adendo:
- 2 de janeiro: início das obras para construção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro;
- 17 de dezembro: nasce o escritor Érico Veríssimo.
1906 – Villa recebe a proposta do pai da moça que então namorava, para tornar-se representante de sua indústria no Sul – não deu certo: nem a representação e nem o namoro;
Adendo:
- Criado em S. Paulo o Conservatório Dramático e Musical;
- 12 de julho: morre no Rio de Janeiro o músico, compositor, regente, organista e trompetista Henrique Alves de Mesquita;
- 10 de outubro: morre o compositor mineiro Francisco Magalhães do Valle;
- 23 de outubro: primeiro voo em avião por Santos Dumont, em Paris;
- 15 de novembro: posse do presidente da República, Afonso Pena.
1907 – Curta passagem pelo Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro (depois Escola de Música da UFRJ), tendo aulas de Harmonia, Contraponto e Fuga e Composição com Frederico Nascimento, Agnello França e Francisco Fraga. Poucos meses depois, abandona o trabalho acadêmico e inicia então a sua terceira viagem que o levaria a Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso;
Adendo:
- 1º de fevereiro: nasce em Tietê – SP, o músico, maestro, compositor e pianista Camargo Guarnieri.
1908 – Escreve os Cânticos Sertanejos. Muda-se para Paranaguá – PR, provavelmente buscando trabalho. Nessa cidade chegou a participar de uma banda da Associação dos Empregados do Comércio que animava os bailes da região;
Adendo:
- 29 de setembro: morte de Machado de Assis.
1909 – Villa retorna ao Rio de Janeiro. 6 de junho: participa, no Instituto Nacional de Música, de uma apresentação tocando violoncelo e acompanhado por Ernesto Nazareth, na peça O Cisne, de Saint-Saens;
Adendo:
- O escritor italiano Filippo Marinetti lança o Primeiro Manifesto Futurista;
- 14 de julho: inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro pelo presidente Nilo Peçanha, com capacidade para 1.739 espectadores;
- 15 de junho: morre o presidente Afonso Pena. Posse de Nilo Peçanha;
- 15 de agosto: assassinato do escritor Euclides da Cunha;
- 29 de novembro: Joaquim José de Carvalho funda a Academia Paulista de Letras.
1910 – Viaja com um grupo de mambembe pelas cidades do litoral, até dissolver-se em Recife, por dificuldades financeiras. Villa continua viagem para o Norte, com escala em Fortaleza, onde se apaixonou por uma cearense, Carmem. Ficou sem dar notícias da sua vida para ninguém e nem para a mãe Noêmia. Esta, informada de que ele morrera, havia mandado celebrar missa pelo repouso da alma inquieta do filho[2]. Começa a escrever Danças Características Africanas;
Adendo:
- 15 de novembro: posse do presidente da República, Hermes da Fonseca;
- 11 de dezembro: nasce no Rio de Janeiro, Noel Rosa – compositor, cantor, bandolinista e violonista.
1911 – Conclui suas viagens e retorna ao Rio de Janeiro;
Adendo:
- 12 de setembro: com apresentação da ópera Hamlet, de Ambrósio Thomas, é inaugurado o Theatro Municipal de S. Paulo; - 14 de setembro: Morre o poeta Raimundo Correia;
- Hermes da Fonseca, eleito presidente da República, põe em prática a chamada “política das salvações”, visando a acabar com as oligarquias cafeeiras e a concentrar o poder.
1912 – Villa retoma os estudos das partituras dos compositores clássicos e românticos. Viaja para Bahia. Em abril (15) apresenta-se em Belém do Pará, no Teatro da Paz.  Em julho (23) e setembro (7), em Manaus, no Teatro Amazonas. Escreve a ópera Izaht, fusão de duas óperas: Aglaia e Elisa (1910). Regressa ao Rio de Janeiro. 1º de novembro, é convidado a tocar na casa de Lucília Guimarães, professora de piano, com quem se casará em 1913;
Adendo:
- Criação da Sociedade de Cultura Artística, em S. Paulo, promovia concertos e espetáculos com virtuosos, conjuntos de câmara e orquestras sinfônicas;
- Em S. Paulo começam as greves operárias devido aumento da inflação.
1913 – Casa-se com Lucília Guimarães. O casamento acontece no dia 12 de novembro, a contra gosto da mãe de Lucília. Permanece morando com a família de Lucília na Rua Fonseca Teles n.º 7, em São Cristóvão. Ganha a vida tocando, de dia, na Confeitaria Colombo e, à noite, no Assírio – restaurante localizado no Teatro Municipal. Morre a mãe de Lucília;
Adendo:
- 29 de junho: morre o presidente Campos Sales.
1914 – Villa compõe Farrapos - op. 47, solo para piano. Essa composição, em 1917 passa a fazer parte das Danças características africanas, transformada em Farrapós – op.47 nº 1. Compõe também: Tarantella;
Adendo:
- 4 de agosto: a Alemanha declara guerra à França. Inicia-se a Primeira Grande Guerra;
- 15 de novembro: posse do presidente da República: Venceslau Braz e retorna a política do “café-com-leite”.
1915 – Em janeiro e fevereiro estreia como compositor e realiza os primeiros concertos com suas obras, em Friburgo, acompanhado de Lucília e Agenor Bens. Na ocasião, ele ao violoncelo, Lucília ao piano e Agenor na flauta, tocou-se o Trio em dó menor. Lucília tocou um Estudo de Chopin e uma das Danças Africanas, de 1914: Farrapos. Em julho, estreia no RJ, em concerto patrocinado pela Sociedade de Concertos Sinfônicos e sob a regência do patriarcal Francisco Braga, no Teatro São Pedro (João Caetano). Atuou como violoncelista na orquestra. 13 de novembro: realiza o primeiro concerto com obras exclusivamente suas, no salão do Jornal do Commercio. Participaram desse concerto, além de Lucília ao piano, a convite do próprio Villa: Sylvia de Figueiredo (pianista), Humberto Milano (violinista), Frederico Nascimento Filho (barítono) e Oswaldo Allionni (violoncelista);
1916 – Compõe, em memória de Mozart, uma “Sinfonia” (1ª Sinfonia - Op. 112 - ?). Essa afirmação de compor em memória de Mozart foi dada pelo próprio Villa a Arnaldo Estrela[3]. Compõe: Naufrágio de Kleonicos;
Adendo:
- Devido a carestia reinante, as greves operárias são intensificadas em todo o país.
1917 – Compõe a 2ª Sinfonia – Op. 160. Fevereiro: realiza o segundo concerto com obras exclusivamente suas, também no salão do Jornal do Commercio. É apresentado a Darius Milhaud, compositor francês, secretário do Embaixador da França no Brasil, Paul Claudel. Compõe os bailados Amazonas e Uirapuru, primeiros marcos do seu estilo definitivo. Compõe também: Myremis e Tédio da Alvorada. A partitura de Myremis está extraviada, não podendo assim determinar se ela foi mesmo composta em 1917;
Adendo:
- 1917 é marcado como o “ano chave” para o agrupamento dos intelectuais paulistas (entre eles: Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida) logo após a exposição da pintora Anita Malfatti, em S. Paulo, Rua Líbero Badaró, iniciada no mês de dezembro e concluída em janeiro de 1918, quando Monteiro Lobato publicou no “Estadinho”, órgão de “O Estado de S. Paulo”, o artigo “Paranóia ou Mistificação”, atacando violentamente a jovem artista; 
- MA publica: Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, seu livro de estreia, sob o pseudônimo de Mário Sobral;
- MB publica: A Cinza das Horas, seu primeiro livro;
- O Brasil declara guerra à Alemanha.
1918 – 19 de maio: participa como instrumentista, de concerto promovido pela Associação Brasileira de Imprensa, executando Grieg e Lacombe. Esse concerto foi promovido em prol do Retiro dos Jornalistas Inválidos. Outro concerto de Villa em prol desse Retiro aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 15 de Agosto. Segundo consta esse concerto foi um grande fracasso de público. Oscar Guanabarino, no Jornal do Commercio, não perdeu a oportunidade para criticar. Villa conclui a ópera Izaht. Compõe a Prole do Bebê n.º 1, Suíte pianística. É apresentado a Arthur Rubinstein. O famoso pianista polonês deixa-se conquistar por esta suíte – sobretudo pelo número final, Polichinelo, passando a executá-la em suas turnês artísticas;
Adendo:
- 30 de Novembro: nasce em Curitiba - PR, o maestro, compositor e pianista Alceo Bocchino;
 - O pianista Artur Rubinstein chega ao Brasil, na cidade do Rio de Janeiro;
- Fim da Primeira Grande Guerra;
- Morte do presidente Rodrigues Alves, sem tomar posse. Posse de Delfim Moreira da Costa Ribeiro, na presidência da República, pela morte de Rodrigues de Abreu;
- 18 de dezembro: morre o poeta Olavo Bilac.
1919 – Tem início a divulgação das suas obras no exterior, apresentando o Quarteto Op. 15 em Buenos Aires. Compõe as Canções Típicas Brasileiras para voz e piano;
Adendo:
- 21 de maio: nasce em S. Paulo, Sílvio Mazzuca, maestro, pianista e compositor;
- Cecília Meireles publica sua primeira obra literária: Espectros;
- 28 de julho: posse do presidente Epitácio da Silva Pessoa.
1920 – Compõe o Choro n.º 1, para violão e a Lenda do Caboclo, para piano. O pianista polonês, Arthur Rubinstein, de volta ao Rio de Janeiro, em entrevista a A Notícia, disse: “É justo, porém, já que se me apresenta esta oportunidade, declarar, ainda, que me surpreendeu o sr. Villa-Lobos. Um grupo de amigos desse compositor brasileiro proporcionou-me o ensejo de ouvir trabalhos seus e dessa audição ficou-me a convicção de que seu país tem nesse compositor um artista eminente, em nada inferior aos maiores compositores modernos da Europa. Tem todas as características de um gênio musical. Do que necessita ele é viajar, para tornar-se conhecido noutros países. Vou fazer executar nos Estados Unidos, por Thibaut, Pablo Casals e eu o Trio nº 3, de sua autoria, que me foi dado ouvir na referida audição”[4]. Em julho: Weingartner, maestro alemão, chega ao Brasil e inclui em seu concerto: Naufrágio de Kleonicos, de Villa-Lobos;
Adendo:
- 16 de outubro: morre no Rio de Janeiro o compositor, pianista, organista e regente Alberto Nepomuceno.
1921 – 13 de junho: Villa apresenta seu segundo concerto sinfônico no Teatro São Pedro, promovido por Laurinda Santos Lobo, dama da alta sociedade carioca. Nesse concerto o presidente Epitácio Pessoa esteve presente. Oscar Guanabarino, na edição do dia 14 do Jornal do Commercio, inicia seus ataques a Villa-Lobos. Em outubro: Villa executou mais um concerto promovido pela Sra. Laurinda Santos Lobo. Compõe a Prole do Bebê n.º 2, para piano. 21 de outubro: no São Nobre do Jornal do Commercio, RJ, estreia do Quarteto Simbólico para flauta, saxofone, harpa, celesta e coro Feminino, na interpretação de Pedro de Assis, Antão Soares, Rosa Ferraiol e Lucília Villa-Lobos – o mesmo concerto será repetido num dos Festivais da SAM, em fevereiro de 1922. Nessa obra, Villa-Lobos, pela primeira vez no Brasil, em execução de Música de Câmara, utilizou jogos e projeções de luzes sugerindo “ambientes estranhos de bosques místicos, sombras fantásticas”. 20 de outubro: Mário e Oswald de Andrade chegam ao Rio de Janeiro, um dia antes do concerto de Villa-Lobos. Villa recebe a visita em sua casa no Rio de Janeiro de: Graça Aranha, Ronald de Carvalho e Paulo Prado, que foram convidá-lo para participar de um evento que aconteceria em S. Paulo no início do próximo ano (a Semana de Arte Moderna). O compositor confirmou presença. - O maestro Francisco Braga, de indiscutível destaque na vida musical do Rio, foi a um cartório e passou um curioso “atestado de competência artística”: “O senhor Villa-Lobos tem um enorme talento musical. De uma capacidade produtora enorme, tem uma bagagem artística considerável, onde existem obras de valor, algumas bem originais. Não é mais uma promessa, é uma afirmação. Penso que a Pátria muito se orgulhará, um dia, de tal filho. Cinco de dezembro de mil novecentos e vinte e um. Francisco Braga”.[5];
Adendo:
- Criada a Sociedade Concertos Sinfônicos, teve, em seu concerto inaugural apenas umas quarenta pessoas; durante o ano seguinte, a plateia cresceu extraordinariamente (conf. a revista “Musica” – S. Paulo, Ano I, nº 2, setembro de 1923).
1922 – Participa da Semana de Arte Moderna de S. Paulo. A SAM aconteceu nos dias 11 a 18 de Fevereiro. Três dias: 13 (segunda-feira), 15 (quarta-feira) e 17 (sexta-feira), foram destinadas à música. A programação é a que segue:
- Dia 13: Graça Aranha profere, inicialmente, uma conferência sobre o tema A Emoção Estética na Arte Moderna, ilustrada com música e poesia. A parte musical ficou a cargo do pianista, regente, compositor, professor e folclorista Ernâni Braga, que executa D’Edriophtalma, segunda peça da sequência Embryons Dessechés de Errik Satie e uma peça de Francis Poulenc. A seguir, desenvolve-se a primeira parte do programa musical: Villa-Lobos (Sonata nº 2, para violoncelo e piano, de 1916. Intérpretes: Alfredo Gomes, no violoncelo e Lucília Magalhães Villa-Lobos no piano); Trio nº 2, para violino, violoncelo e piano, de 1915. Intérpretes: Paulina d’Ambrósio no violino, Alfredo Gomes, violoncelo e Frutuoso Viana, piano. A segunda parte desse dia abre com uma conferência de Ronald de Carvalho sobre o tema a Pintura e a Escultura Moderna no Brasil. Na sequência dessa noite, mais Villa-Lobos com: Valsa Mística, para piano, da Simples Coletânea, de 1917/19; Rodante, para piano, da Simples Coletânea; A Fiandeira, para piano, de 1921. Intérprete: Ernâni Braga; e finalmente: Danças Características Africanas (transcrição do original para piano, composto em 1914/15, para octeto), com as seguintes Peças: Farrapos (Dança dos Moços – Dança Indígena nº 1), Dankukus (Dança dos Velhos – Dança Indígena nº 2) e Dankikis (Dança dos Meninos – Dança Indígena nº 3). Intérpretes: Paulina d’Ambrósio (violão), George Marinuzzi (violão), Orlando Frederico (viola), Alfredo Gomes (violoncelo), Alfredo Corazza (contrabaixo), Pedro Vieira (flauta), Antão Soares (clarinete) e Frutuoso Viana (piano)[6].
- Dia 15: O segundo festival teve início com uma palestra de Menotti Del Picchia. A seguir: Au Jardin Du Vieux Serail, para piano, da Suíte Andrinople, com E. R. Blanchet. Após, Villa-Lobos: O Ginete do Perrozinho, para piano, da coletânea Carnaval das Crianças, de 1919/20. Debussy, com La Soirée dans Grenade, para piano, das Estampes; Minstrels, para piano, do Livro I dos Préludes. Por insistência da plateia, a intérprete executou ainda: L’Arlequim, para piano. Intérprete: Guiomar Novaes. A segunda parte da noite foi iniciada com uma palestra de Mário de Andrade, no saguão do Teatro. Na sequência, Renato Almeida: “Perennis Poesia” (alocução omitida em vista agitação da plateia). Retorna Villa-Lobos; Festim Pagão, para canto e piano, de 1919 – poesia de Ronald de Carvalho; Solidão, para canto e piano, das Historietas, de 1920 – poesia de Ribeiro Couto; Cascavel, para canto e piano, de 1917 – poesia de Costa Rego Júnior. Intérpretes: Frederico Nascimento Filho (canto) e Lucília Guimarães Villa-Lobos (piano); Quarteto nº 3, para cordas, de 1916. Intérpretes: Paulina d’Ambrósio (violão), George Marinuzzi (violão), Orlando Frederico (viola) e Alfredo Gomes (violoncelo)[6].
- Dia 17: Na primeira parte, Villa-Lobos: Trio nº 3, para violino e piano, de 1918. Intérpretes: Paulina d’Ambrósio (violão), Alfredo Gomes (violoncelo) e Lucília Guimarães Villa-Lobos (piano); Lune D’Octobre, para canto e piano, das Historietas – poesia de Ronald de Carvalho; Eis a Vida, para canto e piano, dos Epigramas Irônicos e Sentimentais, de 1921/23 – poesia de Ronald de Carvalho; Jouis Sans Retard, Car Vite S’écoule La Vie, das Historietas – poesia de Ronald de Carvalho. Intérpretes: Maria Emma (canto) e Lucília Guimarães Villa-Lobos (piano); Sonata-Fantasia nº 2, para violino e piano, de 1914. Intérpretes: Paulina d’Ambrósio (violão) e Frutuoso Viana (piano). Na segunda parte da noite figuraram as seguintes obras de Villa-Lobos: Camponesa Cantadeira, para piano, da Suíte Floral, de 1916/18; Num Berço Encantado, para piano, da Simples Coletânea; Dança Infernal (ou Bailado Infernal); para piano, de 1920 – do projeto de ópera Zoé. Intérprete: Ernâni Braga; Quarteto Simbólico (Impressões da Vida Mundana, de 1921). Intérpretes: Pedro Vieira (flauta), Antão Soares (saxofone), Ernâni Braga (celesta), Frutuoso Viana (piano em lugar de harpa) e Coro Feminino. Essa obra está registrada no catálogo do Museu Villa-Lobos sob o nome de Quatuor. Tem como Movimentos: Allegro Con Moto, Andantino e Allegro Deciso. A obra Quatuor dura cerca de 20 minutos[6].            

