quinta-feira, 24 de abril de 2008

MÁRIO DE ANDRADE - SERÁ O BENEDITO! - ILUSTRADO PELA EDITORA "COSAC NAIFY"

Será o Benedito!

Mário de Andrade (Ilustrado por Odilon Moraes)

Mais uma vez a Editora Cosac Naify surpreende:

Sexto volume da premiada coleção Dedinho de Prosa, a crônica Será o Benedito!, de Mário de Andrade, um dos mais importantes nomes do modernismo brasileiro, e ilustrada por Odilon Moraes, retrata o encontro entre o homem maduro e o jovem menino, trazendo à tona os temas da amizade e da pureza, numa leve prosa cotidiana. Durante as férias na Fazenda Larga, o narrador encontra Benedito, um negrinho obcecado por conhecer a cidade grande, que ouvia atento a narração do visitante sobre os arranha-céus, chauffers, cantores de rádio, o presidente da República... As belas ilustrações de Odilon Moraes traduzem a separação dos dois universos - cidade e campo -, construída ao longo do texto. Ao final da edição, um glossário explica os termos menos usuais, e textos auxiliam na localização e importância da crônica em nossa história literária.

Saiu na Imprensa

A INTERAÇÃO RACIAL VISTA POR MÁRIO

Publicada pela primeira vez no suplemento em rotogravura do Estado, na primeira quinzena de outubro de 1939, a crônica Será o Benedito! ganha uma nova versão ilustrada com aquarelas do artista Odilon Moraes. (...).
Publicado pela Cosac Naify dentro da coleção infanto-juvenil Dedinho de Prosa, Será o Benedito! é mais que o relato da amizade nascida entre um intelectual da cidade e um garoto negro, pobre e iletrado do meio rural paulista. É uma crônica social escrita em 1939, quando as teorias eugênicas de Galton, primo de Darwin, excitavam não só nazistas alemães como alguns representantes da elite financeira e intelectual brasileira, incluindo Monteiro Lobato.
Numa época em que governos europeus, como os de Berlusconi, voltam a discutir modelos de planejamento familiar que, obviamente, não incluem imigrantes, vistos como representantes de raças inferiores, é mais que oportuna a publicação dessa crônica anti-racista do criador de Macunaíma. Mário de Andrade chama Benedito de 'negrinho' o tempo todo, satirizando o costume colonialista de tratar os descendentes de africanos como seres sem nome ou identidade. No livro, esse intelectual do meio urbano, que vai passar férias numa fazenda paulista, assume as feições do próprio Mário, que possivelmente passou pela experiência de se ver refletido nesse Benedito esquelético e negro de 13 anos, colecionador de cartões-postais usados, recortes de jornais e fotografias de São Paulo e do Rio.
Ao contrário do médico altruísta do conto Campo Geral (do livro Corpo de Baile, de Guimarães Rosa), que salva um deslocado garoto da ignorância do meio rural e o leva para a cidade, o intelectual de Será o Benedito! é corroído pelo remorso. Negando-se a atender ao pedido do 'negrinho', que implora para o acompanhar em sua viagem de volta à metrópole, o intelectual convence o garoto magrinho a ficar no campo, usando o argumento da tuberculose que se espalha pelos centros urbanos. Benedito pensa, pensa e murmura baixinho: “Morrer não quero, não sinhô... Eu fico”. Fica e morre de um coice de burro bravo, metáfora violenta para dizer que ele não morreu de tuberculose, mas da brutalidade do meio rural, arcaico, pré-moral.
Benedito quer ser chofer de táxi ou cantor de rádio. Sonha com arranha-céus e acorda com os pés no barro, mostrando os dentes “escandalosos, grandes e perfeitos” ao sorrir da ignorância do homem da cidade, que não sabe nem prender a rédea do cavalo no mangueirão da fazenda. A “presteza serelepe” com que Benedito dá um laço e sorri para o intelectual, irônico e superior, dá conta de um desejo incontrolável de mostrar que não é um ser imprestável, arruinado pela ignorância, mas dono de uma sabedoria ancestral que rivaliza com a erudição desse homem.
O ilustrador Odilon Moraes poderia ter carregado nas tintas ou fazer uma simples ilustração dessa bela história de reconhecimento mútuo entre adulto e criança. Mas tratou com sutileza essa crônica, que faz o elogio do transculturalismo muito antes desse palavrão virar moda. O ilustrador faz o que os americanos chamam de “picture book”, forma popular de classificar livros destinados a crianças em que o desenhista desempenha o papel de “tradutor” da obra escrita. Como, no caso de Mário de Andrade, Será o Benedito! dá margem a múltiplas leituras - crônica sobre a amizade ou parábola anti-racista -, Odilon teve de optar por uma imagem-síntese que definisse cada um dos estágios da relação de Benedito com o homem da cidade.
A primeira é a da capa. Nela, Mário de Andrade é visto com um livro, olhando através da janela do trem a paisagem rural que passa ao longe, distante do mundo erudito que carrega nas mãos. A imagem da página seguinte traz uma cerca vazia, anunciando a ausência do principal personagem, o “negrinho” deslocado e destinado a morrer sem conhecer a cultura e a grande cidade. Uma coincidência espantosa aconteceu quando Odilon estava desenhando a cerca de onde Benedito costuma observar o homem da cidade, sempre sentado e lendo numa poltrona da varanda da casa-grande: sem nunca ter visto a fotografia original que ilustra o texto de Mário de Andrade do suplemento do Estadão, em 1939, o arquiteto e ilustrador reproduziu a mesma figura e na mesma posição do garoto originalmente escolhido como modelo de Benedito.
Convencido de que “toda obra que nasce de uma outra é também um comentário sobre a primeira”, Odilon diz que a sua é um interpretação pessoal dessa história em que dois seres, à medida que se aproximam pela camaradagem, se afastam pelo conhecimento. Lendo um texto de Vilém Flusser, em que o ensaísta fala do confronto entre natureza e cultura, o ilustrador teve a idéia de conservar a figura de Mário sempre à sombra. “Ele vê o mundo sempre do lado de dentro, seja da casa-grande ou da janela de um trem”, diz, revelando que a linguagem que buscou para homenagear o escritor modernista não foi a da vanguarda artística da Semana de 1922, mas a de Almeida Jr., um pioneiro no retrato do universo caipira.

(Antonio Gonçalves Filho - Caderno 2 - O Estado de S. Paulo, em 17/4/2008)
FONTE: