sábado, 7 de agosto de 2010

MENOTTI DEL PICCHIA :- ENTREVISTA

Foto inédita com Menotti Del Picchia.
A foto registrou a visita que o Escritor Erico Veríssimo fez a Diretoria de Propaganda e Publicidade do Estado, quando Menotti foi diretor. Sentados, da esquerda para a direita: Dr. Carlos Silveira, Erico Veríssimo, MENOTTI DEL PICCHIA e Dr. Osmar Pimentel. Em pé, no mesmo sentido: Vicente Machado, Osvaldo Mariano e Manoel Mendes.
(Foto sem data - original pertencente ao acervo da Exposição Retalhos do Modernismo).

Neste mês de Agosto é comemorado o aniversário de morte de um dos maiores escritores paulista e paulistano, participante ativo da Semana de Arte Moderna de 1922: Paulo Menotti Del Picchia, filho de Luiz Del Picchia e Corina Del Corso Del Picchia, nasceu em 20 de março de 1892, na capital paulista e lá faleceu em 23 de Agosto de 1988.

Por assim ser, o Blog RETALHOS DO MODERNISMO procurará enfatizar neste mês um pouco desse grande modernista, poeta, romancista, contista, ensaísta, crítico literário, pintor, escultor, jornalista, advogado, político, fazendeiro, paulistano e itapirense.

A primeira matéria sobre Menotti: uma entrevista de Menotti concedida ao jornalista Silveira Peixoto (autor de Falam os Escritores, Vols. I e II, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, SP. 1971), que conheceu Menotti em 1931, na redação de A Razão, jornal fundado por Alfredo Egídio de Sousa Aranha. Trabalhou com Menotti no gabinete do governador Pedro de Toledo durante o período da Revolução Constitucionalista de 1932.

Silveira entrevistou o amigo Menotti, em São Paulo. Segue a referida entrevista – conservada a ortografia original:

A tarde é uma algazarra de luzes e de côres. Aperto o botão da campainha, no portão da casa de Menotti – uma vivenda pitoresca, muito agradável, na Avenida Brasil, no Jardim América. A criada não se faz esperar e, daí a instantes, já no “hall”, ouço a voz do escritor, que me vem do pavimento superior:
- Suba, Peixoto! Estou brincando de pintar...
No gabinete de trabalho – um bruáá de livros, de tintas, de quadros e de retratos – dou com o criador de Juca Mulato, pincéis em punho, diante de uma tela quase concluída. Deixem-me assinalar, desde logo, que Menotti também é pintor.
- Vim entrevistá-lo...
Ao mesmo tempo que me oferece uma poltrona, indaga êle:
- Sôbre que é que você pretende ouvir-me?
- Sobre você mesmo.
Êle olha-me, entre surprêso e curioso.
- É isso mesmo: quero uma entrevista sua, sôbre você e sua obra.
- Mas, que é que vou dizer de mim?
- Tudo o que você quiser, contanto que não use de artificialismo.
- Muito bem. Há um prazer especial em falar bem de si próprio, que contrabalança êsse gôsto impulsivo e geral de falar mal dos outros... Vamos à primeira pergunta.
- Quando você começou a escrever?
Depois de meditar um instante, Menotti respondeu:
- Há muita gente que, como você não ignora, imagina que os destinos começam como as corridas de automóvel: com um tiro que marca o instante da partida... É engano. O caso do estalo no crânio do Padre Vieira é milagre raríssimo numa vida... A gente começa a escrever da mesma forma por que começa a falar...
- Como?
- Gaguejando a princípio, meu caro. Não há uma época certa, um marco, uma coisa que assinale o comêço. Lembro-me de que meus primeiros versos, eu os fiz à minha mãe.
- Um poema de amor filial...
- Nada disso. Eu devia ter uns seis anos e ela me trancara num quarto escuro, porque eu fugira da escola. Os versos que fiz foram uma quadra-libelo, um protesto rimado, sôbre o que eu julgava ser uma arbitrariedade e uma violência.
- Versos de revolta, então.
- Exatamente. E deviam ter o ardor panfletário daquele alexandrino de Guerra Junqueiro: “encarcerar a asa é encarcerar o pensamento humano”. A asa era a minha infantil liberdade, uma coisa chucra e indócil, que preferia os grilos do Vale do Anhangabaú e os lambaris ágeis e niquelados que eu pescava no riacho, às lições do pobre mestre-escola do Largo do Arouche.
- Um mestre-escola à antiga...
- Um carrasco que, certa vez, quase me achatou a cabeça com um dicionário... Mas, voltando aos meus primeiros versos: a quadrinha não foi escrita, não; foi declamada, com muita ênfase, através da porta “carcerária”. Minha mãe comoveu-se e soltou-me. Abraçou-me, em lágrimas. Nesse dia, acreditei no milagre da poesia.
- E agora, você não estará fazendo lirismo em tôrno do caso?
- Não. Como tôdas as mães, minha mãe era assim: depois do castigo, entregava os tentos... E foi ela a minha musa e a minha fôrça. Aos sete anos, escrevi um romance.
- Um romance?
- Sim, um romance, ou, melhor, um terrível pastiche do Conde de Monte Cristo. Foi minha mãe a minha única e comovida leitora. Eu a espiava, dissimulando, fingindo não vê-la. Juro que ela acreditou na minha estrêla de romancista.
Menotti faz uma pausa. E por uma natural associação de idéias, lembra, então, o pai:
- Na minha formação literária, há a cumplicidade de meu pai. O velho possuía uma bela cultura humanística. Apreciava tanto a astronomia, a pintura e a arquitetura, como Dante, Ariosto, Tasso e Leopardi. Depois do jantar, punha-se invariàvelmente a recitar: ... “La bocca sollevó dal fiero pasto quel peccator”...
- E você?
- Ficava meio aluado... Que coisas lindas! Não entendia muito bem aquilo... Mas, sentia. A poesia deve ser isso mesmo: uma coisa que a gente adivinha, mas não entende...
- Qual foi o seu primeiro escrito publicado?
- Um jornal inteirinho, do artigo de fundo ao rodapé. Doze anos de idade. Colégio de Pouso Alegre, em Minas Gerais. Meu diretor espiritual: o grande Dom Nery, que soube amar-me como um segundo pai. O jornal chamava-se Mandu, nome do rio mineiro, um rio caprichoso e sujo que, às vêzes, enfezava e resolvia sair das margens, alagar os bairros, encher de milhares de sapos músicos as várzeas da cidade.
- Desde aí você gostava de dar nomes próprios aos que fazia...
- É verdade. Aí estão os meus livros: Moysés, Juca Mulato, Laís, Jesus, Kummunká...
- A razão disso, qual é?
- As obras são criaturas, coisas vivas, que se destacam de nós e andam por aí, realizando uma existência autônoma. É preciso que tenham um nome, tal qual a gente.
- Voltando ao Mandu...
- Era escrito por mim e dirigido por mim e um colega – o Antenor Lemos, hoje médico, rico e pacato. Cuidávamos de tudo: de fazer o jornal, de revê-lo...
- Era impresso? Não era um jornalzinho manuscrito, feito por meninos de colégio?
- Um jornal às direitas. E nós mesmos é que o distribuíamos pela cidade. Tomávamos um carro de praça (grande luxo para ginasianos), e íamos pessoalmente fazer a entrega da fôlha aos assinantes. Isso tinha alguma coisa de triunfal, porque quando o carro parava juntava gente...
- E você conseguia ter liberdade de imprensa?
- Claríssimo. Um dia chegou o Mandu – ou melhor eu – a atacar os padres do colégio...
- O resultado...