- Após a SAM, Villa-Lobos permaneceu em S. Paulo para reger, em 7 de março, um concerto sinfônico só com obras suas, sob os auspícios da Sociedade de Cultura Artística. Em 18 do mesmo mês volta ao Rio para reaparecer em S. Paulo em abril, e no dia 14 realiza um concerto, só com obras suas, numa promoção da Sociedade de Concertos Sinfônicos. No dia 17, realiza-se um concerto com música de câmera do compositor[6];
- Segundo depoimento de Fructuoso Vianna (que mais tarde viria a se impor como compositor), sua participação no movimento dependeu unicamente de sua ligação pessoal com o autor de Danças africanas, e não de eventuais preocupações modernistas prévias: “Eu havia me interessado pela figura de Villa-Lobos, que já tinha dado vários concertos no Rio, em homenagem a Epitáfio Pessoa, inclusive. Villa-Lobos tinha participado da composição de uma peça em três partes: “A Guerra”, “A Vitória” e “A Paz”, das quais compôs a primeira, J. Otaviano a segunda e Francisco Braga a terceira. Participei da Semana apenas como intérprete, em função da amizade de Villa-Lobos, nada mais que isso”[7];
- “Um dos episódios mais divertidos da apresentação no Municipal (nos festivais da SAM), é a aparição de Villa-Lobos, de casaca, como mandava o figurino, mas de... chinelo. “Achava-se ele na ocasião atacado de ácido úrico nos pés e tendo um deles enfaixado, apoiado em um guarda-chuva, entrou em cena”, conta a violinista Paulina d’Ambrósio. A plateia, supondo tratar-se de “futurismo” apresentar-se assim, aproveitou a oportunidade para bagunçar o concerto. Contudo, segundo a maioria dos cronistas da Semana, a música de Villa-Lobos, apesar das vaias generalizadas, acabou se impondo”[8];
- Outro depoimento importante é o da violonista Paulina d’Ambrosio: “Fazíamos ensaios diários, executando sonatas, trios, quartetos e outros conjuntos num abrir e fechar de olhos. Além de músicos e outros artistas, muitos dos quais prematuramente desaparecidos e que, reunidos na casa de Villa-Lobos, penetravam pela noite em saraus inesquecíveis. (...). Os ditos engraçados e pitorescos que adiante relatarei e que tiveram lugar no teatro Municipal de S. Paulo, motivaram momentos jocosos em nossas reuniões. Cumpre assinalar que as realizações no referido teatro foram tumultuosas; - metade da plateia delirava aplaudindo e restante vaiava. (...) Quanto a mim, antes de começar a tocar uma sonata (aliás muito aplaudida) no levantar a alça do meu vestido que estava fora de lugar, gritaram: - “Quem tem alfinete aí?”– o que me fez chorar de nervosismo, sendo acalmada pelas boas palavras e olhares de advertência do querido Villa. Achava-se ele na ocasião atacado de ácido úrico nos pés e tendo um deles enfaixado, apoiado em um guarda-chuva, entrou em cena. Nessa mesma ocasião o insuperável artista Nascimento Filho (vulgo “Pequenino”) começou a cantar e então um gaiato nas galerias gritou: -“Ridi Pagliaccio”, e o Nascimento replicou: - “Desse para eu lhe ensinar como se canta”, e o Villa, com a ponta do guarda-chuva espetou-o para que se calasse. No dia seguinte, Nascimento apareceu com um dos olhos arroxeados, produto de sua singular lição de canto”[9]; 
- Sobre o que foi o acontecimento da SAM, Villa escreve ao amigo Arthur Iberê de Lemos, publicado no Jornal do Brasil em 6 de setembro de 1967.  Eis apenas um trecho dessa sua carta: “Quando chegou a vez da música, as piadas das galerias foram tão interessantes, que quase tive a certeza de a minha obra atingir um ideal, tais foram as caias que me cobriram de louros. //No segundo, a mesma coisa na parte musical, e na parte literária a vai aumentou. //Chegamos ao terceiro concerto, que era em minha homenagem. Que susto passaram os meus intérpretes, vais ver... //Organizei um bom programa, revestido dos melhores intérpretes. Começamos pelo 3º Trio, que, de quando em quando, um espectador musicista assobiava o principal tema, paralelamente com o instrumento que o desenhava. A Lucília e a Paulina queriam parar, eu me ria e o Gomes bufava, mas foi até o fim. Nos outros números, novas manifestações de desagrado, até ao último número, que foi o quarteto simbólico, onde consegui uma execução perfeita, com projeção de luzes e cenários apropriados a fornecerem ambientes estranhos, de bosques místicos, sombras fantásticas, simbolizando a minha obra como a imaginei. Na segunda parte desse quarteto, lembras-te? o conjunto esclarece um ambiente elevado, cheio de sensações novas. Pois bem. Um gaiato qualquer, no mais profundo silêncio, canta de galo com muita perícia. Bumba... //Pôs abaixo toda a comoção que o auditório possuía, provocando hilaridade tal que a polícia (finalmente) interveio prendendo os graçolas e mais duas latas grandes de manteiga cheias de ovos podres e batatas. Esses moços, ao serem interrogados, declararam que aqueles presentes estavam destinados a coroarem os promotores da Semana de Arte Moderna de S. Paulo, como se fossem flores e palmas, mas que tal não fizeram porque respeitavam os intérpretes que na maioria eram paulistas. Uf!... chega”[10];
- Sobre a reação do público na SAM, é importante não esquecer que era um público muito conservador e, logicamente, não poderia gostar das músicas apresentadas, que tinham uma semelhança às do compositor impressionista francês, Debussy;
- Villa-Lobos teve, logo após a SAM, um combatente ferrenho com o jornalista e crítico carioca Oscar Guanabarino – que o criticou em várias crônicas nas edições do Jornal do Commercio. Foi defendido por Menotti Del Picchia, que rebateu as provocações de Guanabarino. Esse crítico também atacou vários outros participantes da SAM;
- Julho: o deputado Arthur Lemos apresenta no Congresso projeto que previa a liberação financeira para que Villa realizasse 24 concertos de artistas brasileiros nas metrópoles europeias. O valor previsto no projeto era de 108 contos de réis. O projeto não foi aprovado. Os favoráveis ao projeto propuseram uma emenda para que o valor fosse reduzido para 40 contos de réis. Aprovado, Villa recebeu a primeira parcela de 20 contos de réis. A segunda parcela não recebeu. Aficionados de Villa, naquela ocasião, para ajudar financeiramente a viagem, organizaram concertos no Rio e em S. Paulo. Somente assim Villa conseguiu viajar para a Europa no ano seguinte;
Adendo:
- Ano do Centenário da Independência, fundação do Partido Comunista do Brasil, Primeira Rebelião Tenentista no Rio de Janeiro, Mussolini toma o poder na Itália;
- MA publica Paulicéia Desvairada. Inicia-se a publicação da Revista Modernista Klaxon, em S. Paulo;
- 7 de setembro: primeira emissão de rádio no Brasil;
- 1º de Novembro: morre no Rio de Janeiro o escritor Lima Barreto;
- Arthur Bernardes é eleito presidente da República. O país está ainda sob estado de sítio.
1923Compõe Noneto. 21 de abril: Novamente em S. Paulo, Villa rege, sob o patrocínio da Cultura Artística, um concerto sinfônico com obras exclusivamente dele. 30 de junho: inicia sozinho, a bordo de um navio francês “Groix”, a sua primeira viagem à Europa: “Vim mostrar o que eu fiz. Se gostarem, ficarei, senão voltarei para a minha terra”, declarou ao chegar a Paris. E Paris passou a ser sua segunda cidade. Lá chegou e encontrou o apoio daquela que seria a grande artista do modernismo e da antropofagia no Brasil, Tarsila do Amaral. Em 22 de abril, MA escreve a MB, mencionando Villa, conforme trecho que segue:

S. Paulo, 22 [de abril de 1923].

Querido Manuel.

Há muito tempo não te escrevo!
(...).
(...)... O Villa-Lobos só conseguiu duas casas vazias e “déficit”... Nos jornais: cabala para diminuir-lhe o valor. “Moço de talento”, “Músico interessante” e outros pedantismos pesados, conselheirais...12 Burros! Mais que burros, porque são maus. Infames! E sofro. Aqui em casa riem de mim porque ando a sofrer males alheios. (...).
Trabalho atualmente numa conferência: “Paralelo de Dante e Beethoven”, para o Vila Kyrial13.
E vou almoçar. Um adeus abraçado do
Mário.

- Nota 12: No mês seguinte, MA assinava na Revista do Brasil nº 89, a crônica musical “Villa-Lobos”, contrapondo o valor singular à inabilidade do músico carioca de se exprimir através de juízos críticos-teóricos. O texto fixa o particular interesse de MA por Heitor Villa-Lobos (1887-1959) que se tornava “cada vez mais músico brasileiro”. O crítico expande o julgamento: “Porém esse nacionalismo que o dignifica, não é nacionalismo exterior de Ligas patrióticas [...]. É qualquer coisa de mais seguro e menos moda.” As raízes desse caráter musical brasileiro de Villa-Lobos alimentaram-se de vertente da canção popular urbana, que se aliou ao aprendizado erudito, com estágios no clarinete e violoncelo, este sob a tutela de Benno Niederberger. Outros ramis de encontro com a cultura nacional se deram nas quatro grandes viagens do autor das Bachianas pelo Brasil, antes de 1912. A ligação com os modernistas de S. Paulo foi propiciada por Graça Aranha e Ronald de Carvalho, que o convidaram a aderir à Semana de 22, onde, para escândalo de todos, em decorrência de uma dorida afecção no pé, apresentou-se descalço. A celebridade, contudo, chega via Paris. Lá desembarcando em 1923, dispara a habitual excentricidade: “Não vim estudar com ninguém; vim mostrar o que eu fiz”. E venceu.
- Nota 13: Nota MB: Vila Kyrial: a casa de José de Freitas Valle, o poeta Jacques d’Avray, muito amigo do grupo modernista. A chácara da Domingos de Morais, nº 10, denominada Vila Kyrial, “um dos mais luxuosos palácios de S. Paulo”, foi residência do deputado e poeta José de Freitas Valle. (...)[11];

- 20 de maio: MA escreve para Tarsila do Amaral que se encontrava em Paris, mencionando Villa. Segue apenas o trecho e a nota:

São Paulo, 20 de maio de 1923.

Querida Amiga.

Esta é a terceira carta que te escrevo. (...) Para começar, mando-te esta impressão do Tédio de Alvorada do Villa-Lobos6:

Nota 6: De acordo com informação do estudioso Vasco Mariz sobre a peça Tédio de Alvorada, trata-se de poema sinfônico, com a duração de 15 minutos, escrito em 1916, no Rio de Janeiro. Não foi editado. Estreou no Rio de Janeiro, no Teatro Municipal dessa capital a 15 de maio de 1918, com a orquestra do maestro Soriano Robert. Já dentro da linha nacionalista, e daí o interesse suscitado em Mário de Andrade, foi transformado posteriormente (1918), no Bailado Uirapuru. O Museu Villa-Lobos possui o autógrafo do Tédio de Alvorada. Depoimento telefônico de Vasco Mariz à A. em 11 mar. 1998.

TÉDIO DE ALVORADA

A primeira voz da mata goteja das franças, úmida de orvalho.

O arrepio da brisa
murmúrios
cochichos
asa trépida no vale vasto, adormecido pela noite de estio.

Tudo acorda e se queda num bafo lânguido de sumo e de suor.

                                                                                              SUSPIRO.

É o dia mais uma vez.
O dia outra vez.
Vai se repetir a maravilha fantástica do dia.

Já surge no céu desnublado do oriente o pincel verde do sol.
E ele virá de novo pintar a mesma paisagem...
As mesmas árvores vão equilibrar-se no quadro...
O mesmo ribeirão nacionalista, com o sombrio das águas fundas...
De manhã riscarão o céu sempre gritos...
Ao meio-dia a natureza morrerá...
De tarde o pormenor romântico dum veado...
O Dia mais uma vez!

                                                                                              SUSPIRO.

A madrugada enjoada vira-se no leito elevado.
Dá as costas à Terra, para não ver.
Seus cabelos duros de noite
caem pesadamente pelas lombadas dos morros macios,
descobrindo-lhe o corpo.
E sobre as almofadas de horizonte, preguiçosa,
ela move as hercúleas coxas róseas.

//Que tal?
Dá um grande beijo em Paris por mim.
E o meu beijo nas tuas mãos.

Mario.

Rua Lopes Chaves, 108.[12]

OBS:- No livro citado “[12]”, na página 69, Nota 11, referente a uma carta que Tarsila do Amaral escreve a MA, de Paris, em 23 de maio de 1923, surge o nome de “Vera Janacopoulos”. A Nota 11, explica:
- Vera Janacopoulos, cantora e intérprete de Villa-Lobos, foi a estimuladora da ida do compositor para a Europa. Seu marido, Alfred Staahl, e Arthur Rubinstein apresentaram-no ao editor Max Eschig, da casa Éditions Max Eschig, Paris, “e, em suas tournées a famosa contara começou a divulgar-lhe as canções, em seus recitais em vários países vizinhos” (ver Vasco Mariz, Heitor Villa-Lobos/ Compositor Brasileiro, 5 ed., Rio de Janeiro, Ministério da Cultura, Fundação Nacional Pró-Memória: Museu Villa-Lobos, 1977, p. 71-7). (...).

- 11 de outubro: Sérgio Milliet envia carta de Paris a Yan de Almeida Prado, mencionando Villa. Segue trecho:

“Meu caro Yan, recebi três cartas ao mesmo tempo. Ontem foi um dia de festa brasileira. (...). Falas-me no incidente Vila-Oswald? Acho que foste mal informado. Em realidade o Oswald não deu conselhos ao Vila. Mas quis mostrar-lhe, por amizade, o movimento moderno francês e, naturalmente, sendo extremista, expôs idéias extremistas que o Vila refutou violentamente. É tudo. (...). O Vila que entrou com o pé direito em Paris e que já tem sucesso seguro é um músico genial mas, nós o sabemos, um filósofo mulo e um péssimo crítico de arte. O estilo dele em literatura é pompier, grandiloquente, bombástico. Não quero dar razão a Oswald nem ao Vila. Apenas exponho os fatos. É natural que o Vila não tenha uma cultura literária e artística como a do Mario, mas é também natural que o Oswald não conheça música. O que acontece é que ambos não sabem discutir e vivem com malentendidos entre si. Mas tudo isso já passou e eles já se dão muito bem de novo. Eu assisto a todas essas intriguinhas com uma deliciosa ironia. É muito difícil ver dois brasileiros discutirem idéias sem que se ataquem no fim pessoalmente! Que povinho extraordinário. (...).[13]

- 17 de novembro: Villa envia carta a Yan de Almeida Prado:

“Yan, bom amigo.
Desde o dia em que pizei (com o pé direito) em Paris, senti-me inundado pelo olhar radiante da boa estrella. E agora, vem augmentar esse contentamento uma interessante carta tua.
Parece impossível, mas esse endiabrado adivinho, que me citas com tanta graça, buliu-me na tecla da minha vida. Somente, notei, que tu azulavas de tinta a tua carta, com teu maduro cultivo de história e resplandecente talento, de quem observa tudo atravez (talvez ainda) das redondas vidraças de uns americanicos óculos, que se equilibram (um pouco distante como a lei da atração) de uns fiapos endurecidos (como uma escova de dentes) que o vulgo chama de bigode.
Mas, ficaria mais radiante, se me mandasses notícias desses queridos amigos de São Paulo. Do Tacito, Couto, Mario, Paulito, os dois Vicentes, os Aranhas e etc. Sobre a minha pessoa, nada te posso dizer aqui, porque ainda não consegui o que pretendo, o que saberás certamente, logo que foi deliberado. Sobre as minhas impressões é completamente impossível descrevê-las numa carta, mesmo reduzindo. Só escrevendo um livro ou descrevendo pessoalmente.
Em todo caso, la vae alguma cousinha:
Paris, é Paris. Move-se continuamente. A sua vida exhorta a conquista e a conquista surda e cega se ampara na novidade. É uma lucta terrível que subjuga a sinceridade e os dons cultivados em favor do homem que substitue todas as cousas pelo cérebro, como se a própria arte não fosse uma interpretação e sim uma acção fisica, material.
Compreendo perfeitamente toda intenção dos exagerados artistas daqui, cujo effeito, noto com a minha nervosa calma de observador, um circulo vicioso, em que nem mesmo se entendem.
São inimigos uns dos outros, e cada qual acha que sua arte e opinião e uma sentença definitiva.
Quanto a mim, vejo-os do quinto andar da minha modesta morada intellectual de Paris, como se visse um desordenado cordão carnavalesco atravessando fanaticamente a nossa pequenina avenida Central. Tranquilamente vou-os deixando passar.
Longo abraço do teu Villa”[14]

1924 – Compõe o Choros n.º 2 e o Choros n.º 7. Em Lisboa, dias 9 e 16 de março. O compositor realiza concertos na Bélgica, em 3 de abril. Em Paris, participa de outros concertos, dias 7, 9 e 11 de abril.  30 de maio, em Paris, na Salle Des Agriculteurs, Villa realiza outro concerto, dedicado inteiramente à suas obras. A embaixada do Brasil na França foi a patrocinadora do evento. Participaram: o pianista Arthur Rubinstein, Vera Janacopulos, Souza Lima, Coro Misto de Paris e Societé Moderne d’Instruments à Vent. A direção coube a Villa. Arthur Rubinstein, fez questão de interpretar Prole do Bebê nº 1. MB,  na revista Ariel (S. Paulo), anuncia a volta de Villa ao Brasil, em setembro. A revista foi publicada no mês seguinte. Manuel menciona na crônica um depoimento de Villa-Lobos: “(...). Em Paris, uma cousa o abalou perigosamente: o Sacre Du Printemps, de Stravinsky. Foi, confessou-me ele, a maior emoção musical da sua vida”[15]. 10 de outubro: MA escreve para MB:

[S. Paulo], 10 de outubro de [1924].

Manuel

         Sem dúvida deves mandar o teu livro ao Paulo que não conserva contra ti o mínimo ressentimento. (...). //Apesar da tua Santa Teresa alta e longínqua tens de me fazer um favor. Desce ao Rio. Compra-me-ás uma Lenda do caboclo do Villa-Lobos. Preciso dela com urgência para ser estudada por uma aluna minha. (...)[16];

- 31 de outubro: MA escreve a MB mencionando Villa:

[S. Paulo], 31 de outubro de 1924.

Manuel,

recebi as coisas que mandaste pra Ariel78. Tomei a liberdade de mudar o título “Cartas do Rio” pra “Villa-Lobos”, porque chama mais a atenção e para variar. Serve. O escrito está excelente. O artiguete “Futurismo” creio que não sairá no próximo número por não haver Sinfonieta. Há matéria demais. Farei reproduzir os maravilhoso olhos da Heloísa79. //Aqui vão Primeiro Andar e “Cenas de crianças”80. Estas foram escritas como férias à Paulicéia no mês seguinte do da escritura primeira e tumultuária desta. Não lhes dou a mínima importância e nunca as publicarei81 creio. Talvez alguma servisse pro Villa musicar. Villa que surpreendeu mais que ninguém no Brasil, na América, quase que no mundo, sendo-lhe superior apenas Mussorgski82, o material musical da criança. (...).
(...).

Mário

Notas:
- 78: Nota MB: Ariel: revista musical que se publicava em S. Paulo e da qual fui correspondente no Rio.
- 79: A crônica “Villa-Lobos”, noticiário sobre a chegada de Villa-Lobos ao Brasil, conta os sucessos do músico em Paris. MB mostra uma personalidade genial, dotada de “imaginação alucinatória”, trocando em miúdos algumas das declarações polêmicas de Villa-Lobos: “Noto aqui, maliciosamente, que o nosso querido amigo voltou brabo com os modernos. Não é moderno! [...] Eu não tenho estilo! [...] Aqui há um mal entendido sobre palavras.” (...).
- 80: Nem MA, nem MB conservaram em seus arquivos o manuscrito do poema aqui referido como “Cenas de crianças”.
- 81: Nota de MB: De fato nunca as publicou. Sempre achei que mereciam ser publicadas.
- 82: Modest Petrovitch Mussorgsky (1839-1881), compositor russo [17].

- 16 de novembro: MB escreve a MA mencionando Villa:

[Rio de Janeiro], 16 de novembro de 1924.

Mário.

     Então Ariel semi-morreu. E morreu para nós. Tenho pena, também. Tinha meu fraco por Ariel. (...) //Ontem num concerto encontro-me com o Villa (Breve aparecerá aí por S. Paulo). Fomos depois juntos à casa do Guilherme, onde se despedia o Ronald, de partida para Peru, (...). //Saímos eu, Graça, Villa e Sérgio. (...) Eu recitei para o Villa o “Rola-Moça”, o “Coronel Antonio de Figueiredo Leitão” (com, por algo, a ponte “Eu quisera contar todas as histórias, etc., etc.”). Villa ficou assanhado.
(...)
Que quer dizer Ciao? Adeus italiano?... Pois Ciao!

M.[18]

- Carta sem data de MA a MB mencionando Villa:

[S. Paulo, dezembro de 1924].

Meu caro Manuel.

(...).
//Uma coisa: Não me saber dizer nada do Villa? Me escreveu que vinha para cá, marcou dia, até hora de chegada. Isso fazem quase duas semanas já137. E não veio. E não escreveu mais. Não fui na estação. (...).

Adeus.

Mário.

Nota:
- 137: Villa-Lobos, em bilhete de 20 de dezembro de 1924, informava sumariamente a MA: “embarco aqui infalivelmente terça-feira 23 do corrente e te pedir (sic) para comunicares aos nossos amigos”. (Arquivo MA, Série Correspondência)[19].

- 18 de dezembro: MA escreve a MB mencionado Villa:

[S. Paulo, post. 18 de dezembro de] 1924.

Manuel

(...).
Villa chegou139. Como sempre: chega, vê e vence. E cansa também. Vence por aquela força que tem, aquela inconsciência no agir em negócios que o tornam singularmente cômico nesta cidade negociante. Domina por isso. Creio que conseguiremos que ele arranje por aqui uns cobre e em troca dê uns concertos. Vamos a ver! Mas ao mesmo tempo que domina a gente pela música e pelo jeito, cansa, meu Deus! Quando ele começa a falar e diz teorias, críticas etc. é um pavor. Nunca vi cabeça mais embrulhada que aquela. Às vezes tem críticas finíssimas, acertadíssimas. Mas isso vem de embrulho com uma porção de nefelibatismos, erros e até tolices. Mas não faz mal. A gente agüenta a conversa dele porque lembra-se da música. Já estivemos juntos duas vezes. Hoje jantaremos em casa de Dona Olívia. Vai ser uma boa noitada com Souza Lima, Segall, creio que Paulo Prado também. Ando numa roda viva de prazeres e gostos. (...).
Conta-me coisas e me abraça.

Mário

Não tem jeito mesmo de vires ao concerto do Villa? Vê se arranjas isso. Está verão aqui. Até fins de janeiro, data do concerto, já não terá mais chuva. S. Paulo estará grandiosa.

Nota:
- 139: “O Villa chegou ontem aqui em S. Paulo”, escreve MA, em 10 dez. 1924 a Sérgio Milliet em Paris. Contudo, os concertos dele só se realizam no início de 1925. Em outra carta, sem data, agora para Prudente de Moraes, neto, MA menciona a apresentação de Villa-Lobos: “S. Paulo está cheia do Villa-Lobos. Já deu o 1º concerto. Estupendo. O só de músicas dele vai ser dia 19 de fevereiro. O Noneto, o Trio para instrumento de sopro, enfim o que ele tem de melhor entre as coisas modernas. Moderníssimas. Acredito que ele não escapa da vaia”. Despedindo-se de prudente nessa mesma carta, MA se queixa de abatimento e doença. No dia do tão esperado concerto, 18 de fevereiro, a doença ganha proporções de cama e então, a carta endereçada a Carlos Drummond de Andrade documenta o dissabor: “Devo estar bem doente. Hoje inda por cima, estou triste. A estas horas o concerto de obras do Villa deve estar pelo meio. Não fui.” (18 fev. 1925) [20].

- 18 de dezembro: MA escreve a MB mencionando Villa:

[S. Paulo], 29 de dezembro de 1924.

Manuel,

(...).

Bem, tua carta acabou. E a minha também. Vê se te resolver vir pro concerto do Villa. Estive ouvindo umas coisas do Noneto e da peça pra piano e orquestra. Fantástico. Se estiveres aqui eu te mostrarei as maravilhas que tem lá dentro. O que é mais engraçado é que o Villa está fazendo justamente o que nós queremos e o Z... não quer – Primitivismo pau-brasil. Não conte pro Villa isso. Era capaz de fazer música universal e integrar-se no Cosmos.

Mário [21]
Adendo:
- Oswald de Andrade publica Memórias Sentimentais de João Miramar;
- Tem início a Coluna Prestes.
1925 – 3 de janeiro: MA escreve a MB mencionando Villa:


[São Paulo, post. 3 de janeiro de 1925].

Manuel.

Aproveito uma estiada do abatimento e escrevo pra você. (...). //Fiquei triste com a notícia de que de certo você não vem a São Paulo. Não sei quando será o concerto das obras do Villa. Talvez mesmo em fevereiro. Se você estiver com o Couto, ficará bem fácil dar um pulo até aqui. Se o programa valer a pena mando falar. O Villa talvez não possa dar quase nada das coisas novas que tem. É tudo dificílimo e requer concertistas consumados. Depois, ficam horrorizados com o modernismo e fogem com o corpo. É uma pena. Um dos meus maiores desejos seria ouvir o Trio para oboé, clarineta e saxofone. Me parece uma obra-prima. Ontem estive com o Villa de manhã. Coitado, de cara inchada, creio que um abcesso. Já soube que rasgou, pelo Rubens. Mas não fui lá, nem tive coragem pra telefonar. Passei hoje o dia inteirinho deitado. (...).

Mário [22]

- Em fevereiro, 8, 18 e 20, em S. Paulo, rege seus primeiro concertos.
- 18 de fevereiro: quando Villa realizava concerto em S. Paulo, MA escreve carta a Prudente de Moraes, neto. Segue a descrição apenas dos dois primeiros parágrafos onde MA refere-se ao concerto de Villa:

18 de fevereiro 1925

Prudente

Castigo do céu... O concerto de Villa deve ter principiado agorinha mesmo...
Pra disfarçar esta raiva de não ir escrevo aos amigos. (...)[23];

- Villa realiza também concerto no Rio de Janeiro. Compõe o Choros n.º 2, nº 3, n.º 8 e o n.º 10. Compõe também as Serestas, para voz e piano. Em maio: viaja para a Argentina. Após concerto é apresentado pelo embaixador brasileiro, Pedro de Toledo.
- 26 de julho: MB escreve a MA mencionando Villa:


Rio de Janeiro, 21 de julho de 1925.

Marioscunque

(...). Há noites atrás passei horas agradáveis em casa do Villa. Não havia mais ninguém. E eu não deixei o homem sair da música. Villa é enorme. Com um piano de aluguel arrebentadíssimo, uma técnica à la diable, aquela voz, os olhos de louco e que mais, meu Deus? ele cria um conjunto orquestral inédito, tão admirável como um quarteto de cordas ou um jazz-band!! Eu rio e admiro a valer. Volto pra casa e não posso dormir. Começo a ver uma porção de Villa-Lobinhos, falando, gesticulando...

Abraços do M. [24]

- 13 de setembro: MB escreve a MA mencionando Villa:


Rio de Janeiro, 13 de setembro de [1925].

Mário

(...).
E o Vila em concubinagem com Coelho Neto??131
Ciao.

M.

Nota 131: O próprio Henrique Coelho Neto (1864-1934), ao fazer publicar a conferência que antecedeu à apresentação de Villa-Lobos no Instituto Nacional de Música, em 22 de setembro, justifica-se do aparente paradoxo: “O nome do audacioso artista, consagrado na Europa, já não desperta o riso: começam a tomá-lo a sério. Se o público o acolheu com simpatia e, por vezes, até com entusiasmo, não fizeram o mesmo certos mocinhos da grei chamada ‘futurista’, porque entenderam que Villa-Lobos traíra convidando-me para figurar no programa do seu festival, a mim, ‘um passadista ferrenho’”. Com ar de superioridade, Coelho Neto, não obstante a confessada ignorância musical, reconhece no compositor o caráter revolucionário, mas prevê um futuro menos tumultuário: “A sua música [...] está, por enquanto, férvida, acachoada, revolvendo-se em turbilhão espumoso [...] Há de chegar à planície e, remansada e límpida, correrá em rio, cantando docemente, reproduzindo todos os sons da Pátria.” Ainda pela letra do “passadista” encontra-se a alma do “modernista”: “Mas será Villa-Lobos futurista? Não! Disse-m’o ele próprio, com energia. Nem futurista, nem passadista – Eu sou eu!” (“Villa-Lobos”, s. ind., Arquivo MA, Série Matéria Extraída de Periódicos).[25];

- Em setembro, 22, Villa realiza concerto no Salão do Instituto Nacional de Música, Rio de Janeiro. Coelho Neto, a convite de Villa, foi o apresentador do concerto;
- 30 de outubro: MB escreve a MA mencionando Villa:

Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1925.

Mário.

(...). Escrevi duas crônicas sobre o Villa, uma prao Brasil Musical, outra pra Idea Illustrada. Naquela é só elogio porque o italianão quando me pediu pra escrever alegou que não escrevia porque se escrevesse era pra meter o pau. História. Ele não escreve porque não sabe escrever. E como no concerto ele andou se rindo com um sujeito muito burro chamado Octaviano Gonçalves158, eu resolvi no artigo pra ele tratar o Villa de gênio. Na crônica da Idea como eu estava meio safado com o Villa homem, que reputo mau caráter, e safado com certas burrices e presunções de Villa artista e filosquetroque, resolvi esculhambar, reconhecendo aliás o mérito genial dele159. Também achei estupendo o Septimino160.
(...).
Ciao!

M.

Notas:
- 158: João Octaviano Gonçalves (1892-1962), ou J. Octaviano, como assinava, colaborou em periódicos musicais e lecionou no Instituto Nacional de Música, sucedendo a Francisco Braga na cadeira de compositor, a partir de 1938. (...).
- 159: As duas críticas de MB ao concerto de Villa-Lobos para pequenos conjuntos realizado no Instituto Nacional de Música do Rio, em setembro de 1925, foram coligidas em Andorinha, andorinha, sem indicação de periódico (“Villa-Lobos: um concerto em duas críticas”, p. 89-92). Ambas, realmente, manifestam entusiasmo pela obra do músico, ao concebê-la como “expressão de uma surpreendente vitalidade espiritual”. Diferem estrategicamente. Na crítica da primeira quinzena de outubro, MB não mede elogios: “um músico que sem favor podemos colocar entre os seis ou sete nomes mais fortes da atualidade musical” e, a certa altura da análise, constatando a audácia de Villa-Lobos, explode: “[...] genial. Genial, sim senhores. Acabamos com essa covardia pequeníssima de só falar em gênio quando o homem já morreu ou é estrangeiro!” No outro texto, também de outubro, MB a propósito de declarações do músico na imprensa argentina, encontra espaço para “esculhambar”: “Villa-Lobos para mim é músico e nada mais. Pensamento? Nunca vi mentalidade mais confusa. Temperamento? Ouvido? Isso Sim”.
- 160: A mais forte [das peças novas de Villa-Lobos] nos pareceu o Septimino (Choro nº 7), onde a par daquela prodigiosa riqueza de ritmos e de efeitos de timbres que formam a ambiência natural da música de Villa-Lobos [...] se encontram também deliciosos motivos melódicos, tão frescos, tão isentos de rebusca como de vulgaridade, comovendo a um tempo pelo que há neles de brasileiro e de universal. O Septimino é uma obra forte e leve, forte pela rica  timbres, pelas suas proporções formosíssimas. Isso era bem sensível, apesar de alguns senões da execução que carecia de mais ensaios.” (Andorinha, andorinha, “Villa-Lobos: um concerto em duas críticas”, p. 89).[26]
Anexo:
- 30 de junho: nasce em Campinas, SP, Anna Stella Schic, pianista. Foi amiga de Villa-Lobos. Veio se consagrar como a “grande intérprete de Villa-Lobos”, gravando toda a obra pra piano do Maestro. Escreveu o livro: Villa-Lobos – O Índio Branco. (Faleceu em 1º de fevereiro de 2009, em Nice, França);
- Lourenço Fernandez lança sua primeira obra orquestral: a Suíte Sinfônica, sobre temas populares brasileiros;
- 18 de novembro: nasce em S. Paulo o maestro, compositor, tenor e jornalista Diogo de Assis Pacheco.
1926 – 12 de abril: MB escreve a MA mencionando: “Villa sofreu operação safada na bexiga”[27];
- 15 de abril: MB escreve novamente a MA mencionando Villa:

Rio de Janeiro, 15 de abril de [1926].

Mário.

(...).//(...); de tarde fui me encontrar com o Dante pra irmos jantar com o Villa que eu imaginava ainda de cama cheio de ataduras e atamoles, e dei com ele de braço dado com o Dante na Avenida. Fomos pra rua Didimo. (...)//Depois do jantar Villa cantou duas coisas de uma série Serestas que ele está compondo. A 1ª é pra “Pobre cega” do Álvaro Moreyra. A 2ª é prao “Anjo da guarda”. A música do Anjo está matane parece uma tarde que não acaba mais. Fiquei com os olhos cheios d’água me atraquei com o Villa, beijei-o. Que bruta comoção, puta merda! Quando ele diz “um anjo moreno violento e bom – brasileiro” é tal e qual a minha irmã, Mário! A música é de uma simplicidade e de uma elevação, toda consonante mas de técnica bem moderna e imagine, o acompanhamento é um tema sincopado popular, antes de começar o canto o piano faz um floreio de violão. Começa o canto e quanto chega “ao pé de mim” há um ah! E o piano faz um intermezzo movimentado depois volta a baita melancolia do canto completando a melodia que tinha ficado suspensa. Eu senti uma felicidade... Vai demorar a se publicar porque Villa já vendeu a suíte ao Sampaio Araujo que manda imprimir na Alemanha. Porém eu arranjeit com o Villa mandar tirar uma cópia pra mim. Depois eu tirarei uma pra você, pois estou doido que você conheça.

Está aí, Mário. Uma abraço do Manu.[28];

- 18 de Abril: MA responde a carta a MB:

São Paulo, 18 de abril de 1926.

Manu.

Vivi o seu dia feliz. (...)//Me mande a coisa do Villa porque estou curioso de ver coisa nova dele pra canto e que tenha comoção além de musicalidade pura que nem a últimas. Toda a série de coisas pra violino e canto que ele fez ultimamente é esplêndido como musicalidade, como música pura, porém não tem nenhum sentido além do que nasce indeciso das impressões sensoriais. Estupendo porém sob o ponto-de-vista união de poesia e som me parece indeciso e mesmo defeituoso. Eu sei que a voz pode ser considerada como um instrumento e nada mais, como no Quarteto simbólico, até gosto muito disso, porém desque se trate de poesia e música acho que a música tem que ver com a poesia pra que a ligação seja íntima. (...). Em geral não gosto da música pra canto do Villa. Gosto muito das coisas recentes porém não considero isso música pra canto, é música pra dois instrumentos: violino e voz. Estou pois impaciente pra ver o Anjo-da-guarda, não se esqueça de me mandar. (...).//Ciao, Manu do coração. Em junho bem possível que vá passar uma semana no Rio. Não conte pra ninguém.

Mário

O pai do Gui acaba de morrer. Razão por que esta carta só vai hoje, segunda.[29]

- 1º de maio: MB escreve a MA mencionando Villa:


Rio de Janeiro, 1º de maio de [1926].

Mário.

Com esta lhe mando sob registro uma cópia da música que o Villa escreveu prao “Anjo da Guarda”. Não garanto muito que a cópia esteja fiel. O que garanto é que foi obra de amor pois me deu um trabalhão safado e desanimei duas vezes. O Villa musicou também a poesia do Dante. Embora a melodia seja muito bonita, acho que não condiz com o espírito da letra. Me parece que à poesia do Dante devia ser aplicada aquela maneira claramente expositiva a que você se referiu em sua carta: aqueles versos tem um tom expositivo, não cantante, e a melodia que o Villa arranjou é cantantíssima. Tenho entendido e gostado das últimas coisas de canto do Villa; os estudos e leituras que ele tem feito para a obra de folclore que o Arnaldo Guinle encomendou a ele adoçaram, simplificaram, clarificaram o Villa, é a primeira impressão45. A série das Cirandas para piano são tão bonitas, tão brasileiras e tão pianísticas. É uma gostosura, como você diz. Achei graça que no dia de receber a sua carta estive à noite em caso do Villa e ele, indignado porque os acompanhadores das músicas de canto dele maltratam a parte de piano, disse que de agora em diante vai pôr nas músicas: para piano com acompanhamento de canto.
(...)
Um abraço do

Manu.

(...)

Nota 45: O empresário e dirigente desportista carioca Arnaldo Guinle (1884-1964), encontrando-se com Villa-Lobos em Paris, convida-o para organizar material de feição popular coligido no Nordeste pelos compositores Pixinguinha, Donga e João Pernambuco. Em 8 de janeiro de 1925, Villa-Lobos, entrevistado por Alcântara Machado, explana o projeto: "Pus-me então a elaborar a grande obra em que estou empenhado e que compreenderá 3 volumes. O primeiro, sobre música [...]. O segundo e o terceiro volumes sobre poesia e dança, serão divididos em 3 capítulos: folclore das matas, dos serões e das capitais [...]. Tive necessidade de classificar, de maneira absoluta, todas as músicas e todos os dados e documentos, que vão além de mil.” (“Villa-Lobos e o folclore nacional”, Arquivo MA, Série Matéria Extraída de Periódicos). Gorando o projeto, parte dessa documentação – os folhetos de cordel – foi parar nas mãos de MA, possivelmente em 1929, que passou a utilizá-la como objeto de pesquisa nos planejados Dicionário Musical Brasileiro, Zoofonia, etc. (TERRA, Ruth B. Lêmos. A literatura de folhetos nos Fundos Villa-Lobos).[30]

- 17 de setembro: MB escreve a MA mencionando Villa:

Rio de Janeiro, 17 de setembro de [1926].

Mário.

(...).//Ainda a respeito do Xangô: a melodia chim é mesmo a quem vem na Enciclopédia do Lavignac mas preciso contar que foi o Villa quem deu com ela e batucou-a no piano pra nós ouvirmos. Anteontem voltei à casa do Villa, ele ainda não tinha chegado e eu fui verificar o caso no piano Confesso que achei muito menos analogia e perguntei ao Villa: “É essa mesmo?” ao que ele respondeu: “É. É o Xangô. Os mesmo intervalos”. Não disse nada a ele desta nossa conversa. Não adiantava. Com o Villa quase que não adianta conversar sobre nada. A respeito da maxixe quis aprender com ele. Depois verifiquei que ele repetia mal o que ler no Guilherme de Melo86. Você conhece a obra dele? Ele dá o maxixe como variante moderna do lundu de origem africana. O Villa me disse que o Cardoso de Menezes velho possui em casa o primeiro maxixe, - o maxixe original que apareceu nos clubes carnavalescos. Estou com vontade de procurar esse homem e conversar com ele. A minha idéia é que a palavra “maxixe” vem do título de algum lundu de sucesso onde apareceu pela primeira vez em ritmo mais peculiar. (como o Charleston saiu do fox-trot)87.
(...).
Não posso mais. Ciao.

M.

Notas:
- 86: Guilherme T. Pereira Melo (1867-1932), autor de A Música no Brasil – Desde os tempos coloniais até o primeira decênio da República, a primeira abordagem histórica da música brasileira. (...).
- 87: No envelope que MA destinou para guardar informações do verbete “maxixe” do planejado Dicionário musical brasileiro, uma folha de papel jornal com informações sobre o termo mostra a caligrafia de MB. Esse manuscrito, sem assinatura, informa: “Villa descobriu, julga ter descoberto a origem do maxixe. Um afinador da Casa Artur Napoleão que tem 84 anos e um certo comendador de igual idade assistiram ao nascimento do maxixe num clube carnavalesco, o 1º que se fundou no Rio. ‘Maxixe’ era o apelido do sujeito que nesse clube dançou o lundu de um certo jeito particular que imitado depois por outros deu no maxixe. A música do  lundu evoluiu da mesma forma, impulsionada pelo movimento rítmico da dança. Os dois velhos conhecem o 1º lundu-maxixe. Villa tomou nota de tudo. Será mesmo assim? Pelo menos é razoável./[à margem] O clube parece que se chamava Altenberg ou coisa parecida”.[31]

- 15 de novembro: Villa participa no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, do “O Grande Concerto de Coros e Orquestra”, um espetáculo de gala em homenagem ao Governo da República. O coral teve a participação de cerca de 200 figurantes. Em 24 de Novembro, o programa foi repetido no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com pequenas alterações. Realiza ainda três festivais sinfônicos para a Associação Wagneriana de Buenos Aires, antes do seu retorno à Europa. Compõe o Choros n.º 4, o n.º 5 e o n.º 6. Compõe também as Cirandas, para piano. Segundo José Maria Neves (Villa-Lobos, o choro e os Choros), renomado mestre e profundo conhecedor da obra villalobiana, o Choros nº 10, “estreado no Rio em 15 de novembro, representa a síntese da síntese – uma vez que os Choros se constituem na síntese do pensamento musical de Villa-Lobos”[32]. No final do ano viaja novamente para a Europa com Lucília. Em Paris hospeda-se no apartamento dos Guinle, na place St. Michel;

- Com data de 30 de novembro, MB escreve o artigo “Villa Regendo” [Bandeira, Manuel. Andorinha, andorinha. Edição comemorativa do Centenário de Nascimento do Bardo. Seleção e coordenação de textos de Carlos Drummond de Andrade. Editora José Olympio, RJ, 2 ed. 1986, pp. 92/93], referindo ao concerto do Villa de 15 de novembro:

O grande concerto de coros e orquestra realizado em 15 de novembro por iniciativa do maestro Villa-Lobos, foi um dos mais belos espetáculos de arte brasileira que já se ofereceu ao nosso público. (...)A música nacional há muito tempo que vem repontando, balbuciando na obra dos nossos compositores. Agora tem-se a impressão que começou a falar. Pelo menos este concerto do maestro Villa-Lobos já nos deu uma sensação acabada e gostosa de coisa bem nossa.
(...).
No dia do concerto havia mais luz, havia menos ingenuidade, não havia o cansaço. No dia do concerto havia em toda a gente, no palco e na plateia, entusiasmo, satisfação, gostosura, como se todo o mundo estivesse chupando manga numa varanda de fazenda. (...).
No “Choro nº 3” de Villa-Lobos a parte do Pica-pau é estupenda: a unidade do choro me pareceu duvidosa com o “Nozanina-Orekuá” no começo, e aquele estapafúrdio “Brasil! Brasil!” do fim. (...). Acho que ficava melhor “barril”.
(...).
Villa-Lobos foi aclamado pela plateia unânime, como de fato merecia, estendendo-se os aplausos aos seus numerosos colaboradores, entre os quais se contava a fina flor dos nossos professores, cantores e amadores, que o presentearam em cena aberta com uma baita batuta de ouro. [30.XI.1926]
Adendo:
- 15 de Novembro: posse de Washington Luís, presidente da República.
1927 – Em companhia de Lucília, parte novamente para Paris e se instala na Place St. Michel n.º 11. Em 13 de março, exibe com Souza Lima, na Salle Gaveau, música para um filme mudo – documentário sobre o Brasil. Trabalha como revisor na casa Max Esching. Abril: Na Europa, Villa-Lobos negocia a publicação das suas partituras com a editora Max Eschig. Existe uma vasta correspondência entre Villa-Lobos e Carlos Guinle versando sobre os contratos com a editora Max. Essa correspondência faz parte do acervo do Museu Villa-Lobos. Em 24 de outubro realiza concerto na Salle Gaveau, em Paris. Assim foi anunciado pelo Le Courrier Musical, em 15 de outubro: “Um importante concerto consagrado à audição de obras de Villa-Lobos, um dos líderes da escola musical sul-americana contemporânea, terá lugar na segunda feira, 24 de outubro, em soirée, na grande Salle Gaveau. Os famosos pianistas sr. Arthur Rubinstein, sra. Aline van Barentzen, sr. Tomás Terán, a notável cantora sra. Elsie Houston prestarão sua prestigiosa colaboração, enquanto que a orquestra, composta exclusivamente de artistas dos Concerts-Colonne, será regida pelo sr. Villa-Lobos”. Em 5 de dezembro rege ainda na Salle Gaveau: Concerts Colonne e L’Art Choral;
Adendo:
- 25 de janeiro: nasce no Rio de Janeiro o maestro, compositor, cantor, pianista e violonista, Antônio Carlos Jobim.
1928 – Em Paris, compõe o Choros Bis, o Choros n.º 11;
Adendo:
- MA publica um dos livros mais lidos e discutidos até hoje: Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter.
1929 – Janeiro: Suzanne Demarquez, em Paris, publica na revista Musique, artigo sobre os Choros, de Villa. Compõe o Choros n.º 9, os 12 Estudos para violão. No início do segundo semestre, volta ao Brasil;

- 12 de agosto: MB escreve a MA mencionando Villa:

Rio de Janeiro, 12 de agosto de 1929.