- Não foi o que você está supondo, não. Dom Mamede, o reitor, que tinha bondades paternais, mandou me chamar. “Como é isso, menino?” – perguntou êle. “Isso quê?” – disse eu, fingindo surprêsa. “Isso do jornal... É um ato de indisciplina. Afinal, você é aluno do colégio e ataca pùblicamente os professôres? Com que direito?” Foi sem hesitar, foi muito convencido, que redargui, solene: “Com o direito da liberdade de imprensa”...
- Uma punição rigorosa...
- Não nego que o que eu merecia era um bom par de bolos. Dom Mamede, porém, riu. Há petulâncias grotescas; essa que eu pratiquei foi uma...
- E o jornal?
- Teve de suspender a circulação, pouco depois. Acabou. Foi uma sorte para os assinantes... O maior mérito dessa aventura jornalística pertencia aos cavalos que puxavam o famoso carro, no dia da distribuição...
- Qual o primeiro livro que você publicou?
- Poemas do vício e da virtude, uma lenga-lenga cheia muito mais de vícios, que de virtudes. Florada lírica dos 16 anos, descarga poética que nem ao editor fêz mal, pois que foi editado por minha conta.
- É desse livro a “Cantiga do sapateiro”...
- É. Ainda se recita por aí...
- Teve êxito?
- Uma porção de bordoadas desfechadas pelos parnasianos, então triunfantes e contra cujas couraças eu cegamente me atirava. É verdade que o “cérbero literário” daqueles tempos, Osório Duque Estrada, cheirou, no fedelho metido a literato, um futuro poeta. A gritaria dos velhos decidiu de minha carreira: decidiu-me a ser poeta, mesmo contra a vontade de Apolo! E escreve, então: Moysés, Máscaras, Juca Mulato, Chuva de Pedra, República dos Estados Unidos do Brasil.
- Entre seus livros, qual reputa o melhor?
- Não sei, muito ao certo. Talvez o que venha a escrever, ainda. Talvez Juca Mulato... Talvez Tôda nua, talvez Kummunká... É muito comum, nos escritores, quando falam para o público, menosprezar os próprios livros, enquanto no íntimo morrem de amôres por êles... E é natural que a gente goste mesmo de sua obra. Até a coruja vê, nas corujinhas, uns verdadeiros arcanjos...
- Mas, entre os seus “arcanjos”, qual o que você acha mais bonito?
- Gosto dos contos de Tôda nua, e da sátira de Kummunká. Parece-me que, em Tôda nua, os temas são novos e que, em Kummunká, há material o mais diverso: lirismo, realismo, preocupação de debater problemas atuais, poesia, sarcasmo.
- Sôbre as tiragens alcançadas?
- Creio que Juca Mulato e Máscaras representam um recorde. Ambos alcançaram as décimas sextas edições e, conjuntamente, atingiram a casa dos cento e vinte mil exemplares. Para poesia, é extremo favor público.
- Quanto aos outros?
- Números exatos, eu não os possuo. Mas, posso dizer que, há dois anos atrás, um de meus editôres calculava a tiragem global dos vinte oito livros, até então publicados, em cêrca de um milhão de exemplares. E está claro que não posso ficar triste, diante dêsse resultado, embora seja êle produto de vinte anos de vida literária.
- Quais, a seu ver, os elementos que um livro deve reunir, para alcançar sucesso?
- Ai está uma pergunta que não pode ser respondida com a precisão desejada. Nada há de mais imprevisível e surpreendente do que o sucesso de um livro que se vai lançar. É como o jôgo do bicho da anedota: joga-se na cobra e dá a cabra, joga-se na cabra e dá a cobra, joga-se na cobra e na cabra e dá o avestruz... Quando publiquei Juca Mulato, resolvi tirar apenas quinhentos exemplares, na certeza de que pelo menos quatrocentos ficariam em minhas estantes. Acabei vendendo sessenta mil! Quando tirei Kalum, o mistério do sertão, um romance fantástico para a grande massa, imaginei tiragens de dezenas de milhares de exemplares. Saíram apenas uns trezentos e restante jaz nas prateleiras da Livraria do Globo, que o editou. O homem e a morte, tragédia de difícil compreensão, que eu contava restringir-se a uma elite resumida, chegou à terceira edição...
- Daí, você deduz...
- Que o fator predominante no êxito de um livro é o acaso e que a gente não consegue compreender muito bem os caprichos do público. Não há uma lógica determinando o êxito de um livro. Quanto ao valor intrínseco da obra, não é a maior venda que o determina. Os livros, como os homens, têm um destino que a lógica da razão não explica: coisas mediocríssimas caem no goto do público, assim como inúmeros imbecis atingem fàcilmente a glória. A vida tem “uma lógica que a lógica desconhece”...
- Além de literato...
- Nasci, irremediàvelmente, escritor, apesar de ter sido fazendeiro, industrial, banqueiro, político, diretor de vários departamentos públicos e de várias emprêsas...
- Cinematografista, pintor, jornalista...
- Amanheci dentro do jornalismo, com o Mandu. Depois, dirigi A cidade de Itapira, A Tribuna, de Santos, A Gazeta, de São Paulo, e Anhanguera, também da Paulicéia, A Cigarra, a revista São Paulo, Nossa Revista...
- A União Jornalística Brasileira...
- É verdade. Você era meio birrento, como redator-chefe. Bons tempos aquêles, heim? Fui também, redator principal do Correio Paulistano...
- As impressões que você guarda do trabalho na imprensa?