Mário

(...)//A novidade é a chegada do Villa. Não fui ao desembarque. Esperei encontrar-me com ele na rua, o que se deu logo no dia seguinte. Ele me levou pra frisa dele no concerto do Borovsky. De noite fui à rua Didimo ver Lucília. Villa vai dar já 3 concertos – canto (serestas) e música de câmara (sonatas e trios). Falando muito num Varèse35, cuja música aliás ele não aceita nem compreende. Tentei fazer que ele me explicasse o que era essa música de Varère (reação contra Strawinsky – dizia Villa). Villa disse que são “blocos sonoros”. Mais encore? Grande atrapalhação, muito gesto, uma porção de asneiras e ficou por isso mesmo. O Villa continua “uma novidade”, como diz o Dodô. Não dá aqui o Pai do Mato para fazer a vontade de você que pediu a 1ª audição para São Paulo. Isto é sacanagem! Diz que foi um sucesso em Paris. Adeus.

Abraço do M.

Nota 35: O compositor francês, naturalizado norte-americano, Edgard Varèse (1883-1965), (...).[33];

- Villa organiza concertos no Rio de Janeiro, dia 26 de Agosto, no Teatro Lírico, e em S. Paulo, em 2 de outubro, rege: Grande Concerto Sinfônico;
- Em 4 de outubro, volta à Europa. É professor de composição no Conservatório Internacional de Paris e faz parte do Comitê d’Honneur. Para termos uma idéia da perseguição do crítico Oscar Guanabarino, segue uma publicação no Jornal do Commercio, edição de 26 de junho: “Se formos expor aos olhos estrangeiros todas as nossas vergonhas – ai de nós. Basta o que acaba de fazer em Paris o “Barulhista” Villa-Lobos com a sua música carnavalesca. Esse brasileiro que se proclama propagandista do que é nosso, em matéria de arte nacional, publicou o Choro nº 10, composição cujo ritmo é africano e a letra tola ou africana, não sabemos de que nação, mas que o célebre introdutor de reco-reco brasileiro em Paris nos dirá se é cabinda ou nagô. E é por essa forma que o propagandista nos desmoraliza em Paris, procurando fazer crer que somos um povo de negros e que a nossa arte não vai além da borracheira africana” [34];
- 26 de outubro: MB escreve a MA mencionando Villa:

Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1929.

Mário.

Recebi o seu bilhete acusando recebimento das coisas do Villa. Sobre esse caso me entendi o cunhado dele que me perguntou se era a matéria referente ao folclore do Brasil ou aos outros também. Respondi que era tudo. (...)//Não tive com o Villa. Ele chegou daí no dia 5 e embarcou no dia seguinte para Barcelona, de onde foi chamado por telegrama. Não se despediu de ninguém38. Está tudo danado com ele: Téran39, Nascimento, Elsie, etc. Ele não deu entrada de favor nem para a mãe do Nascimento que tomava parte do concerto! Francisco Braga40 teve de comprar bilhete. Resultado: vazantes desoladoras e antipatias gerais. A gente vai, aplaude, admira, mas reserva-se o direito de esculhambar o gênio... Mas o Villa não faz caso de afeições e simpatias: ele quer é o cobre e a admiração. Coitadinho do Villa, como diz o Nestor Vítor!...

Abraços do M.
(...)

Notas:
- 38: Villa-Lobos e Lucília remetem a MA em 18 de outubro cartão postal de Barcelona onde se realizava a Exposição Internacional: “Boa Viagem. Brilhante recepção, hospedagem num lindo hotel em frente à Exposição que é uma maravilha! Concerto dia 25, 400 vozes e grande orquestra que o Villa dirigirá, e ele começou a ensaiar no mesmo dia. Escreverei logo e enviarei notícias e programas [...]”. Logo depois, de Paris, Lucília relata os sucessos do marido no concerto “num salão que comporta 15 mil pessoas” (7 nov. 1929. Arquivo MA, Série Correspondência). MA tinha divulgado no Diário Nacional críticas sobre Villa-Lobos; no artigo de 25 de setembro escreve: “Possuidor de uma musicalidade prodigiosamente fecunda, os seus desenvolvimentos melódicos são talvez dos mais ricos e variados que conheço.” (“Villa-Lobos”, Brasil 1º tempo modernista, p. 373).
- 39: O pianista espanhol Tomás Téran (1895-1964) foi apresentado a Villa-Lobos em Paris, possivelmente em 1924. Desde então, ajudou a difundir a obra do compositor brasileiro. Visitando o Brasil em diversas ocasiões, só em 1930 aqui fixou residência, acabando por se naturalizar. (...)[35]
Adendo:
- Quebra da Bolsa de Nova York. O preço do café no mercado internacional cai, provocando a falência de inúmeros fazendeiros brasileiros;
- Lançamento da candidatura de Getúlio Vargas à presidência da República.
1930 – Janeiro, 25, Villa está na Europa, em Paris. Em 3 de abril e 7 de maio rege dois festivais: Festival Villa-Lobos, ambos na Salle Gaveau, em Paris. Retorna ao Brasil chegando em Recife no dia 1 de junho, em companhia do violonista belga Maurice Raskin. Realiza concertos nos dias 6 e 10, no Teatro Santa Isabel. Dia 29 de junho, já está em S. Paulo, a convite de d. Olívia Guedes Penteado. Elabora um plano de educação musical que é apresentado à Secretaria de Educação de S. Paulo. Getúlio Vargas chega ao poder à frente de uma revolução. Nomeado interventor para S. Paulo, João Alberto convida Villa para discutir o plano de educação musica. Ainda nesse ano compõe Bachianas Brasileiras nº 1 e nº 2. Consta que a situação financeira de Villa, nessa época, era precaríssima. MA escreve nesse ano vários artigos enfocando Villa. Na sequência: descrição parcial de alguns desses artigos:

Artigo A – 2 de Julho, Diário Nacional de S. Paulo:

“Que Villa-Lobos tenha enfim no Brasil uma consagração digna dele é o que desejo. Nós ainda não presenciamos com clareza o que ele representa para o Brasil. Por mais que as transcrições de artigos sobre ele publicados no estrangeiro provem a importância dele, essas transcrições não bastam para mostrar a formidável propaganda do Brasil que Villa-Lobos faz lá fora. Ele não fixa cartazes nas paredes do mundo, mostrando que o café é gostoso, enquanto a Colômbia planta mais café valorizado pela nossa estupidez. Mas em compensação ele tornou o Brasil uma coisa humana de permanência viva na consciência de milhares de estrangeiros. Ele humaniza o Brasil lá fora. Às vezes uma revista musical estrangeira repete nas páginas de um só número, em artigos, notícias, programas, quatro, cinco e até mais vezes o nome dele. E não são apenas elogios de uma consagração acarneirada e pacífica. Deus te livre! São irritações, ataques, discussões, procuras de compreensão, notícias cuja importância os diários aproveitam em títulos e subtítulos com grandes letras. (...).
Porque se deu essa coisa benéfica e importante. Villa-Lobos e Brasil tornaram-se uma coisa só na compreensão do mundo. Se é certo que essa espécie de juízo crítico é por muitas partes falso, pois há na obra do grande compositor um número enorme de invenções exclusivamente pessoais, que são dele e não do Brasil, ou por outra: que são do Brasil apenas porque são exclusivamente de Villa-Lobos e ele é nosso – não tem dúvida que essa unificação absoluta da obra de Villa-Lobos e do Brasil veio nos beneficiar imenso como propaganda. Propaganda que incontestavelmente jamais nenhum outro artista brasileiro realizou com tanta eficácia a favor do Brasil.
Mas esse artista, de uma genialidade que ninguém discute embora possam lhe discutir uma ou outra criação, esse realmente grande compositor de uma atividade assombrosa, de quem o Brasil está se beneficiando imensamente, nós deixamos que se debata num angustiosa vida de aventuras musicais, virando empresário aqui, virando virtuose de violoncelo em outra parte, se prendendo a empresas editoras que o exploram a valer. É certo que todas essas atrapalhações de vida jamais impedem o verdadeiro artista de produzir obras geniais. E de fato, a essa desproteção vergonhosa, Villa-Lobos responde nos dando o Choros nº 10, o Amazonas, as Cirandas, as Serestas e outros monumentos com que o Brasil enriquece a música universal [36]. 


ARTIGO B - VILA LOBOS VERSUS VILA LOBOS

(Todos os artigos, de I a VII, da série com o título: “Vila Lobos versus Vila Lobos, de Mário de Andrade, poderão ser lidos na íntegra em: Andrade, Mário de. Musica, Doce Musica. Coleção: Obras Completas de Mário de Andrade. Livraria Martins Editora, S. Paulo, 1963 – pp. 143 a 164. Mesmo na descrição parcial que segue, poderemos verificar a postura de MA relacionada com os concertos realizados por Villa, na cidade de S. Paulo, em 1930:

I

Como já muitos sabem o número de novembro da “Revue Musicale”, de Paris, estourou gratamente pelo Brasil a dentro, homenageando Vila Lobos com dois artigos e retrato. Dois artigos excelentes.
Mas o que me deixou muito imaginando é a pequena biografia com que a sra. Suzana Demarquez inicia o artigo dela. É uma página apreensiva, com muitas coisas verdadeiras, algumas leves inexatidões, e fantasia “charmante”. Aí se conta, por exemplo, que o nosso grande musico, no periodo de 1909 a 1912, realizou afinal a sua desejada viagem através das terras inda habitadas por indios, incorporado a várias missões cientificas, principalmente alemãs. Foi assim que poude viver da vida amerindia, observar longamente os seus colegas musicais de tacape, assistir festas de feitiçaria, colher temas e penetrar intimamente a psicologia dessas gentes e mais a ambiencia das nossas terras inda... não direi que virgens, mas pelo menos ainda naquela mesma disponibilidade nupcial das moças indígenas depois da cerimonia de nubilidade.
Todas essa viagens de Vila Lobos através de sertões botocudissimos, seguindo pacientes missões germânicas, me lembraram mais uma vez a apaixonada imaginativa da sra. Delarue Mardrus, que uma feita, espaventada com as aventuras de Vila Lobos, em Paris, escreveu sobre êle um artigo tão furiosamente possuido de agua possivelmente alcoolica de Castalia, que o nosso musico virou plagiario de Hans Staden. Foi pegado pelos indios e condenado a ser comigo moqueado. Prepararam as indias velhas a famosa festa da comilança (o artigo não diz se ofereceram primeiro ao Vila a india mais formosa da maloca) e o coitado, com grande dansa, trons de maracás e roncos de japurutús, foi introduzido no lugar do sacrifício. (...).
Afinal, eu não culpo muito esta senhora que acredito mui sincera, apesar da sua imaginação. (...).
Pois também na vida de Vila Lobos as mulheres têm penetrado intimamente. Umas lhe são de grande auxilio, como é o caso da esposa do musico, dona Lucilia Vila Lobos, cujo maravilhoso devotamente desperta admiração em quantos se acercam do inventor dos Chôros. Outras, direi, que lhe serão de curiosa vulgarização, como é o caso desta sra. Delarue Mardrus. E que Deus as conserve a todas pra que facilitem ao grande artista a escalada nem sempre espinhosa da glória.
(1930).

II

Vila Lobos inaugurou no sabado passado a série de concertos sinfonicos que veio dirigir em S. Paulo. Antes de mais nada, carecemos compreender bem toda a extraordinaria importancia dessa temporada. Os oito programas estão repletos de novidades e só por isso têm um valor excepcional. Mas além disso teremos uma demonstração especial do temperamento de Vila Lobos como regente. (...). Vila Lobos tem dirigido algumas das milhores orquestras europeas. AS suas interpretações interessam sempre e nelas, aliás, se revela o mesmo temperamento viril, audacioso, impetuoso, com que as composições dele já nos familiarizaram. Nada de preciosismos e de subtilezas barrocas: uma concepção global das obras, sempre decisiva e sempre inventiva. Isso provou mesmo a interpretação do Primeiro Concêrto Brandenburguês, de Bach, sabado, com a curiosa substituição do violino pequeno por um violinofone. O efeito ficou curiosissimo, e especialmente o timbre no segundo tempo, casando-se admiravelmente o timbre do violinofone com o de certos instrumentos de sôpro.
Do programa constavam ainda, em primeira audição, as Saudades do Brasil de Dario Milhaud, que já fizeram a volta ao mundo.
(...).
Acabaram o espetaculo as já célebres Dansas Africanas de Vila Lobos. Não tenho mais o que dizer sobre essas tres peças que estão entre o que de milhor existe na primeira fase do grande musico. Sempre é curioso notar porêm que entre os indios de Mato Grosso, (pelo menos é o que conta Vila Lobos...), êle tenha encontrado uma escala maior com a quarta aumentada, escala essa que freqüenta o populario musical nordestino, como já demonstrei no “Ensaio”. Será pois mais um dos raros elementos que ficam da influência amerindia dentro do homem brasileiro atual.
(15 – VII – 1930).

III

Realizou-se ontem o sexto concêrto mensal da Sociedade Sinfonica de S. Paulo. Regencia de Vila Lobos.
A vinda de Vila Lobos a S. Paulo pra esta temporada sinfonica, levantou um certo número de problemas.
Estabeleçamos desde logo algumas verdades sobre o genial compositor como regente. Vila Lobos é um grande regente? Para uma porção de espiritos faceis que vivem dentro da rotunda felicidade ou da inveja, a resposta é simples. Um adorador de Vila Lobos diz logo: é um grande regente. Um “inimigo” responderá com a mesma certeza: é um pessimo  regente. Mas por infelicidade nossa o problema é bem mais complexo que êsse b-a-bá de sordidos despeitos e entusiasmos desculpaveis.
Esta claro que não podemos comparar Vila Lobos regente com um Furtwaengler, um Toscanini, um Nikish. Simplesmente porquê êsses são profissionais da regencia, fizeram dela uma carreira de virtuosidade, e nada têm mais que fazer na vida que conceber um Beethoven deles e em seguida arranjar todos os fás sustenidos.
Ora o que explica Vila Lobos regente, é justo essa circunstancia dele não ser virtuose profissional de orquestra. O que faz não são tolices, são invenções, dados característicos de personalidade. E sempre explicados e defendidos com uma paixão que é só mesmo dêsse homem extraordinario, inteiramente destituido da prática da vida, e que vive em familia com os vesuvios. Disso vem serem sempre interessantissimas as interpretações dele. Chegam mesmo a ser ás vezes notaveis, como a execução da Protofonia do Guaraní o ano passado, e o Pacific de ontem. E mesmo quando certas “invensões” dele possam ser discutiveis, como por exemplo, a substituição do Violino Pequeno por um Violinofone, no Concêrto de Bach, nem por ser discutivel, a substituição deixou de ser curiosa.
O que distingue Vila Lobos como regente é a sua mesma personalidade de compositor, já falei na crítica passada e sou obrigado a repetir, Violento, irregular, riquissimo, quase desnorteante mesmo na variedade dos seus acentos, ora selvagem, ora brasileiramente sentimental, ora infantil e delicadissimo, (As Cirandinhas como perfeição de infantilidade musical encontram rarissimos rivais na literatura universal). Está claro que um temperamento desses não pode dar um cinzelador. De todos os artistas que conheço Vila Lobos é o mais incapaz de fazer crochê.
As peças que interpreta, êle as concebe em blóco, numa totalidade que não deixa de ser insatisfatoria, eu sei, mais que é perfeitamente legítima.
Na concepção que Vila Lobos tem que interpretação sinfonica, o que o prejudica em S. Paulo é a propria constituição ainda atual das nossas orquestras. Na Europa a direção dele tem sido sempre eficiente porquê as orquestras de lá são mecanismos já tradicionalizados e maleaveis que podem seguir perfeitamente as intenções dele. E a prova é que, si ainda discutido por muitos como compositor (e isso apenas o honra e distingue em meios europeus ainda mais subservientes ao anúncio e ao pagamento que os nossos), não sei que se tenha registrado ataque à regencia dele.
Mas é que lá Vila Lobos é respeitado como merece e lida com professores de orquestra arregimentados. Aqui, infelizmente os professores de orquestra ainda não compreenderam o pouco caso que fazem deles, alguns dos que os manejam. Vivem sendo vítimas de pequenas decepções, de vaidadinhas ofendidas, e principalmente instrumentos duma porção de interesses que não são os deles. (...).
E não se diga que Vila Lobos não tem paciencia pra pormenorizar uma execução. Não foi isso que quis dizer afirmando que êle concebia as obras em bloco. Sabe sim, basta ver a maneira respeitosa com que pretendeu executar a Setima de Beethoven. (...).
Muito leitor ha-de estar sarapantado com estas discussões que parecem extemporaneas. Não são não. Esses leitores não sabem que inferno é o meio musical paulista. Não sabem que nos bastidores se trava uma luta de interesses e vaidades, de que, no caso presente, são protagonistas alguns músicos importados, muitos de nacionalidade duvidosa, cujo fito um dia foi fazer America. (...).
(...).
A Sociedade Sinfonica, em cujos átos não influo de especie alguma, fez muito bem em tomar o maestro Lamberto Baldi pra seu regente. Era o que S. Paulo possuía de milhor, infinitamente superior a qualquer outro daqui, e com valor legítimo em qualquer terra. Mas S. Paulo tem perfeitamente lugar para mais um regente. Tanto mais quando se trata de Vila Lobos, uma gloria nacional, incontestavelmente mais legítima que o sr. Presidente da República ou o conde Matarazzo...
Infelizmente não é mais possivel qualquer crítica ao concêrto de ontem. Não posso assim falar da peça de Cools, que é a obra-prima... dêse autor, nem da “Burlesca” de Copola que foi o milhor momento da noite como execução. Interessava ainda mais falar sobre o Curuçá de Camargo Guarnieri, um bocado prolixo não tem dúvida, mas com momentos deliciosos de invenção, e equilibrio polifonico excelente.
(29-VII-1930).

IV

(...).
A temporada Vila Lobos, que devido á complacencia honrosa de varias sociedades, o grande compositor está realizando em S. Paulo, é um dêsses momentos em que desejaria ser um livre espectador de vida, pra poder me divertir á vontade. Porquê é incontestavel: nunca o meio musical paulista sofreu um malestar mais divertido que o despertado nele pela temporada Vila Lobos. Mas não quero dizer já tudo o que sei e sinto sobre essa temporada. Só no fim dela estudarei com esta minha franqueza que tanto sarapanta este magno pomar de hipocisias que é o nosso meio musical, as consequencias, os defeitos, os erros e os valores desta já famigerada série de concertos.
O festival Florent Schmidt, realizado ontem sob os auspicios da Sociedade Sinfonica de S. Paulo, foi o momento em que culminou o malestar em que estamos.
O que foi o festival de ontem? Um fracasso. Por um mundo de razões. Florent Schmidt é uma das personalidades mais curiosas, mais nitidas, mais apaixonantes da musica viva. Mas, como tantas vezes se dá, a personalidade de Florent Schmidt é muito mais interessante que a música dele.
(...).
O programa também era defeituosissimo. Longo, destestavelmente longo. Mato o público. (...).
Mas a falsificação do programa não consistia apenas no tamanho. Consistia na escolha das peças centrais. (...).
Tudo isso é muito triste e vou tocar nas falsificações comicas. Houve pelo menos duas. Uma foi a do público, pelo menos parte do público, que se retirou depois do intervalo, deixando o teatro semivazio. Isso é duma inocencia deliciosa!
Porquê ser retiraram? Se retiraram muitos porquê Vila Lobos é considerado um musico “futurista”. Logo: música dirigida por êle é logicamente futurista e necessariamente incompreensivel. Mas que riso gosado havia de ter o cultissimo Florent Schimidt sabendo que em S. Paulo, muita gente... julgou (!) não entender essa delicia de sabedoria, tão á Rimsky pela sensibilidade, que é a Tragedia de Salomé! Aquilo não tem nada de futurista. Aquilo é facil de entender, como beber agua. Aquilo é bem feito, é gostoso e não fez adiantar um passo á evolução musical. E por sinal que esteve bem dirigida. Orquestra sonora, equilibrada, até com vivacidade de colorido, coisa que sob a direção de Vila Lobos ela tanto vai perdendo.
A ultima falsificação que desejo apontar é a dos que gosaram com o fracasso de ontem. São seres despreziveis, está claro, mas vale a pena a gente se apoiar sobre êsse chão pra se sentir mais elevado. (...). A temporada Vila Lobos que ela coadjuva em maxima parte, ainda é um ato admiravel de benemerencia, com que a Sociedade [Sinfonica de S. Paulo] não hesitou em ir de encontro a muitas concessões imbecis da vida musical paulistana, para demonstrar as intenções firmes com que vem alargando os horizontes musicais curtissimos desta nossa desvairada Paulicéa. Ora uma sociedade assim, está claro que terá muitos inimigos. (...). Não porquê êste fracasso “tenha sido um triunfo”, como se costuma dizer em futeból, quando a gente está de cabeça inchada. Não foi triunfo pra ninguem não. Mas foi uma manifestação de vitalidade, vitalidade capaz de julgar por si, de se apaixonar, de reagir. Esse é um benefício imenso num meio musical que tem vivido de venalidade, de carneirice, de professorado fazedor de America, de trusts editoriais capitalistas, de ignorancia, de improvisação e recitais de alunos. E esse benefício nos deram a Sociedade Sinfonica de S. Paulo por todos quantos a compõem, a temporada Vila Lobos.
(27-VIII-1930).

V

A Sociedade de Cultura Artistica ofereceu domingo passado aos socios, no Municipal, mais um concêrto sinfonico, sob a regencia de Vila Lobos.
O programa, tão interessante como todos os outros que o grande compositor nos vai proporcionando, tinha como principais momentos a revelação de várias obras ineditas de Homero Barreto e o reaparecimento de Antonieta Rudge como solista.
(...).
(2-IX-1930).

VI

AMAZONAS

A Sociedade Sinfonica de S. Paulo cuja vida, apesar de tudo, continúa duma intensidade magnifica, nos deu ontem o último concêrto que lhe competia nesta temporada Vila Lobos. O programa culminava em interesse pela apresentação do poema sinfonico Amazonas do proprio Vila Lobos. Hão-de me permitir pois que fale exclusivamente sobre essa obra importantissima que está entre as mais completas e principalmente entre as mais perfeitas do grande compositor. No geral as obras longas de Vila Lobos nunca chegam a me satisfazer integralmente. Está claro que diante de manifestações tão novas, tão inusitadas como por exemplo o Noneto, o Mono Precoce, muito provavelmente a insatisfação pelo total, apesar das belezas numerosas que encontro nessas obras, provirá de insuficiencias minhas, que não me permitem seguir inteiramente o pensamento e as intenções de Vila Lobos. D’aí, nessas obras, certas passagens me parecem inexplicaveis, certas quedas bruscas de movimento criador, certas faltas de logica no sentido musical, que não consigo digerir inteiramente. (...). Ha realmente dentro da personalidade musical de Vila Lobos uma permanente falta de autocritica, uma perigosa complacencia para consigo mesmo, que lhe permite aceitar com facil liberalidade tudo o que lhe dita a imaginação criadora. (...). Em geral nas peças grandes de Vila Lobos são raras as que não apresentam assim longueurs desnecessarias, desenvolvimentos que não adianta nada á arquitetura ou valor expressivo, momentos enfim que uma severidade crítica acordada não permitiria existissem. E por isso me é gratissimo saudar obras como os “Chôros nº 8”, ou nº 10 e êste Amazonas que chego a compreender e a admirar integralmente.
(...).
Um detalhe critico que não quero silenciar é que com o Amazonas, Vila Lobos se afirma nessa música-natureza em que dum certo tempo prá cá êle vinha se desenhando. (...).
Esses elementos, essas fôrças sonoras são profundamente “natureza”, e o pouco que retira da estetica musical amerindia, não basta para localiza-la como música indigena. É mais que isso. Ou menos, si quiserem. Não é brasileiro também: é natureza. Parecem vozes, sons, ruidos, baques, estralos, tatalares, simbolos saidos dos fenomenos meteorologicos, dos acidentes geologicos e dos sêres irracionais. É o despudor bulhento da terra-virgem que Vila Lobos representa, milhor nesta obra que em nenhuma outra. Representação de que o Noneto creio foi a primeira em data das tentativas, e de que já os Chôros nº 7 foram uma exposição excelente.
Música aprendida com os passarinhos e as féras, com os selvagens e os tufões, com as aguas e as religiões primarias. Música da natureza, junto da qual a 6ª Sinfonia ou o Siegfried (não como beleza, está claro, mas como significação cosmica) não passam de amostras bem educadinhas de natureza, pra expor nas vitrinas, natureza já comercializada, limpinha e vestida na civilização cristã.
Nada conheço em música, nem mesmo a barbara “Sagração da Primavera” de Stravinski (aliás de outra e genialmente realizada estetica) que seja tão, não digo “primario”, mas tão expressivo das leis verdes e terrosas da natureza sem trabalho, como a música ou pelo menos, certas músicas de Vila Lobos.
E paro exausto sem ter enumerado todas as belezas e particularidades que julgo ver e pude amar neste poema. Todo êle é duma logica musical estupenda e duma qualidade alta que não desfalece, todo tão habilissimo que atinge a virtuosidade de composição. Me sinto feliz por demais em saudar obra tão bonita pra estar agora lascando algumas indiretas pesadas aos que negam a Vila Lobos a ciencia de composição. Não vale a pena. Ele tem antes de mais nada a preciencia, que poucos podem ter... Fossem os compositores que possuimos agora outros tantos Vila Lobos e a música brasileira seria a maior do mundo, isso é que eu sei.
(25-IX-1930).

VII

Realizou-se o último concêrto da temporada que Vila Lobos organizou êste ano em S. Paulo. Chegou o momento de observar com calma os resultados do movimento interessantissimo que o grande musico levou a cabo com uma pertinacia inconcebivel. Sentindo pela frente dificuldades e oposições ás vezes ferozes, Vila Lobos, pra conseguir o que pretendia, não hesitou mesmo em sufocar os movimentos mais expontaneos de amor-proprio, agüentando desacatos penosos. Mas tenho que constatar: nem sempre a razão esteve com êle. O grande compositor, como em geral toso os artistas excessivamente artistas, é uma personalidade complexa por demais. Dentro dele as violencias, os erros, as grandezas, os defeitos, os valores, se realizam sem controle, sem nenhuma organização social, Vila Lobos, é um bicho do mato.
Não tem dúvida pois que um temperamento dêsses é dificil de manejar no terreno das relações práticas. Não só da parte dele os erros de procedimento se acumulam, como da parte dos outros toda reação que não seja ditada pela própria admiração ao compositor, é duma tolice vergonhosa. E uma impiedade, que ás vezes chegou êste ano a ser infamante pra quem agiu contra o músico. Só foram realmente nobres os que, sem porventura lhe ignorar os defeitos, souberam defender Vila Lobos, auxilial-o, condescender com êle na medida em que isso não importava em nenhuma desvalorização ou prejuizo social. Porquê só assim um artista do temperamento de Vila Lobos, bicho do mato, anjo maluco ou criança genialissima, como quiserem, póde realizar a obra que nos herdará e da qual o Brasil já está beneficiando enormemente.
A temporada que Vila Lobos realizou aqui foi realmente grandiosa nas suas proporções. Como resultado, quer socialmente, quer no dominio desinteressado da arte, foi um conjunto desnorteante de belezas, aguas-mornas, valores e prejuizos. Não é possivel enumerar todos. No geral as execuções foram insatisfatorias. Vila Lobos não é um bom regente. Pelo menos para as nossas orquestras que, além de desorganizadas, são compostas de professores muito irregulares, alguns chegam a ser otimos, outros chegam a ser absolutamente insuficientes. Pra reger orquestras assim é preciso ter, além duma grande tecnica de regente, a paciencia, a habilidade diplomatica. E isso então o autor dos Chôros jamais teve nem jamais terá. Haja vista o artigo feio que, homenageador de Julio Prestes, escreveu sobre a Música Revolucionaria... Revolucionaria falo, de João Alberto.
Faltam a Vila Lobos várias qualidades que se tornam imprescindiveis a um regente. A sua propria vida angustiosa e variada não lhe permite se dedicar ao estudo minucioso das partituras. Isso ás vezes o escreviza de tal forma á leitura das obras, durante a execução que êle não pode ter aquele dominio indispensavel do regente sobre os regidos. É psicologico: os musicos não têm confiança, não se deixam dominar por quem está sendo dominado por uma partitura. Perdida a confiança, pode-se bem compreender que já não é mais possivel execução perfeita.
Mas não é apenas nisso que a regencia de Vila Lobos se vê prejudicada. A redondeza de gesticulação, a audição-absoluta irregular, a insegurança interpretativa de movimento que êle tem, como Beethoven tambem tinha, são ainda circunstancias prejudiciais a um regente bom.
Mas si confesso com franqueza estas coisas, estou longe de afirmar que Vila Lobos esteja impossibilitado de reger.
Póde reger perfeitamente, e mesmo, pela originalidade excepcional do seu temperamento, póde nos dar ás vezes interpretações interantissimas. E nos deu várias. Porêm pra que possa reger com eficacia, um artista nessas circunstancias tem de contar, antes de mais nada, com a dedicação dos musicos de orquestra. E com esta Vila Lobos conta na Europa, porquê lá o respeitam e as aparições dele como regente são episodicas. Mas aqui, terra desabusada, ninguem respeita ninguem. E, fôrça é confessar, o conhecimento de que a regencia de Vila Lobos não era episodica, mas duraria por oito concertos, desculpa em grande parte a má-vontade dos musicos.
Mas si a má-vontade dêstes é, pois, mais ou menos explicavel, é indesculpavel o que muitos deles fizeram. Houve de tudo. Não teve quasi desacato que possa fazer a um regente, que muitos musicos da orquestra não tivessem praticado.
Recusaram-se a tocar músicas determinadas pelo regente. Grande parte da culpa aqui cabia tambem ao regente, querendo impor as professores a execução dum compositor paulista por eles todos, e parece que com razão repudiado. Mas tambem o resto da culpa é dos professores, que colocam seus odiosinhos pessoais como criterio de julgamento de obras-de-arte. O compositor podia ser odioso como personalidade, mas valiosa a música.
Não pararam aí, porêm, os desacatos que alguns musicos da orquestra fizeram Vila Lobos sofrer. Era incrivel nas execuções públicas, os olharezinhos que muitos dêsses professores se trocavam a cada erro ou vacilação; alguns chegaram a rir francamente! E isso ainda é pouco si se souber que o violino espala chegou a derrubar o arco quando estava em execução! Eu quero saber no mundo qual foi até agora o musico que se preze, que tenha derrubado o arco em execução pública. Si não me apontarem nenhum, eu afirmo que a um, não posso dizer artista, a uma pessoa dessas está esgotada a consideração. E isso ainda é pouco (!!!) si se souber que outra... pessoa da orquestra se gabou de durante uma peça qualquer, ter executado em surdina o Hino Nacional brasileiro, sem que o regente percebesse! Não é possivel a gente classificar uma coisa dessas. Esse pobre moço, que aliás é de pouquissimo ou nenhum valor, tão vaidoso é tambem, que imagina ter conquistado Tripoli? Se engana. Conquistou apenas a sua propria desmoralização.
(...).
Bastam êsses casos lamentaveis pra indicar o grupo com que Vila Lobos tinha que... lutar. Está claro que muitos musicos na orquestra não incorrem nestas censuras particulares, porêm mesmo assim houve de todos o que chamei de falta de dedicação.
Tivessem na regencia quem quer que fosse (e Vila Lobos não é um qualquer), infelizmente incorrem na censura da indisciplina.
Mas a culpa não era só deles não. Vila Lobos, nem que morres de fome, não devia se conservar na regencia. Não é feio ceder quando isso resulta em bem comum. Todos viamos entristecidos que a Sociedade Sinfonica de S. Paulo, iniciada gloriosamente, cujos primeiros concertos foram dos mais belos que já se conseguiu no Brasil, todos viamos entristecidos a degringolada em que ela ia. Fuga de socios, combate mesquinho de pseudo-compositores, abatimento na orquestra, impossibilidade dos jornais perseverarem numa critica pragmatica, injustiça de programas que só muito mal representavam a música brasileira, sem nomes como os de Henrique Osvaldo, de Lourenço Fernandez, de Luciano Gallet. Porquê infelizmente nem o proprio Vila Lobos se isenta da acusação de crítica partidaria. A Sociedade, que Vila Lobos recebeu em plena pujança, em unanimidade vitoriosa, êle a deixa nas portas da morte. Isso em grande parte por culpa da pertinacia nem sempre razoavel dele.
(2-XII-1930).

- 16 de novembro: MA escreve a MB mencionando Villa:

São Paulo, 16 de novembro de 1930.


Manu,

(...).//Queria muito conversar com você sobre o Villa que inda está aqui e cuja nem voz por telefone posso aturar mais, ôh sujeito cansativo! Se fosse só cansativo. Mas você não imagina o homem que ele virou depois que não sei se o traquejo das viagens e dificuldades duras o desnaturaram por completo. Por causa dele afinal é que a Sociedade Sinfônica levou com os burros n’água. Prejuízos que parece Dona Olívia pagou, dissensões lá dentro entre a dedicada secretária e a presidenta, fadiga nos demais irritados com o procedimento dos músicos de orquestra que aliás, afora o conceito de disciplina, tinham todas as razões pra desrespeitar o Villa. Que gênio esquisito! Pois o certo é que nem afinação fixa ele tem! E imagine o que é isso pra quem pretende dirigir orquestra. Enfim uma miséria. Fico é pensando que quando ele enxerga uma criança cai em êxtase quando tem dinheiro no bolso gasta com o companheiro que estiver junto, enfim fico pensando que das maiores misérias sai flor e está claro que falo estas coisas pra você e que continuo defendendo embora com mais reserva o grande músico brasileiro.
(...).

Mário[37]

- 20 de novembro: MB escreve a MA mencionando Villa:

Rio de Janeiro, 20 [de novembro de 1930].

Mário.

(...).//A propósito do Villa há um trecho de sua carta que achei engraçado, o que se refere à falta de afinação do Villa. Você vai ver porquê. Lembra-se de um meu amigo velhinho, o “seu” Vasconcellos? Tenho uma vaga lembrança de que o apresentei uma vez a você. Vaga lembrança nada! Certeza, foi com ele que fomos à casa do Mota (o da boa vitrola e uma porção de filhas). Foi com o bom Vasconcellos que aprendi a tocar violão. Pois Vasconcellos conheceu o Villa quando nele nem se sonhava que um dia pudesse dar nada. Naquele tempo o Villa era tocador de violão e foi tocar em uma casa onde também esteve o Vasconcellos. Diz o Vasconcellos que durante todo o tempo o Villa tocou com o mi-bordão desafinado clamorosamente. Por causa desse bordão desafinado o Vasconcellos nunca quis tomar a sério a genialidade do Villa. Toda vez que eu catequizava o Vasconcellos eu sentia que no labirinto do Vasconcellos estava teimosamente assentada no débito do Villa o quarto de coma que faltava ou sobrava a aquele mi do violão do Villa. Eu sempre pensei que fosse talvez defeito do ouvido do Vasconcellos, mas agora que você está falando nisso já estou mais disposto a acreditar que o Vasconcellos tinha razão. E a tirar também como consequência que o que faz o músico não é só o ouvido, como dizem,, pois se pode ser um grande músico e ter mau ouvido.
(...).
Ciao. Abraços do

M.[38]
Adendo:
- 24 de outubro: Washington Luís é deposto pelos chefes das forças armadas;
- 3 de novembro: Getúlio Vargas toma posse como chefe do Governo Provisório;
- MB publica: Libertinagem. Carlos Drummond de Andrade estreia com Alguma Poesia;
- O Poeta Guilherme de Almeida é eleito para a Academia Brasileira de Letras;
- Em novembro, 14 e 21, foram criados os Ministérios da Educação e do Trabalho;
- Ano da fundação da Associação Brasileira de Música, por Luciano Gallet.
1931 – Inicia em janeiro, extensa turnê artística pelo interior de S. Paulo (mais de 50 cidades), juntamente com outros artistas: os pianistas Souza Lima, Guiomar Novaes, Antonieta Rudge e Lucília Villa-Lobos, e ainda o violonista belga Murice Raskin e a cantora Nair Duarte Nunes. A primeira cidade que recebeu a chamada “Excursão Artística” foi Campinas - SP, em 20 de janeiro. 9 de maio: Villa promove um ensaio geral com mil vozes, no Teatro Municipal de S. Paulo. 24 de maio: na cidade de S. Paulo, organiza a primeira concentração orfeônica, sob o nome de Exortação Cívica, que teve a participação de mais de 12 mil vozes. 21 de outubro: realiza outro concerto em S. Paulo, regendo uma orquestra com 500 executantes. Compõe as Bachianas Brasileira n.º 4 e Quarteto de Cordas n.º 5. Yan de Almeida Prado se encontrava em Paris e recebeu carta de MA, datada de 7 de março, narrando o episódio do Villa que mantinha contato com a ala política de Getúlio Vargas. Segue trecho da referida carta:

“(...). //Mas quem você carecia estar aqui para gosar agora é o Vila. Está uma delicia da gente chorar por si de vergonha do mundo. Nem bem revolução venceu, Vila deitou entrevista contando que sempre fora revolucionário, que Julio Prestes e tutti quanti eram uns safadões, que sempre escrevera música revolucionária, que até tinha uns hinos de 1924 e em 18 centos e não sei quantos que já eram revolucionários e que a Polícia do Rio, tinha proibido. Mas que agora ia lançar os tais hinos. Virou assecla de João Alberto e famulo musical do Palacio. Mandou dona Olívia às urtigas e a delicia é que ela, já sabe, por elegância de espírito, continua gostando muito dele e achando que a gente precisa de proteger ele. Mas uma feita num teatro em que o Vila estava numa frisa em frente da dela, eu falando que os músicos eram todos uns canalhas de merda, ela perguntou: “Até aquele que está lá em frente?” Eu esgotado: Até aquele. Isso ela perdeu as estribeiras de gentildama, deu uma gargalhada que se ouviu no abaixopiques, de tão gosada. Percebi tudo. Sou perspicaz. Mas o mais engraçado é que o Vila mandou publicar imediatamente os tais hinos e foi se ver... não era ninguém: umas bobaginhas apressadas, que não valem nada musicalmente e com os textos mais inocentes deste mundo. Sube até que ele depois percebeu isto e isso num discurso na Escola Normal, porquê ele está preparando uma cantoria dos tais hinos por 25 mil pessoas! Ele disse que os hinos foram proibidos pela Policia porquê tinham nacionalismo por demais, podia ofender estrangeiro!!! Esta é autêntica e guardo pra seu goso. Outras ainda ele tem feito e a última parece que é ter brigado comigo pelo que me falaram. Bota a boca em mim, diz o diabo não sei si é verdade. Está claro que não brigo com ele, fico na maciota contemplando e gosando. No fundo com um imenso dó porquê parece mesmo (e foi confissão dele pra mim num dia de confissões e vinho) parece mesmo que ele não dá mais nada. Tinha chegado o momento de erudição ajudar e suprir a invenção, como está fazendo com Stravinsky e tantos mais, mas cadê erudição? E o coitado tem feito umas musiquinhas pra agradar, duma bestice palmar. Enfim... (...)”.[39];
Adendo:
- 26 de janeiro: morre no Rio de Janeiro o escritor Graça Aranha;
- 18 de abril: através do Decreto nº 19.890, institui-se o ensino obrigatório de Canto Orfeônico nas escolas do Município do Rio de Janeiro;
- 9 de junho: morre no Rio de Janeiro: Henrique Oswald, carioca nascido em 14 de abril de 1852, pianista, compositor, concertista e diplomata brasileiro;
- 28 de junho: morre no Rio de Janeiro o musicólogo e compositor: Luciano Gallet;
- MB é nomeado presidente do Salão Nacional de Belas Artes;
- 12 de outubro: inauguração da estátua do Cristo Redentor, Rio de Janeiro.
1932 – A convite de Anísio Teixeira, radica-se no Rio de Janeiro. É nomeado para o cargo de Diretor da Superintendência de Educação Musical e Artística das Escolas Públicas do RJ (SEMA), especialmente criada para ele. À frente da entidade, coloca em prática suas ideias educacionais: a instituição do ensino obrigatório de música e canto orfeônico nas escolas. Cria o Curso de Pedagogia de Música e Canto Orfeônico, de onde surgiu o Orfeão de Professores do Distrito Federal. Compõe o Guia Prático, com harmonizações de temas folclóricos. Escreve um Memorial ao Presidente da República Getúlio Vargas, em 12 de fevereiro, reproduzido no Jornal do Brasil,  mencionando o quadro horrível em que se encontrava o meio artístico brasileiro. Solicitava do Presidente estudos para encontrar um meio prático e rápido para suavizar a situação. Nos dois últimos parágrafos daquele memorial, assim escreveu Villa: “Mostre Vossa Excelência senhor presidente, aos derrotistas mentirosos ou aos pessimistas que vivem não acreditando num milagre da proteção do governo às nossas artes, que Vossa Excelência é de fato o lutador consciente e realizador, tornando, incontinenti, uma realidade o Departamento Nacional de Proteção às Artes. //E com isto Vossa Excelência terá salvo nossas artes e nossos artistas, que bendirão toda a existência de Vossa Excelência. – Seu humilde patrício, //(a) H. Villa-Lobos”. Junto ao documento Villa anexou uma estatística de mais de 34 mil artistas desamparados, entre os Estados do Brasil. Maio: Villa cria o Orfeão de Professores, coral com alunos do Curso de Pedagogia da Música. Em 24 de outubro, data do aniversário da Revolução, Villa conseguiu reunir no campo do Fluminense Futebol Clube, um coral formado por alunos de escolas e do Instituto de Educação e do Orfeão de Professores, num total de 18 mil vozes. Villa-Lobos foi duramente criticado por vários intelectuais da época que condenavam essa sua atitude de estar apoiando Vargas. Oscar Guanabarino não perdeu a oportunidade de criticar Villa. Guilherme Figueiredo foi outro que condenou Villa pelo apoio a Getúlio (Ver no “Anexo” do ano de 1942 desta postagem, carta de MA a Guilherme Figueiredo sobre esse assunto). MA foi outro que se indispôs com Villa nessa ocasião e pelo mesmo motivo. Sabemos que boa parcela dos paulistas era contrária ao governo de Vargas. Em carta de 20 de janeiro de 1933, de MA para Prudente de Moraes, neto, podemos ter uma noção mais exata dessa postura de MA. O original da carta de MA para Prudente de Moraes, neto, pertence ao acervo Fichário Analítico: 1813, Villa-Lobos. Arquivo MA, IEB-USP, como segue:

“S. Paulo, 20-1-33

“Pru.