- Por causa de artigos, briguei, várias vêzes, a pau. Fui “hóspede” de presídio político, por causa de jornais. Recebi condecorações, mercê de coisas que publiquei na imprensa... Como se vê, não é possível que a vida de jornal ainda possa oferecer-me surpresas, ou causar-me emoções. Estou por demais calejado na tarimba rude.
- Mas a impressão dominante?
- Jornal é cocaína: vicia. E é um vício trabalhoso, mas divertido. O jornalismo é a acrobacia delirante do talento. Se um articulista escreve mil tópicos bons, ninguém repara... Se o milésimo primeiro sair manquejando, o mínimo que lhe acontece é ser chamado de “burro”...
- “Burro”, no sentido pejorativo, porque afinal de contas, o burro verdadeiro é um animal inteligentíssimo, ponderado... Só os homens é que fazem “burradas”...
E o porco de Trilussa acabou compreendendo que só os homens fazem “porcarias”... O leitor de jornal é, sempre, um desmemoriado: exige tudo e nada quer dar; às vêzes, negaceia até os níqueis que custa a fôlha, pois a lê por empréstimo...
- Ainda não disse quais os autores que mais influíram em sua formação literária?
- Acha que isso poderia interessar a alguém?
- E você acredita que se eu pensasse o contrário iria lembrar?
- Bem. Foi o autor de meus dias, foi meu pai, quem primeiro cuidou de formar meus espírito e de cultivar minhas tendências para a literatura. Os grandes mestres do romance, para mim, continuam sendo Dostoiewsky, Tolstoi, Daudet. Quanto à poesia... A meu ver, o poeta não tem outro mestre, senão o próprio instinto, diante da natureza. Confesso que raras vêzes tenho tido lido um livro de poesias...
- Raras vêzes?
- Sim. É que logo me sinto caceteado...
- Dentre os autores nacionais, quais os que prefere?
- Gosto de fragmentos de uns e de trechos de outros. Raramente vou até à última página, quando leio um de nossos autores modernos. Num livro, quero um pouco mais que literatura e muito mais que reportagem. Está claro que reconheço em Machado de Assis e em José de Alencar dois romancistas de excepcional valor, cada um no seu gênero. E é evidente que vejo grandes mestres em Taunay (pai), em Raul Pompéia, e em Lima Barreto.
(...).
- Quando você estudou escultura? Quando começou a esculpir?
- À primeira pergunta, respondo negativamente. Com efeito, nunca estudei escultura, como nunca li um tratado de metrificação. Fui sempre intuitivo. Um dia, senti, nem sei por quê, que tinha nos dedos o segrêdo das formas.
- E nesse dia pôs as mãos no barro...
- É verdade. Foi quando o grande Cardeal Arcoverde foi a Pouso Alegre, a fim de sagrar dois bispos. Dom Nery incumbiu-me de preparar a ornamentação dos recreios do colégio. Eu tinha doze anos e uma curiosidade infinita. Tracei os planos: lanternas, um grande navio, que serviria de coreto, com canhões disparando tiros coloridos de pistolões pacíficos e fumarentos; arcos de triunfo... Veio de repente aquela idéia: e se levantasse um monumento ao Cardeal Arcoverde? Resolvi colocá-la em execução. Fiz que trouxessem o barro necessário e, com entusiasmo digno de melhor artista, moldei um busto enorme do príncipe da nossa Igreja. Coloquei-o num pedestal, pintei-o de verde, soprei purpurina sôbre a tinta fresca e o trabalho tomou um ilustre colorido de bronze!
- E ficou parecido?
- Escute o resto. Quando o cardeal viu aquilo, ficou assombrado... Não sei se pela monstruosidade da “coisa”, ou se pela audácia da emprêsa. “Quem fez isto?” E Dom Nery, orgulhoso: “Foi o Paulo”. Toca a procurar o Paulo...
- Paulo?
- Você não se recorda, então, de que é êsse o meu primeiro nome?
- É verdade!...
- Eu me escondera, envergonhado, pois só então pudera ter consciência do crime que acabava de cometer. mas Dom Arcoverde, que era a bondade em pessoa, ergueu o fedelho que eu era nos braços: “Você vai comigo para o Rio, menino!” E eu, embezerrado: “Mas, eu não largo Dom Nery por coisa nenhuma dêsse mundo!”
- Depois...
- Como você sabe, não foi êsse o meu único atentado. Quando tenho tempo, amasso barro. Não é essa uma das modalidades do sistema paulista de descansar carregando pedras?
(...).
- Tem algum livro em projeto?
- Todos os dias nasce e morre um no meu cérebro. Se pudesse escrevê-los com a mesma rapidez com que um relâmpago ziguezagueia aos nossos olhos!... Então, poderia produzir livros às toneladas!... Qual o livro que escreverei amanhã? Não sei. Se me propuser escrever um romance, é possível que saia um poema... Não cultivo o imprevisto, pelo gôsto da originalidade. O que se dá é bem diferente: entrego-me aos meus instintos. Estou convencido de que não criamos os personagens de nossas obras; são eles que criam, dentro de nós, as obras que escrevemos.
Faz uma pausa ligeira para acrescentar;
- O artista é um médium das coisas que querem se revelar, através de sua sensibilidade...
Olha-me, um tanto desconfiado. E recomenda:
- Mas, não vá agora dizer que sou espírita, hein!

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FONTE:
- Silveira Peixoto, José Benedito. Falam os Escritores – Vol. I – Org. Comissão de Literatura do Conselho Estadual de Cultura de São Paulo – Editora da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2ª Edição, São Paulo, 1971 – PP. 91/103;

SOBRE MENOTTI NO BLOG RETALHOS:

http://literalmeida.blogspot.com/2008/01/conferncia-de-menotti-durante-semana-de.html