Talvez seja melhor assim, não falarmos no assunto vivo que interferiu conosco, a revolução. Não que pudesse haver briga entre nós por causa dele: se da minha parte, que é a apaixonada, sinto a impossibilidade dessa briga, da sua que é a do intelectual, é justo que ela seja impossível também. Mas é assunto que, com você, me causaria um sofrido malestar, e eu via com verdadeira desgraça o momento em que carecesse falar nele com você. Sei que, embora estejamos intelectualmente pertíssimo um do outro, uma diferença irremovível de atitude nos separa irremediavelmente. Afinal chegou a tão esperada e bem temida carta de você. Você é carioca, Pru, fagueiro e da substância do ar. Não de água, que toma a forma de qualquer recipiente: de ar, que escapole à modalidade dos recipientes. Eu, que me gritei um dia ‘bailarino brasileiro’ sou bailarino mas é nada, não sei bailar. Peso mil quilos. Não de lealdade, que o ar também é leal, mas de pedra no caminho. Se eu escrevesse pra você, tinha que mover a pedra. Você compreendeu que a única solução era não mover a pedra e não moveu.
“Você me pergunta o que penso do Quarteto Brasileiro nº 5, do Vila, e já não me é penoso falar nesse cachorro. É que um quarteto bem Brasil, não tem dúvida, misturada fabulosa de valores e imundícies, de prazeres reais e promessas que não serão cumpridas.
“Pouco antes da revolução de 30, o Vila Lobos, que aliás, com certa discreção, já lambera o cu do Carlos de Campos, dedicava um concerto a Júlio Prestes. Nem bem a revolução venceu, esse indivíduo publicou uma entrevista de insulto aos vencidos, dizendo que fora revolucionário desde 1500 e até compusera avant-la-lètre um hino da revolução que a polícia carioca proibira. Escreveu algumas musiquices patrióticas, e diariamente, aqui, largava da inocência, para ir lustras as esporas com que João Alberto estragou irremediavelmente os tapetes civilizados dos Campos Elíseos.
“Bem: o Vila, de amoral inconsciente que sempre fora, e delicioso, virara canalha com sistema, e nojento. Mudança tão violenta assim, de contextura moral, havia necessariamente de afetar a criação afetou mesmo. A produção musical do Vila baixou de sopetão ao quase nada, como valor. Compôs uns hinos, uns coros, umas transcrições de fugas de Bach para celo e piano e umas pecinhas pianísticas, tudo simplesmente porco. De vez em longe uma linha, uma invenção de efeito, acusava no meio da porcaria, o gênio despaisado. Aos poucos essas bonitezas vieram se amiudando, prova, eu dizia comigo, que o Vila se acostumava aos poucos com a canalhice consciente. Se acostumou enfim; e desse indivíduo, a quem Deus, em desespero de causa neste deserto brasileiro, deu o gênio que tinha que dar pra algum brasil no momento,  o Quarteto Brasileiro já é fruto maduro.
“O que vale? Vale primeiramente pela técnica. Não daquela técnica mais verdadeira, beethoveniana, que deriva imediatamente da criação. O Vila ignorante, sem cultura, com um conhecimento deficientíssimo dos fatos musicais, sempre tivera essa técnica. As obras dele eram irregularíssimas. Quando grandes, apresentavam quase sempre formas desengonçadas, sobretudo compridezas irritantes, e canhestrices pueris. Mas o Vila inventava. Não sabendo orquestração, criava instrumentações admiráveis. Não sabendo o que é voz humana, deixa uma série impressionante de efeitos vocais. Fragílimo na harmonia, a ponto de não poder me definir uma feita o que era uma falsa relação, harmonizava com uma exatidão de caráter, com uma, sim, uma necessidade fatal. Criou obras desengoçadas como o Fausto, atrapalhadas como o Hamlet, irregulares como a Nona Sinfonia, fatigantes pelas compridezas como a Tetralogia, algumas geniais como estas. Me esqueci: completamente incapaz de discernir fatos musicais (principalmente porque a vaidade o tinha como criando do nada), ignorante até a miséria do que é criticamente o Brasil músico, a obra dele se tornou um repositório incomparavelmente rico dos fatos, das constâncias, das sutilezas, das originalidades musicais do Brasil. Não tem quase coisa do nosso populário musical, de que a gente não vá encontrar exemplo na obra do Vila. Coisas que ele absolutamente ignora, como até a espantosa de empregar uma escala assimilável ao hipolídio, dos gregos da Antiguidade (fato que é raríssimo, mas sucede, no Brasil), numa das Danças Africanas.
“Ora o que choca mais, no Quarteto nº 5, é que surgiu um Vila com outra técnica, a técnica que se aprende, a técnica acadêmica! A modernidade é apenas um disfarce ronaldiano, no Quarteto. Em compensação, e ronaldianamente também, a obra é surpreendentemente bem conformada, com os dois tempos propriamente rapsódicos, o 1º e o 4º, enfeixando a parte mais livre interior. O equilíbrio é sem exemplo nas outras obras grandes do Vila: nenhuma hesitação de desenvolvimentos, nenhuma comprideza indiscreta, escolha quase sempre acertada de elementos (pois que só a frase de conclusão do 3º tempo me parece contestável). Apenas se verificará que houve um capachismo servil na pressurosa e indiscreta escolha e abundância de temas da rapsódia infantil, no 1º e 4º tempos. Houve sim, e isso deriva da vontade de servir (por isso que chamei de capachismo servil...) que o Vila nunca teve e agora tem.
“Essa VONTADE DE SERVIR a toda gente é que faz toda a imoralidade repulsiva do Quarteto e que em Ronald, no Guilherme, sempre repugnou a você. O Vila se escondeu. Se disfarçou. Quer conciliar as coisas, e, pois que se tornou um sistematizado lambedor de cus, lambe os ditos do acadêmico criticante como do burguês ouvinte, do modernista embandeirado como do passadista louco pra se rever no novo. É um quarteto ‘gostoso’. E o Vila jamais não foi ‘gostoso’. Os instrumentos estão tratados com um carinho que jamais, estragador de instrumentos e vozes, o Vila teve. Estão bem nas suas tessituras propícias, bem nos seus efeitos brilhantes ou amáveis. Pra soarem bem, como ordena a Academia, e agrada a todos, artistas verdadeiros como o público boçal. Não é tudo. A polifonia, a harmonia, com toques levemente róseos de atualidade, é velharia da mais safada e saborosa, é do excelente quartetismo sensual dos maus românticos, dos românticos banais e acadêmicos, Tschaikowski, Saint-Saens e idênticas chatices de universal aplauso. Pleno domínio da gostosura disfarçada. Não tem aquela desfaçatez, afinal das contas viril, leal, dum Puccini, dum Leoncavallo, que escrevem coisas sensualmente fáceis, com franqueza, confessadamente. Não. É a chatice sub-reptícia, escondida, elegantizada, emoldurada, dum Massenet, dum Turina. E o pulhismo covarde.
“E qual a criação? Na realidade pequeníssima. Nos dois tempos externos, o Vila quase que apenas se limitou a transcrever para quarteto (com infinita ‘arte’, olés!) algumas obras anteriores, do tempo em que esteve em plena floração. Mas quais das obras dessa fase escolheu? As Cirandas? As peças de canto? Não, escolheu as Cirandinhas, menos rebarbativas, menos importantes historicamente, muito mais acessíveis, pois, por serem musiquetas pra criança tocar, ele fora necessariamente obrigado a fazer mais simples, mas agradáveis harmonicamente, pra que não repugnassem à criança. E que por essa suavidade, essa acessibilidade, nas Cirandinhas perfeitamente exata, fizeram já um sucesso público enorme. Que valor de criação posso dar a esses dois tempos, que não passam duma transcrição academicamente felicíssima, com algum efeitinho no meio, pra sossegar o possível rosnido de algum modernista?
“(...).
“Já nos dois tempos internos do Quarteto a criação é maior, e especialmente no 2º tempo, tão feliz, que soa tão bem, mostra bem que o Vila, mesmo nesta nova modalidade de caráter pode fazer coisas deliciosas, embora pouco admiráveis. Porque à primeira vista e por momentos, você se deixa levar pela sensualidade gostosíssima que há no Quarteto inteiro, especialmente, quanto a sonoridalde, no 2º tempo, e vai se esquecendo de tudo pra gozar. A verificação instintiva desse gozo é julgar, falando que o Quarteto é bom. Mas a consciência do julgamento, quando você não é público apenas ‘hearer’, mas ‘listener’, repõe você numa elevação maior que a da sensualidade gostosa. E então você repara espantado que no Quarteto não há quase nada! Nada de novo, porque nos tempos internos, especialmente no segundo, tudo o que Vila pôs já foi dito e com as mesmas palavras. Chega a ser extraordinário mesmo, como nestas linhas e temas bonitões dos tempos internos, não mais aquela primordialidade, aquela primariedade, aquela essência tão cheia de caráter, tão irredutível, da temática vilalbesca da grande fase (Choros, Cirandas, Amazonas). Não estou provocando uma simbologia fácil, dizendo que os temas do Vila agora não têm caráter, agora que ele perdeu o dito. Usei dum galicismo, lembrando que os franceses chamam comumente de ‘remplis de caractère’ aos temas, aos arabescos melódicos que a gente percebe essenciais, embora não consiga especificar bem porque. É mais fácil especificar defeitos que descobrir as causas da beleza, tanto esta deriva de Deus e aqueles da consciência nossa. Na temática propriamente vilabolesca deste Quarteto há um banal... um banal distinto – que infelizmente nem é o ‘vulgar’ mais respeitável, é caracteristicamente o ‘banal’. Tudo é revelho, efeitos como frases, como técnica polifônica e harmônica. E tudo já existiu na pior fase da música, o Romantismo. (...).
“Em resumo: obra falsa. Academismo esplêndido, técnica admirável, forma excelente, nenhuma invenção, disfarce de passadismo, sensualidade epidérmica, e a tal da banalidade sutil – dom de russos e franceses. Será uma obra-prima. Mas é uma obra-prima falsa. Que musicalmente me repugna” [40].
Nota:
1 – Ver nesta postagem o “Adendo” de 1942, onde está postada outra carta de MA, esta a Guilherme Figueiredo, sobre desavenças com Villa-Lobos.

- 2 de junho, quinta feira: as professoras do recém-instalado Curso de Pedagogia da Música e Canto Orfeônico do Rio de Janeiro, cansadas de receber maus-tratos do compositor (Villa), redigiram uma carta anônima ao carrasco. No início dos anos 1930, depois de uma década na Europa, ele esbanjava poder e surtos de estrelismo, mas isso não conteve as ofendidas. 'Se continuas a ameaçar-nos com os poderes absolutos de que te prezas faremos uma representação ao Diretor Geral', ameaçam as missivistas. 'Não vês que tudo é contraproducente quando o chefe não sabe ter atitudes? Não percebes que as colegas se podem infiltrar desses teus modos estúpidos e passar a fazer o mesmo com as criancinhas?' Encerram o ataque com a indicação: 'As professoras revoltadas pelo teu trato'.
A folha, datilografada e sem assinatura, encontra-se na Biblioteca Nacional, no Rio (consta do espólio do maestro Sílvio Salema, assistente de Villa), e só agora vem à luz, com outros papéis - recortes, partituras, cartas e fotografias - arquivados ali e no Museu Villa-Lobos. (Fonte: Luís Antônio Giron).
Adendo:
- 1º de fevereiro: criado o Serviço Técnico e Administrativo de Música e Canto Orfeônico, através do Decreto Municipal nº 3.763, subordinado à Diretoria Geral de Instrução do Distrito Federal;
- 23 de maio: em manifestação na cidade de S. Paulo, morrem os estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. As iniciais de seus nomes comporão a sigla “M.M.D.C.”, estandarte do movimento constitucionalista;
- 9 de julho: deflagração da Revolução Constitucionalista de S. Paulo;
- 23 de julho: suicídio de Santos Dumont.
1933 – Compõe uma coleção de modinhas que inclui o Lundu da Marquesa de Santos, Cantilena, Remeiros do São Francisco. 26 de novembro: no Dia da Música, em louvor de Santa Cecília, numa festa promovida pela Associação Orquestral do Rio de Janeiro, com a colaboração do Departamento de Educação da Prefeitura Municipal e sob os auspícios do chefe do governo e de sua Eminência, o cardeal d. Sebastião Leme, Villa participou com um concerto contando com 2 mil músicos civis e militares e mais de 10 mil vozes dos grupos orfeônicos. Cria “Consertos Educacionais e Concertos Sinfônicos Culturais”, chamados por ele de “Consertos da Juventude”. Ainda nesse ano é organizada a “Orquestra Villa-Lobos”. Em setembro, através do Decreto Municipal nº 4.387, o Orfeão de Professores, criado por Villa em 1932, passou a ser Superintendência, uma extensão do Departamento de Educação do Distrito Federal: Superintendência de Educação Musical e Artística (SEMA);
1934 – Rege, no Rio de Janeiro, seu bailado Jurupari (Choros n.º 10), tendo Serge Lifar como protagonista. Villa executa dois concertos no Teatro João Caetano, somente de músicas brasileiras. Escreve artigo para O Jornal: “Novas Diretrizes da Educação Cívico-Artística Musical”, uma síntese das instruções e regulamentos, oficialmente aprovados, do programa do Curso Especializado de Música Instrumental para a formação do Músico de Banda. Villa inicia intensa divulgação do seu projeto que houvesse ensino de música nas escolas, através de cartas para várias instituições educacionais do país. Villa viaja, em julho, para Recife. Nessa ocasião não executou nenhum concerto – fez palestras e visitou instituições educacionais divulgando seu projeto;
Adendo:
- 13 de março: no Congresso Nacional, a primeira deputada brasileira ocupa a tribuna, a médica paulista “Carlota Pereira de Queirós”;
- Gustavo Capanema assume o Ministério da Educação e Saúde;
- 16 de julho: promulgação da Terceira Constituição do Brasil;
- 21 de novembro: morre o escritor Coelho Neto;
- É instituída, no rádio, a “Hora do Brasil”.
1935 – Rege três concertos sinfônicos no Teatro Colón de Buenos Aires. No Rio de Janeiro, comemorando o 250.º aniversário de nascimento de Bach, rege em primeira audição a Missa em si menor do compositor alemão. Villa retorna ao projeto de revisão da partitura oficial do Hino Nacional. Foi muito criticado nessa ocasião por ter baixado um edital que proibia a execução do hino até que o trabalho da comissão de revisão, que ele havia formado, concluísse os trabalhos de correção. Esse projeto de corrigir a partitura do Hino Nacional não foi resolvida de imediato, pois permaneceu na pauta das discussões até 1942. Villa viaja à Argentina com a comitiva de Getúlio Vargas em viagem oficial. Nessa viagem Villa dirigiu a estreia do bailado Uirapuru. Aproveitou a viagem e proferiu conferências sobre música;
- 8 de dezembro: MB escreve a MA mencionando Villa:

Rio de Janeiro, 8 de dezembro de 1935.

Mário,

(...).//Parece que o Villa afundou mesmo. Os jornais elogiaram muito, mas o público “arrepunou”. Saiu do Municipal convencido que Bach é uma estopada. Já tive ocasião de ouvir o orfeão do Villa. Aí a coisa é melhor. Também o que canta são coisas simples quase sempre. Uma ou outra vez o Villa se mete numa fuga de Bach e afunda de novo. E essa mania de massa que ele tem: 500 executantes! 700 executantes! Positivamente a batutinha dele não dá p’ra essas babilônias.
(...).
Abraços do

M.[41]
Adendo:
- 15 de fevereiro: morre no Rio de Janeiro, vítima de desastre automobilístico, o Príncipe dos Trovadores Brasileiros: Ronald de Carvalho;
- 14 de abril: morre no Rio de Janeiro, em consequência de uma operação de apendicite, o escritor paulista, autor de “Brás, Bexiga e Barra Funda (1927), Laranja da China (1928) e o romance inacabado “Mana Maria”:  António de Alcântara Machado;
- O levante comunista comandado por Luís Carlos Prestes é derrotado pelo governo.
1936 – 20 de janeiro: Villa participa da grande celebração da Missa de São Sebastião, ocorrida na praia do Russel. A convite do Governo da Tchecoslováquia, participa do Congresso de Educação Musical Popular, em Praga, como delegado brasileiro. Nesse Congresso, através de uma longa conferência, Villa apresenta um panorama geral do Brasil: geográfico, demográfico, cultural e educacional. Para encerrar sua participação no Congresso, Villa apresenta o “Coral de Crianças da Milicur Dum” de Praga, cantando em português: Alegria de Viver e, em tcheco, Hino ao Sul do Brasil. De Berlim, envia carta a Lucília desfazendo o casamento. Passa a morar com a jovem cantora Arminda Neves d’Almeida (Mindinha) na Rua Araújo Porto Alegre, n.º 56. Compõe o Ciclo Brasileiro, para piano. Dirigiu a ópera Colombo nas comemorações do centenário de nascimento do músico Carlos Gomes;
Adendo:
- 12 de setembro: Entra no ar a Radio Nacional do Rio de Janeiro.
1937 – Compõe as quatro Suítes do Descobrimento do Brasil e a Missa de São Sebastião. É membro honorário da Academia de Santa Cecília de Roma. A editora Vitale, edita o “Guia Prático” de autoria de Villa-Lobos. (Em 1966, esse mesmo Guia Prático foi reeditado pelo Museu Villa-Lobos, consta de um volume de 86 páginas, contendo 138 versões de canções, harmonizadas em estilo autêntico, para canto e piano, piano solo, conjunto instrumental ou coro a duas e três vozes. As letras foram revistas e adaptadas por Afrânio Peixoto, que assina também o prefácio). A Secretaria Geral de Educação e Cultura – RJ, edita o “Programa de Ensino de Música”, elaborado por Villa-Lobos. Na sequência, parte de um dos depoimentos de Villa, a respeito:

“Em 1932, a convite do Diretor-Geral do Departamento de Educação, fui investido nas funções de orientador de música e canto orfeônico no Distrito Federal, e tive, como primeiros cuidados, a especialização e aperfeiçoamento do magistério, e a propaganda, junto ao público, da importância e utilidade do ensino de música. Reunindo os professores, compreendendo-lhes a sensibilidade e avaliando as possibilidades e recursos de cada um, ofereci-lhes cursos de especialização com acentuada finalidade pedagógica, dos quais, logo depois, ia surgir o Orfeão de Professores, onde, como nos cursos, ingressavam pessoas estranhas, atendendo à complexidade artística das organizações. Procurando esclarecer o público, principalmente certos pais de alunos, sobre os objetivos dessa atividade educacional, moveu-me um duplo objetivo: retira-los do estado de incompreensão em que se encontravam, e desfazer, de vez, as prevenções que nutriam e se refletiam sobre os escolares, ocasionando lamentável resistência passiva aos esforços renovadores da administração. Num ou noutro aspecto, realizava-se uma ação de indiscutível alcance educativo. Nem por mais tempo se poderia retardar a verdadeira interpretação do papel da música na formação das gerações novas e da necessidade inadiável do levantamento de nível artístico do nosso povo. O Canto Orfeônico é o elemento propulsor da elevação do gosto e da cultura das artes, é um fator poderoso no despertar dos sentimentos humanos, não apenas os de ordem estética, mas ainda os de ordem moral, sobretudo os de natureza cívica.
Influi, junto aos educandos, no sentido de apontar-lhes, espontânea e voluntária, a noção de disciplina, não mais imposta sob a rigidez de uma autoridade externa, mas novamente aceita, entendida e desejada. Dá-lhes a compreensão da solidariedade entre os homens, da importância da cooperação, da anulação das vaidades individuais e dos propósitos exclusivistas, de vez que o resultado só se encontra no esforço coordenado de todos, sem o deslize de qualquer, numa demonstração vigorosa de coesão de ânimos e sentimentos. O êxito está na comunhão. O orfeão adotado nos países de maior cultura, socializa as crianças, estreita seus laços afetivos, cria a noção coletiva do trabalho. Só quando todas as vozes se integram num mesmo objetivo artístico, despidas de quaisquer predominâncias pessoais, é que se encontrará a verdadeira demonstração orfeônica. Nas escolas primárias e mesmo nas secundárias, o que se pretende, sob o ponto de vista estético, não é a formação integral de um músico, mas despertar nos educandos as aptidões naturais, desenvolvê-las, abrindo-lhes horizontes novos e apontando-lhes os institutos superiores de arte, onde é especializada a cultura. Oferecendo-lhes as primeiras noções de arte, proporcionando-lhes audições musicais, cultivando e cultuando os grandes artistas, como figuras de relevo da Humanidade, em todos os tempos. Esse ensino, embora elementar, há de contribuir, poderosamente, para a elevação moral e artística do povo. Assim, pois, as três finalidades distintas obedece a orientação traçada para as escolas do Distrito: a) disciplina; b) civismo; c) educação artística”[42];
Adendo:
- Com música de Villa-Lobos, Humberto Mauro lança seu filme “O Descobrimento do Brasil”;
- Oscar Lorenzo Fernandez funda o Conservatório Brasileiro de Música, que dirigirá até morrer, em 1948;
- 13 de janeiro: criação do Museu Nacional de Belas Artes;
- 4 de maio: morre no Rio de Janeiro, Noel Rosa, vítima de tuberculose;
- Getúlio Vargas, autorizado pelo Congresso, outorgou nova Constituição – de caráter nitidamente fascista. Nomeou interventores para todos os Estados, extinguiu os partidos políticos e determinou a supressão dos direitos individuais. Instaurado o Estado Novo, que duraria até 1945, apoiado pela classe média e pela burguesia.
1938 – Compõe as Bachianas Brasileira n.º 3, n.º 5, n.º 6, e o Quarteto de Cordas n.º 6. Compôs a trilha sonora do filme Descobrimento do Brasil - feito por Humberto Mauro para o Instituto Nacional de Cinema Educativo;
Adendo:
- 26 de setembro: nasce em S. Paulo, Júlio Medaglia, maestro e arranjador.
1939 – Compõe As Três Marias, para piano. Em outubro, numa entrevista sobre educação, foi relembrada aquela sua famosa frase que dizia: “O futebol fez desviar a inteligência humana da cabeça para os pés”. Villa tratava os aficionados do famoso esporte, os discutidores de times e clubes, de “futebóis” – dizia: “São uns futebóis...”. E disse mais: “Francamente já gostei do futebol. Cheguei a fazer parte do grupo que fundou o América Futebol Clube. Eu mesmo já joguei futebol. Não me oponho ao futebol, nem a nenhum esporte praticado esportivamente. (...).//É pena que hoje em dia o futebol brasileiro tenha perdido seu caráter de esporte para transforma-se num negócio outro qualquer”. 22 de novembro: Cezar Ladeira, na Hora do Brasil, interpreta a Oração a Santa Cecília, Padroeira da Música, escrita por Villa-Lobos especialmente para o Dia da Música. A descrição é do Heitor Villa-Lobos – Tradição e Renovação na Música Brasileira, de Maria Celia Machado, Editora Francisco Alves & Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 1987, pp.48-49:

Santa Cecília! Divina Protetora da Música!
Ouve, em regozijo à tua santa imagem, em satisfação à influência sacrossanta do teu poder milagroso, em humildade pela grandiosa e eterna obra de Deus, à veneração de uma raça, à evocação de um povo, as preces ardentes, cheias de Alma e Fé, dos artistas sonoros do Brasil!
Tu, que deste ao Brasil o privilégio do amor pela música; que fizeste dos pássaros, rios, cachoeiras, mares, ventos e da gente desta terra uma sinfonia incomparável, cujas melodias e harmonias têm influído na formação da inteligência e bondade brasileiras, auxiliando espiritualmente a disciplina coletiva da mocidade e dos homens para servir às funções úteis e indispensáveis da humanidade, para melhor compreensão do valor consciente ao folclore regional e sentir artisticamente a música nacional;
- Ilumina aos que desejam ajudar a arte do Brasil;
- Protege aos que acreditam no valor e utilidade da música;
- Ajuda aos que anseiam proteger os artistas;
- Inspira aos que cantam o hino da nossa Pátria, a uma execução perfeita, como prova de obediente disciplina cívica;
- Esclarece aos que confundem a manifestação popular nativa, boa mas inculta, com a expressão de arte cultivada;
- Entusiasma os verdadeiros artistas que vivem desanimados pela confusão que a opinião pública estabelece entre o valor autêntico e os falsos artistas;
- Alegra os que imaginam que a música será algum dia a Bandeira Sonora da Paz Universal;
- Encoraja os compositores que, desanimados na carreira da vida musical, vêm satisfazendo o declive do gosto popular;
- Mostra aos indiferentes que vivem em várias camadas sociais a felicidade de quem ama a música;
- Perdoa os que não acreditam na cura dos anormais e na educação dos princípios da disciplina cívico-social pela música;
- Faze com que a opinião pública saiba respeitar o valor das artes e dos bons artistas brasileiros;
- Guia a mocidade pela arte do som;
- Anima aos que consideram a música de interesse nacional por ser um dos fatores que educam o espírito, tal como a educação física fortalece e desenvolve o organismo.
Santa Cecília! Divina Protetora da Música!
Ouve, em regozijo à tua santa imagem, em satisfação à influência sacrossanta do teu poder milagroso, em humildade pela grandiosa e eterna obra de Deus, à veneração de uma raça, à evocação de um povo, as preces ardentes, cheias de Alma e Fé dos artistas sonoros do Brasil!

- Villa sempre lutou para que o sistema educacional no Brasil fosse aprimorado e valorizado, deflagrando um movimento de salvação nacional através da educação artística. Assim dizia: “Somente a educação salvará o povo brasileiro. Nossa ação foi baseada no educador. Graças ao devotamento desses professores vamos conseguir a elevação do nível cultural do povo”. Andrade Muricy, crítico e musicólogo, escreve artigo para a edição de 19 de julho do Jornal do Comércio (RJ): “//O Brasil deve este imenso serviço a Villa-Lobos. //A campanha, pública ou secreta, feita à ação deste educador, visando diminuí-lo, só diminuiria, se eficaz, a educação nacional. Villa-Lobos tem sido um surpreendente propulsionador da consciência musical e artística brasileira, e, além disso, primacialmente, um coordenador da nossa sincera, porém incerta e dispersiva, consciência cívica. //Só os pósteros poderão aquilatar a valia, a importância, a dificuldade árdua do seu infatigável esforço. Uma resistência orgânica e mental excepcional, uma capacidade de trabalho que se diria sem limite, uma verdadeira incapacidade de desanimar, fizeram deste artista um dos mais fortes construtores do Brasil de amanhã. //Esse criador, cuja obra honra de modo brilhante e impressionante os foros culturais do Brasil no estrangeiro, dá a sua pátria o presente inapreciável de sua abnegada atividade educativa, tão mal compreendida por muitos, porém já estimada por numerosos outros que a julgaram sem espírito preconcebido e com conhecimento de causa.[43]
- Através do Decreto-Lei nº 1.063, de 20 de janeiro, a Universidade do Distrito Federal, na época com um corpo de professores de alto nível, entre eles: Villa, Lorenzo Fernandez, Andrade Muricy e Arnaldo Estrella – foi declarada inconstitucional e extinta pelo então Ministro de Educação e Saúde, Gustavo Capanema, a serviço da ideologia autoritária do Estado Novo;
Adendo:
- 18 de fevereiro: nasce em Recife – PE, o músico, pianista e compositor, Marlos Nobre;
- 25 de junho: nasce em S. Paulo, João Carlos Martins, pianista e maestro;
- Início da Segunda Grande Guerra. Em 1º de setembro, Hitler invade a Polônia;
- No Brasil é criado o DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda, órgão de censura aos meios de comunicação.
1940 – Concentração orfeônica no estádio do Vasco da Gama, reunindo aproximadamente 42 mil vozes de crianças estudantes. Nessa concentração aconteceu uma grande ovação ao presidente Vargas.  Compõe o balé Mandu-Çarará e os Prelúdios, para violão. 4 de fevereiro: no O Jornal do Comércio, há um relado do Dr. Sebastião Barroso sobre Villa: “Eu acompanhei-o desde a sua meninice; viveu durante anos seguidos metido em orquestras como violoncelista, agarrado sempre aos tratados de harmonia, de contraponto, de orquestrações (sic) e nas suas ousadias instrumentais, rítmicas, melódicas e harmônicas, na há de contrário ao que os grandes mestres determinam de básico e essencial. (...)”. Na longa carta a Oneyda Alvarenga, datada de 14 de setembro de 1940, MA relata episódio sobre as “Cirandas” de Villa-Lobos. Segue o trecho, conf. Andrade, Mário de & Alvarenga, Oneyda. Cartas. Livraria Duas Cidades, SP – 1983.  pp. 282/283:

(...). As “Cirandas” e em consequência as “Cirandinhas”, sem dúvida das coisas mais geniais do Vila, ele as deve a mim. Fui eu que observando certa renitência no Vila em aceitar o aproveitamento folclórico, observando a dificuldade de construção formal dele e outras coisas assim, escrevi uma carta de pura mentira pro Vila, me dizendo encantado com as obras de Allende, um chileno que eu fingia descobrir no momento, observava as peças em forma A-B, uma aproveitando um tema popular, outra de criação livre, quando muito se servindo de constâncias folclóricas, coisas assim, e está claro fingindo uma admiração danada pelo homem, que ia escrever sobre ele, coisas que, eu sabia, deixavam o Vila sangrando em sua imensa vaidade. Mas a esperteza maior foi, em seguida, fingindo amizade subalterna, pedir a ele que me escrevesse umas peças de meia-força pros meus alunos de piano. Como sempre: nenhuma resposta, o Vila só escreve carta precisando da gente. Mas poucos meses depois vim no Rio, não me lembro mais onde, era uma festa, havia muita gente, creio que intervalo de concerto, me encontro com o Vila numa roda. E ele imediatamente: “Olhe, vá lá em casa! tenho umas coisa pra você. Bem! não é nada daquilo que você me pediu!. E sorriu com arzinho superior meio depreciativo. Eu fui e eram as “Cirandas”. E era exatamente o que eu pedira, e que tivera a intenção de provocar no Vila, embora estivesse longe de imaginar “Cirandas”. (...);
Adendo:
- MB é eleito membro da Academia Brasileira de Letras.
1941 – Nova demonstração de canto orfeônico no estádio do Vasco da Gama. Sob a regência de Villa e Sílvio Caldas, canta o Gondoleiro do Amor, de Castro Alves, acompanhado por 30 mil vozes. Conclui a versão orquestral da Bachianas Brasileiras n.º4. Observação de MA, nesse ano: “Pocos anos depois de finda guerra (de 1914), e não sem ter antes vivido a experiência bruta da Semana de Arte Moderna, de S. Paulo, Villa-Lobos abandonava consciente e sistematicamente o seu internacionalismo afrancesado, para se tornar o iniciador e figura máxima da Fase nacionalista em que estamos” [44];
Adendo:
- 28 de Agosto: entra no ar, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, o jornal “Repórter Esso”, na voz de Romeu Fernandez, anunciando o ataque de aviões da Alemanha à Normandia, durante a Segunda Grande Guerra.
1942 – Dirige o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, Rio de Janeiro. Esse Conservatório foi oficializado pelo Decreto nº 4.993, de 26 de novembro, assinado por Getúlio Vargas. Villa dirigiu essa entidade até 1957.  Cria a sua própria orquestra sinfônica. Compõe a Bachianas n.º 7, o Poema de Itabira, sobre texto de Drummond de Andrade, e o Quarteto de Cordas n.º 7. Em 8 de junho: MA escreve a Guilherme Figueiredo e faz referências à pessoa de Villa:

S. Paulo, 8-VI.42

Guilherme meu velho

São precisamente 18 horas e vinte minutos. Acabo de ler a sua história da musica. (...).
Está claro que não entro no mérito das opiniões críticas de você, são de você e o livro é de você. Talvez apenas eu pedisse pra você raciocinar um bocado mais na esculhambação que você passa em Vila Lobos(*). Não sugiro que você tire nada do que escreveu, mas não me parece que você equilibrasse bem a sua admiração pelo músico com a sua repulsa justa pelo homem. Ora o homem é coisa particular e Vila Lobos o que é, é músico. E a meu ver, embora irregular nas obras de fôlego porque aí êle não pode suprir aos desenvolvimentos da inspiração com uma tecnica que êle não tem, êle é autor dos Choros nº 10 que você esqueceu de citar e é positivamente um esquecimento grave. Quanto a peças pequenas, piano, canto, o Vila apresenta uma bagagem onde não são raras as obras-primas – perfeitissimas. Acresce ainda que o Vila é uma celebridade de conhecimento internacional e não sei si será muito patriotico (no bom sentido socializador da palavra) essa inflação do homem, na sua página, em detrimento do compositor.
(...).
Decerto vou no Rio a semana que vem, lhe avisarei. O melhor dos abraços do
                        Mario
(*) Minha indignação contra Villa Lobos se devia à adesão ao “Estado Novo”, a cujo serviço colocara o seu nacionalismo musical. [45]
Adendo:
- O Brasil entra na Segunda Grande Guerra.
1943 – É nomeado Doutor em Música Honoris Causa pela Universidade de Nova Iorque e também pela Universidade de Los Angeles;
1944 – Compõe a Bachianas n.º 8, o Quarteto de Cordas n.º 8 e a Sinfonia n.º 6 (Montanhas do Brasil). Faz sua primeira viagem aos Estados Unidos. Érico Veríssimo serviu de intérprete para Villa que não falava inglês – e consta que Veríssimo passou grandes apuros, pois Villa falava muita asneira e ele tinha que fazer a versão para o inglês inventando outras frases complemente diferentes, como por exemplo: pediram para Veríssimo dizer a Villa: “O fato de ele não falar inglês não tem a menor importância. Nós o admiramos tanto que só de ficar aqui a olhar para ele sentimo-nos felizes”. Após a tradução, Villa responde: “Diga que não sou papagaio e nem palhaço de circo”. E Veríssimo traduz: “O maestro declara que se sente felicíssimo por estar aqui hoje”. Recebe o título de Doutor em Leis Musicais, pelo Occidental College de Los Angeles. MA, em 19 de outubro, escreve crônica sobre Villa no jornal Folha da Manhã: O perigo de ser maior, in “Mundo Musical”. Aqui podemos verificar a preocupação do cronista em “justificar” suas ponderações a respeito do Villa na época que este se “juntara” ao governo Vargas. Na sequência, descrição parcial:
- (...)
“Aqui já não estou gostando muito de mim, porque no meu ideário vieram lembranças tristes, e a maldade me enrugou. Eu gostava era daquele Vila Lobos antes de 1930, que ainda não aprendera a viver. Que vivedor maravilhoso era ele então! Fazia uma malvadeza colérica, sem nem de longe saber que estava fazendo uma malvadeza colérica, saía bufando da casa que o hospedava, grosseiro, mal-educado, e logo estava em plena rua se espojando no chão, esquecido, puro, anjo, pasteurizado, brincando com uma criança que passeava... Pobre, numa dificuldade reles de dinheiro, ganhava uma bolada boa, tinha dívidas a pagar, mas convidava a gente pra um restaurante, onde acabava gastando não só o que ganhara, mas uma quantia que os outros precisavam completar. Fazia uma improvisação no violoncelo, completamente ruim e mal-executada, ou se arrepelava porque lhe tocavam errado a ‘Lenda do Caboclo’, exemplificando ao piano de maneira horripilante, pra logo estar ganhando horas empinando papagaio, e vir jogar na pauta os esboços duma Ciranda ou de qualquer outra obra-prima. Depois, tudo mudou e não bom falar... Mas preciso sempre que se afirme que muitos, que a maioria dos músicos verdadeiros do Brasil, repudiam, até envergonhados, quase todos os escritos ‘com palavras’ publicados por Vila Lobos desde então. Desde as suas entrevistas até os seus opúsculos de diretor dos serviços públicos. Mas nada impedirá, nada, que ele seja o criador de numerosas obras-primas musicais, de uma produção imensa que é quase toda do maior interesse de estudo e execução, um dos compositores mais fortes do mundo contemporâneo. Apenas, como poesia, Vila Lobos não é objeto de exportação nacional”.
A partir desse parágrafo Mário discorre sobre algumas obras para piano e reafirma sua admiração pelas Cirandas. O crítico termina o artigo com fecho de ouro:
“Pois é: cheguei onde desde o princípio desta crônica eu pressentia que iria chegar. Com Vila Lobos não é questão do bom e do ruim, mas de homens bons e de homens ruins. Vila Lobos diz muita tolice e pratica outras tantas. Está certo verificar sempre que ele não é objeto totalitarista de exportação diplomática. Não é um pocket-book, isso não! Mas Vila Lobos é compositor. A música dele anda impressa. E decide que ele está entre os mais fortes compositores da atualidade. Quem, por essas Américas finas e grossas, tirar da pessoa dele conclusões de valor ou qualificação, do Brasil ou mesmo dele: que se enforque”[46];
- Outra observação importante quando relacionamos MA e Villa é o livro inacabado de Mário, O Banquete – edição da Livraria Duas Cidades, SP, prefaciado por Jorge Coli e Luiz Carlos da Silva Dantas - reunirão os artigos publicados no “Mundo Musical”, da Folha da Manhã, já mencionados. No O Banquete, muito provavelmente, Mário tenha “camuflado” Villa-Lobos no personagem “Janjão”. Outro personagem desse livro, a milionária “Sarah Light”, provavelmente Mário “camuflou” a pessoa da Dª. Olivia Penteado. Não sabemos qual seria o fim projetado por MA, mas Janjão teria um fim triste, pois este seria “jogado na rua”, como podemos verificar no Capítulo X: As Despedidas – A luta moral do compositor. Noturno. Janjão jogado na rua;
Adendo:
- 16 de julho: desembarque do primeiro contingente da FEB na Itália.
1945 – 14 de julho: Villa funda a Academia Brasileira de Música (ABM) e torna-se seu primeiro presidente. A ABM foi criada nos moldes da Academia Francesa. É uma instituição cultural sem fins lucrativos. Compõe-se de 40 acadêmicos. Compõe a Bachianas Brasileiras n.º 9, a Fantasia para violoncelo e orquestra, o Quarteto de Cordas n.º 9. Nos Estados Unidos, rege a Sinfônica de Boston em programa “só Villa-Lobos”;
Adendo:
- 22 de janeiro: acontece o Primeiro Congresso Nacional de Escritores, na cidade de S. Paulo, no Teatro Municipal;
- 21 de fevereiro: Conquista de Monte Castelo pela Força Expedicionária Brasileira (FEB);
- 25 de fevereiro: na cidade de S. Paulo, vítima de ataque cardíaco, morre Mário de Andrade;
- 14 de março: morre no Rio de Janeiro, o compositor e regente Antônio Francisco Braga;
- Getúlio Vargas é deposto. Extinguiu-se o Estado Novo. Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente;
- Fim da Segunda Grande Guerra. Morte de Hitler e Mussolini;
- Os Estados Unidos lançam duas bombas atômicas sobre o Japão.
1946 – Compõe o Quarteto de Cordas n.º 10. Falecimento da mãe, Noêmia. Nesse ano o diplomata Dr. Vasco Mariz, 25 anos, procura Villa com o interesse de escrever a biografia do Maestro. Fato que realmente aconteceu, assim como Mariz viria escrever outros livros sobre Villa. [Até hoje os livros de Vasco Mariz sobre Villa-Lobos são referências indispensáveis para se estudar a vida e a obra do Maestro. Sem desmerecimento aos outros autores, cravo novamente outro nome para os interessados em conhecer Villa-Lobos: Paulo Renato Guérios – e seu mais recente livro: Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação. Ed. do Autor, Curitiba – PR, 2009 – 2ª edição]. O músico Oscar Lorenzo Fernandez, neste ano, na “A contribuição harmônica de Villa-Lobos para a música brasileira – In: Boletin Latino Americano de Música. a. 5, nº 6, abril de 1946 – p. 284, assim se refere a Villa-Lobos:
“Só quem convive com esse grande artista, exteriormente tão desigual, é capaz de compreender a sua evolução lenta e segura, pois Villa-Lobos, desde os seus trabalhos de mocidade, em que se sente uma técnica deficiente e mão incerta, embora já se notem acentos da sua força criadora, começa uma ascensão em que a técnica vai melhorando dia a dia, vai enriquecendo-se até um período em que atinge grande complexidade, para alcançar, no momento atual, uma maior simplicidade de meios e, ao mesmo tempo, grande poder de síntese e de emoção, numa cristalização total de sua poderosíssima personalidade. É esse, geralmente, o quadro lógico da evolução dos grandes mestres: o de um Bach, o de um Beethoven, o de um Wagner e será, sem dúvida, surpresa para muitos saberem que Villa-Lobos, tido pela maioria por louco, não sei porque, é um artista perfeitamente normal, observador, estudioso e, sobretudo um grande trabalhador”[47];
Adendo:
- 31 de janeiro: posse do presidente Eurico Gaspar Dutra. Inicia-se o período de democratização do país;
- 2 de fevereiro: instalação dos trabalhos da IV Assembleia Nacional Constituinte. A promulgação acontece em 18 de setembro;
- 7 de outubro: a Academia Brasileira de Música foi reconhecida de utilidade  pública por Decreto Federal.
1947 – Faz sua segunda viagem aos Estados Unidos. Ganha o prêmio do Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura. Escreve com os libretistas Forest e Wright, a opereta Magdalena;
Adendo:
- 6 de julho: a Academia Brasileira de Música é instituída como Órgão Técnico Consultivo do Governo Federal, através de Decreto;
1948 – A sua ópera Malazarte é estreada nos Estados Unidos. Tem sua saúde agravada e é operado de câncer na bexiga, nos Estados Unidos. Villa deu entrada no Memorial Hospital em 9 de julho. Foi operado. Os custos dessa operação foram pagos pelo governo federal. Compõe a Canção de um poeta do Século XVIII e o Quarteto de Cordas n.º 11;
Adendo:
- 4 de julho: morre o escritor Monteiro Lobato;
- 27 de agosto: morre no RJ o músico carioca (professor, compositor e regente): Lourenço Fernandez;
- 20 de setembro: morre em SP, Ernani Braga, músico, compositor e intérprete de Villa-Lobos.
1949 – Reinicia as turnês artísticas pela Europa e Estados Unidos. Em Israel, compõe um poema sinfônico em homenagem ao novo Estado;
1950 – Compõe o poema sinfônico Erosão; o Assobio a Jato, para flauta e violoncelo, e o Quarteto de Cordas n.º 12;
Adendo:
- 18 de setembro: às 22 h, em S. Paulo, foi ao ar o primeiro programa da televisão brasileira, TV Tupi, S. Paulo.
- 3 de outubro: Getúlio Vargas é eleito presidente, obtendo 3.849.040 votos (49% dos votos válidos. Os outros dois concorrentes, Eduardo Gomes, 30%, e Cristiano Machado, 22%.
1951 – Compõe o Quarteto de Cordas n.º 13, o Concerto para violão e orquestra e a Sinfonia n.º 9. Na sua passagem pela capital da Paraíba, João Pessoa, Villa faz conferência se posicionando diante da realidade musical brasileira. Algumas das suas colocações na Conferência:
- “O Brasil tem uma forma geográfica de um coração. Todo brasileiro tem este coração. A música vai de uma alma a outra. Os pássaros conversam pela música. Eles têm coração. Tudo que se sente na vida se sente no coração. O coração é o metrônomo da vida, e há muita gente na humanidade que se esquece disso. (...). //Meus amigos, foi com esse pensamento que eu me tornei músico. Foi por isso que eu me tornei um escravo profundo e eterno da vida do Brasil, das coisas do Brasil. (...). Eu estou tão contente, cada vez mais, de ser brasileiro! (...). //Eu fui pela música. E, se por acaso o meu exemplo puder servir de alguma coisa a todos os meus patrícios, façam o mesmo. Sejam livres. Lembrem-se do coração. Lembrem-se que este é que é o metrônomo da realidade. Com ele terão a razão econômica de tudo, das coisas. Terão a medida exata da realidade da própria vida. Lembrem-se de que é a arte que vem do coração para um coração, de uma alma para outra alma, e a música é a primeira arte que conduz às outras artes. Eu não digo isto porque sou música, não. Mas ela tem um poder positivo, digamos um poder biológico. //Ela é uma terapêutica para a alma doente. A música é um consolo para o sofredor. A música é um embalo para o pequenino no colo de suas mães, seus pais. A música é o alento do desventurado. A música é a alegria daqueles que são alegres. A religião, qual das religiões que existem sobre a Terra e que não usou a música como elemento de atração aos seus crentes? Essa música que Santo Ambrósio utilizou para formar depois os cânticos litúrgicos definidos. É com essa música, senhores, que nós precisamos compreender que o Brasil vive, e que ninguém percebe. //Ninguém percebe que o país musical que existe sobre a Terra deixa passar, vagamente, indiferentemente, essa música tão pura, música da alma, música do coração. Que importa que haja duas espécies de música: a música da manifestação espontânea, a música popular, e a música da alma elevada, da alma intelectual, a música da arte. O folclore é o intermediário desses dois elementos, é a ciência da pesquisa, é o traço de união de que se utiliza o criador para, tirando do povo essa música, essa arte espontânea, burilar no seu coração, na sua alma, e trazer outra vez para o povo. (...)[48];
Adendo:
- 31 de janeiro: posse de Getúlio Vargas como presidente do Brasil;
- 20 de outubro: inaugurada em S. Paulo a I Bienal Internacional de Artes Plásticas.
1952 – Recebe do Governo do Estado de S. Paulo encomenda para obra comemorativa do IV Centenário da capital paulista; será a Sinfonia n.º 10, Sumé Pater Patrium;
Adendo:
- 27 de setembro: morre na via Dutra o cantor Francisco Alves, chamado de “Chico Viola, Rei da Voz”. O velório foi realizado na Câmara Municipal, na Cinelândia (RJ).
1953 – Compõe o Quarteto de Cordas n.º 14, a Odisséia de Uma Raça, dedicada ao Estado de Israel; o Concerto n.º 2, para violoncelo e orquestra;
Adendo:
- 20 de março: morre o escritor Graciliano Ramos, consagrado como o maior romancista brasileiro depois de Machado de Assis;
- Em maio, concorrendo com a produção cinematográfica de 26 países, o filme brasileiro: “O Cangaceiro” é premiado no Festival de Cannes, na França, dirigido por Vitor de Lima Barreto. O Brasil todo canta: Mulher Rendeira;
- Vão para o ar a TV Rio (Canal 13) e a TV Record (Canal 7), de S. Paulo.
1954 – Visita Israel a convite do governo de Tel-Aviv. Compõe o Quarteto de Cordas n.º 15, a Sinfonia n.º 11 (encomendada pela Sinfônica de Boston), o Quarteto de Cardas n.º 16. Recebe, nos Estados Unidos, o título de Doctor Of Music. Escreve a sua Décima Sinfonia, Sumé pater patrium, escrita para o 4º Centenário da Cidade de S. Paulo. Nessa obra, Villa adaptou os versos de Anchieta no poema Beata Virgine, composto quando Anchieta se achava em Iperoig, como refém nas mãos do selvagens. Esta obra, também chamada de Sinfonia ameríndia, foi composta para orquestra, coro misto e solistas, sendo dividida em cinco tempos: Alegro (A terra e os seres), Lento (Gritos de guerra e a voz da terra), Allegretto Scherzando (Yurupichuna e a vida dos silvícolas), Lento (Aparição de Anchieta e Poco Allegro (S. Paulo de Piratininga). Embora composta para o 4º Centenário de S. Paulo, esta obra, dedicada a Mindinha, teve sua estreia em Paris, no Teatro dos Campos Elíseos, com a Orquestra e o Coro da Radiofusão Francesa, sob a regência do autor, a 4 de abril de 1947 [49];
Adendo:
- 25 de janeiro: iniciam-se as Comemorações do IV Centenário da cidade de S. Paulo.
- Suicídio de Getúlio Vargas. Posse de João Café Filho, vice-presidente, em 24 de agosto, após o suicídio de Getúlio;
- 22 de outubro: morre o escritor Oswald de Andrade, na cidade de S. Paulo.
1955 – A imprensa francesa faz referências elogiosas a concertos na Salle Gaveau. Compõe Yerma (ópera em três atos) e o balé Emperor Jones. Recebe a medalha “Richard Strauss, da Sociedade Alemã de Proteção aos Direitos Autorais dos Músicos. Recebe também do Presidente da República, Café Filho, a Comenda “Ordem do Mérito”;
Adendo:
- 3 de outubro: Juscelino Kubitschek de Oliveira é eleito Presidente, obtendo 36% dos votos válidos;
- 17 de dezembro: morre o artista modernista Victor Brecheret, em S. Paulo.
1956 – De volta ao Brasil, vê morrer na Justiça o processo de plágio que lhe movia o espólio de Catulo da Paixão Cearense por sua utilização, no Choros n.º 10, da letra para Schottisch Yara, de Anacleto de Medeiros;
Adendo:
- 31 de janeiro: posse de Juscelino Kubitschek, como presidente do Brasil.
1957 – O The New York Times traz editorial saudando os 70 anos do compositor. Seu aniversário foi comemorado o ano todo – o “Ano Villa-Lobos”, declarado pelo Ministro da Educação e Cultura, Clóvis Salgado: com palestras, debates e concertos. Em S. Paulo é promovida a “Semana Villa-Lobos” e o compositor recebe o título de Cidadão Paulistano. A entrega do título aconteceu na Câmara Municipal de S. Paulo, em 25 de setembro. Compõe o Quarteto de Cordas n.º 17. Trabalha na partitura do filme Green Mansions, que se transformará na Floresta do Amazonas;
Adendo:
- Fevereiro: inicia-se a construção da nova capital, Brasília, sob a direção dos arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa (autor do plano piloto da cidade);
- 2 de agosto: morre o pintor modernista Lasar Segall.
1958 – Rege a Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, na primeira audição do Magnificat Alleluia. Compõe a Bendita Sabedoria, para coro misto, a Fantasia Concertante para orquestra de violoncelos;
Adendo:
- Janeiro: o escritor, desenhista e pintor modernista Flávio de Carvalho, escandaliza a elite moralista da cidade de S. Paulo, desfilando pelo centro da cidade com saiote e meias rendadas de bailarina, alegando estar criando uma “nova moda masculina mais adequada ao clima do país;
- Como destaque na música: Surge a Bossa Nova, sob a liderança de João Gilberto, Roberto Menescal, Chico Feitosa, Tom Jobim e Nara Leão;
- Estreia no Teatro de Arena a peça “Eles Não Usam Black-Tie”, de Gian-francesco Guarnieri.
1959 – 12 de julho: rege o seu último concerto em Nova York, no Empire Music, ao ar livre (Festival de Verão de Nova York). Em setembro assiste, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a uma execução do Magnificat Alleluia. A doença que o acometera em 1948 volta a agravar-se. É internado no Hospital dos Estrangeiros, voltando para casa depois de uma surpreendente recuperação;

– 17 de novembro, 16 horas: Villa-Lobos morre em seu apartamento da Rua Araújo Porto Alegre, no Rio de Janeiro. Foi velado no Salão Nobre do Ministério da Educação e Cultura, e sepultado no dia seguinte, no cemitério de São João Batista.

1960 – Criado o “Museu Villa-Lobos”, através do Decreto nº 48.379, de 22 de junho, com sede no “Palácio da Cultura”, Rio de Janeiro, dirigido por Mindinha até sua morte, em 1985;
1961 – O prefeito de Nova York, Robert F. Wagner, proclama o dia 5 de março como o Dia Villa-Lobos;
1967 O ex-Conservatório Nacional de Canto Orfeônico do Rio de Janeiro, criado e dirigido por Villa-Lobos, é transformado em “Instituto Villa-Lobos”, através do Decreto nº 61.400, de 1º de Outubro;
1987 Em 5 de março: Quando das comemorações do 1º Centenário de Nascimento de Villa-Lobos, O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por solicitação do Departamento de Instrumentos de Arco e de Cordas Dedilhadas da Escola de Música, decidiu, por unanimidade, outorgar-lhe o título de “Doutor Honoris Causa – post-mortem.

NOTAS:

[1] Azevedo, Sânzio de. A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará. Casa de José de Alencar, Fortaleza, CE, 2ª ed., 1996 – p. 59.
[2] Nóbrega, Adhemar. Presença de Villa-Lobos. MEC/Museu Villa-Lobos, RJ, 4º vol., 1969, p. 17.
[3] Estrela, Arnaldo. Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos. MEC/Museu Villa-Lobos, RJ, 1970, p.10.
[4] Guimarães, Luiz. Villa-Lobos Visto da Plateia e na Intimidade. RJ, 1972, p. 224.
[5] Horta, Luiz Paulo. In: Villa-Lobos – Uma Introdução. Jorge Zahar Editor, RJ, 1ª ed., 1987, p. 42.
[6] Kiefer, Bruno. Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira. 2ª Ed. Editora Movimento (Porto Alegre) & INL: Fundação Nacional Pró-Memória (Brasília), 1986, pp. 59 a 61, 100.
[7] Wisnik, José Miguel. O Coro dos Contrários: a música em torno da semana de 22. Livraria Duas Cidades, SP, sd, pp. 74/75.
[8] Rezende, Neide. A Semana de Arte Moderna. Editora Ática, SP, 1ª Ed., 2000, p. 43.
[9] Wisnik, José Miguel. O Coro dos Contrários: a música em torno da semana de 22. Livraria Duas Cidades, SP, sd, p. 75.
[10] Villa-Lobos. Coleção A Vida dos Grandes Brasileiros. Editores: Domingo Alzugaray e Cátia Alzugaray. Editora Três Ltda, Cajamar – SP, (edição exclusiva para assinantes das Revistas “Isto É”: Gente e Dinheiro), sd, pp. 82/83.
[11] Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 87-88; Notas p. 89.
[12] Andrade, Mário de & Amaral, Tarsila do. Correspondência Mário de Andrade & Tarsila do Amaral. Org. Aracy Amaral. EDUSP & IEB, SP, 1ª ed., 2001 – p.64-67.
[13] Prado, Yan de Almeida. A Grande Semana de Arte Moderna. Edart – Livraria Editora Ltda – SP, 1976 – pp. 67/68.
[14] ___. A Grande Semana de Arte Moderna. Edart – Livraria Editora Ltda – SP, 1976 – pp. 75/76.
[15] Bandeira, Manuel. In: Ariel – revista de cultura Musical, ano II, out. 1924, nº 13, SP.
[16] Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP/IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 135.
[17] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 142; Notas p. 143.
[18] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 148/149.
[19] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 163.
[20] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 164; Nota: p. 165.
[21] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 164; Nota: p. 172.
[22] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 176/177.
[23] Andrade, Mário de. Cartas de Mário de Andrade a Prudente de Moraes, neto – 1924/36. Organizado por Georgina Koifman e apresentação de Antonio Cândido. Nova Fronteira, RJ, 1985 – p. 74.
[24] Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 220.
[25] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 238 – Nota 131: p. 239.

[26] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 251/252 – Notas 158: p. 251; Notas 159/160: p. 253.
[27] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 284.
[28] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 285/286.

[29] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 286/287.
[30] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 288 – Notas 45: p. 289.
[31] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 310/311 – Notas 45 e 87: p. 311.

[32] Machado, Maria Célia. Heitor Villa-Lobos – Tradição e Renovação na Música Brasileira. Ed. Francisco Alves & UFRJ, RJ, 1987, p. 72.
[33] Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 431/432 – Nota 35: p. 433.
[34] Guérios, Paulo Renato. Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação. Edição do Autor, Curitiba - PR, 2009, p. 186.
[35] Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 433/434 – Notas 38 e 39: p. 435.
[36] Machado, Maria Célia. Heitor Villa-Lobos – Tradição e Renovação na Música Brasileira. Ed. Francisco Alves & UFRJ, RJ, 1987, pp. 3-4.
[37] Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – pp. 466/467.
[38] ___. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 469.
[39] Prado, Yan de Almeida. A Grande Semana de Arte Moderna. Edart – Livraria Editora Ltda – SP, 1976 – pp. 81/82.
[40] Revista do IEB/USP – SP, 27, 1987 - pp. 53-57.
[41] Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001 – p. 620.
[42] Villa-Lobos. Programa de ensino de música. Departamento de Educação do Distrito Federal. Programas e Guias de Ensino. RJ, Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1937. p. VIII.
[43] Machado, Maria Célia. Heitor Villa-Lobos – Tradição e Renovação na Música Brasileira. Ed. Francisco Alves & UFRJ, RJ, 1987, pp. 43-44.
[44] Andrade, Mário de. Aspectos da Música Brasileira. Martins, S. Paulo, 1965, p. 32.
[45] ___. A Lição do Guru (Cartas a Guilherme Figueiredo) – 1937/1945. [Copyright by Guilherme Figueiredo]. Civilização Brasileira, RJ, 1989 – pp. 51 a 54.
[46] Toni, Flávia Camargo. Mario de Andrade e Villa-Lobos. Conferência apresentada no IEB/USP, a 26 de março de 1987. Revista do IEB-SP, nº 27:43-58, p. 51, 1987.
[47] Revista do IEB/USP, SP, nº 42, pp. 59-63, 1997.
[48] Machado, Maria Célia. Heitor Villa-Lobos – Tradição e Renovação na Música Brasileira. Ed. Francisco Alves & UFRJ, RJ, 1987, pp. 92 a 95.
[49] ___. Heitor Villa-Lobos – Tradição e Renovação na Música Brasileira. Ed. Francisco Alves & UFRJ, RJ, 1987, pp. 58-59.

Fontes Pesquisadas:

- Alambert, Francisco. A Semana de 22 – A Aventura Modernista no Brasil. Ed. Scipione, SP – 1994;
- Alvarenga, Oneyda. Mário de Andrade, Um Pouco. José Olympio Editora, RJ – 1974;
- Andrade, Mário de. A Lição do Guru (Cartas a Guilherme Figueiredo) – 1937/1945. Civilização Brasileira, RJ, 1989;
- Andrade, Mário de & Alvarenga, Oneyda. Cartas. Livraria Duas Cidades, SP – 1983;
- Andrade, Mário de. Aspectos da Música Brasileira. Obras Completas de Mário de Andrade, Vol. XI. Martins Editora, S. Paulo, 1965;
- ___. Dicionário Musical Brasileiro. Coord. Oneyda Alvarenga & Flávia Camargo Toni. Ministério da Cultura/IEB/Edusp - Ed. Itatiaia, BH, 1989;
- ___. Ensaio sôbre a Música Brasileira. Obras Completas de Mário de Andrade, Vol. VI. Martins Editora, SP, 1962;
- ___. Musica, Doce Musica. Obras Completas de Mário de Andrade, Vol. VII. Martins Editora, SP, 1963
- ___. Música e Jornalismo – Diário de S. Paulo. Edusp & Hucitec, SP, 1993;
- ___. Pequena História da Música. Obras Completas de Mário de Andrade, Vol. VIII, Martins Editora, SP, 1953;
- ___. O Banquete. Livraria Duas Cidades, SP, 2ª ed. – 1989;
- ___. Taxi e Crônicas no Diário Nacional. Livraria Duas Cidades, SP, 1976;
- Andrade, Mário de & Bandeira, Manuel. Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. Org. Intr. e Notas: Marco Antonio de Moraes. EDUSP & IEB, SP, 2ª ed., 2001;
- Andrade, Mário de & Amaral, Tarsila do. Correspondência Mário de Andrade & Tarsila do Amaral. Org. Aracy Amaral. EDUSP & IEB, SP, 1ª ed., 2001;
- Andrade, Mário de. Cartas de Mário de Andrade a Prudente de Moraes, neto – 1924/36. Org. Georgina Koifman. Nova Fronteira, RJ, 1985;
- Azevedo, Sânzio de. A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará. Casa de José de Alencar, Fortaleza, CE, 2ª ed., 1996;
- Bandeira, Manuel. Andorinha, andorinha. Seleção e Coord. de textos de Carlos Drummond de Andrade. José Olympio Editora, 2ª ed. - 1986;
- Boaventura, Maria Eugênia (Org.). 22 por 22 – A Semana de Arte Moderna Vista pelos seus Contemporâneos. Edusp, SP – 2000;
- Caldas, Waldenir. "O som dos modernistas". Anais do curso "A Semana de Arte Moderna de 22, 70 anos depois". São Paulo, Secretaria do Estado da Cultura, 1984;
- Camargos, Marcia. Semana de 22 – entre vaias e aplausos. Boitempo Editorial, SP – 2002;
- Castro, Moacir Werneck de. Mário de Andrade – Exílio no Rio. Ed. Rocco, RJ, 1989;
- Estrela, Arnaldo. Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos. MEC/Museu Villa-Lobos, RJ, 1970;
- Filho, Ruy Espinheira. Tumulto de amor e outros tumultos – Criação e Arte em Mário de Andrade. Ed. Record, RJ – 2001;
- Guérios, Paulo Renato. Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação. Edição do Autor, Curitiba - PR, 2009;
- Guimarães, Luiz. Villa-Lobos Visto da Platéia e na Intimidade. RJ, 1972;
- Horta, Luiz Paulo. Villa-Lobos – Uma Introdução. Jorge Zahar Editor, RJ, 1ª ed., 1987;
- Kiefer, Bruno. Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira. 2ª Ed. Editora Movimento (Porto Alegre) & INL: Fundação Nacional Pró-Memória (Brasília), 1986;
- Machado, Maria Célia. Heitor Villa-Lobos – Tradição e Renovação na Música Brasileira. Ed. Francisco Alves & UFRJ, RJ, 1987;
- Mariz, Vasco.  Heitor Villa-Lobos, Compositor Brasileiro. Rio de Janeiro: Divisão Cultural do Ministério das Relações Exteriores, 1949;
- Nóbrega, Adhemar. Presença de Villa-Lobos. MEC/Museu Villa-Lobos, RJ, 4º vol., 1969;
- Prado, Yan de Almeida. A Grande Semana de Arte Moderna. Edart – Livraria Editora Ltda – SP, 1976;
- Revista do IEB/USP – SP, 27, 1987;
- Revista do IEB/USP – SP, 42, 1997;
- Rezende, Neide. A Semana de Arte Moderna. Editora Ática, SP, 1ª Ed., 2000;
- Villa-Lobos. Coleção A Vida dos Grandes Brasileiros. Editores: Domingo Alzugaray e Cátia Alzugaray. Editora Três Ltda, Cajamar – SP, sd;
- ___. Programa de ensino de música. Departamento de Educação do Distrito Federal. Programas e Guias de Ensino. RJ, Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1937;
- Wisnik, José Miguel. O Coro dos Contrários: a música em torno da semana de 22. Livraria Duas Cidades, SP, 1977.

Internet:



- Márcia de Oliveira - Professora de Literatura e Língua Portuguesa - Graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará – UFC.


********************************
A Síntese biográfica de Guiomar Novaes está sendo refeita pelo Blog Retalhos
 

Nenhum comentário: