terça-feira, 22 de janeiro de 2008

UM TOSTÃO DE "MANUEL BANDEIRA"

CRONOLOGIA BIOGRÁFICA E ARTÍSTICA

1886 – 19 de Abril nasce Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho, em Recife – Pernambuco, na Rua da Ventura, atual Joaquim Nabuco, filho do engenheiro civil Manuel Carneiro de Souza Bandeira, e Francelina Ribeiro de Souza Bandeira;
1890 - A família se transfere para o Rio de Janeiro e a seguir para Santos - SP e, novamente, para o Rio de Janeiro. Passa dois verões em Petrópolis;
1892 - A família volta para Pernambuco. Manuel Bandeira freqüenta o colégio das irmãs Barros Barreto, na Rua da Soledade, e, como semi-interno, o de Virgínio Marques Carneiro Leão, na Rua da Matriz;
1896 – A família muda-se para o Rio de Janeiro, na Travessa Piauí, depois na Rua Senador Furtado, depois em Laranjeiras;
1897 – Estuda no Externato do Ginásio Nacional, hoje Colégio Pedro II. Tem como professores Silva Ramos, Carlos França, José Veríssimo e João Ribeiro. Entre seus colegas estão Sousa da Silveira e Antenor Nascentes;
1902 – Forma-se em Bacharel em Letras;
1903 - A família se muda para São Paulo onde Bandeira se matricula na Escola Politécnica, pretendendo tornar-se arquiteto. Estuda também, à noite, desenho e pintura com o arquiteto Domenico Rossi no Liceu de Artes e Ofícios. Começa ainda a trabalhar nos escritórios da Estrada de Ferro Sorocabana, da qual seu pai era funcionário;
1904 – Abandona os estudos por motivo de doença. Fez estações de cura da tuberculose em Campanha, MG, Teresópolis e Petrópolis, RJ;
1910 - Entra em um concurso de poesia da Academia Brasileira de Letras, que não confere o prêmio. Lê Charles de Guérin e toma conhecimento das rimas toantes que empregaria em Carnaval;
1912 - Sob a influência de Apollinaire, Charles Cros e Mac-Fionna Leod, escreve seus primeiros versos livres;
1913 – Viaja para Clavadel – Suíça, para tratamento. Em Clavadel teve como companheiro de sanatório o poeta Paul Eluard. Sua vida poderia ter sido breve, face às lesões que tinha nos pulmões;
1914 - Em virtude da eclosão da Primeira Guerra Mundial, volta ao Brasil em outubro. Lê Goethe, Lenau e Heine (no sanatório reaprendera o alemão que havia estudado no ginásio). No Rio de Janeiro, reside na rua (hoje Avenida) Nossa Senhora de Copacabana e na Rua Goulart, no Leme;
1916 - Falece sua mãe, Francelina;
1917 - Publica seu primeiro livro: A cinza das horas, numa edição de 200 exemplares custeada pelo autor (300 mil-réis), impresso nas oficinas do Jornal do Comércio. João Ribeiro escreve um artigo elogioso sobre o livro. Por causa de um hiato num verso do poeta mineiro Mário Mendes Campos, Manuel Bandeira desenvolve com o crítico Machado Sobrinho uma polêmica nas páginas do Correio de Minas, de Juiz de Fora;
1918 - O autor perde a irmã, Maria Cândida de Souza Bandeira, que desde o início da doença do irmão, havia sido uma dedicada enfermeira;
1919 - Publica seu segundo livro, Carnaval, em edição custeada pelo autor. João Ribeiro elogia também este livro que desperta entusiasmo entre os paulistas iniciadores do modernismo;
1920 - O pai de Bandeira, Manuel Carneiro, falece. O poeta se muda da Rua do Triunfo, em Paula Matos, para a Rua Curvelo, 53 (hoje Dias de Barros), tornando-se vizinho de Ribeiro Couto;
1921 - Numa reunião na casa de Ronald de Carvalho, em Copacabana, conhece Mário de Andrade. Estavam presentes, entre outros, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Oswaldo Orico;
1922Troca correspondências com Mário de Andrade. Bandeira não participa da Semana de arte Moderna, realizada em fevereiro em são Paulo, no Teatro Municipal. Na ocasião, porém, Ronald de Carvalho lê o poema "Os Sapos", de Carnaval. Meses depois Bandeira vai a São Paulo e conhece Paulo Prado, Couto de Barros, Tácito de Almeida, Menotti Del Picchia, Luís Aranha, Rubens Borba de Morais, Yan de Almeida Prado. No Rio de Janeiro, passa a conviver com Jaime Ovalle, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Prudente de Morais, neto, Dante Milano. Colabora em Klaxon. Ainda nesse ano morre seu irmão, Antônio Ribeiro de Souza Bandeira;
1924 - Publica, às suas expensas, Poesias, que reúne A Cinza das Horas, Carnaval e um novo livro, O Ritmo Dissoluto;
1925 - Colabora no "Mês Modernista", série de trabalhos de modernistas publicado pelo jornal A Noite. Escreve crítica musical para a revista A Idéia Ilustrada. Escreve também sobre música para Ariel, de São Paulo;
1926 - A serviço de uma empresa jornalística, viaja para Pouso Alto, Minas Gerais, onde na casa de Ribeiro Couto conhece Carlos Drummond de Andrade. Viaja a Salvador, Recife, Paraíba (atual João Pessoa), Fortaleza, São Luís e Belém;
1927 – Vai a Belo Horizonte, passando pelas cidades históricas de Minas Gerais, e a São Paulo. Viaja a Recife, como fiscal de bancas examinadoras de preparatórios. Inicia uma colaboração semanal de crônicas no Diário Nacional, de São Paulo, e em A Província, de Recife, dirigido por Gilberto Freyre. Colabora na Revista de Antropofagia;
1928 – Viaja para Recife como fiscal de bancas examinadoras de preparatórios. Começa escrever crônicas semanais par o Diário Nacional, de São Paulo;
1930 - Publica Libertinagem, em edição de 500 exemplares, como sempre custeada pelo autor. Escreve crítica de cinema para o Diário da Noite, do Rio de Janeiro, e crônicas semanais para A Província, do Recife;
1933 - Muda-se, da Rua do Curvelo para a Rua Morais e Vale, na Lapa;
1935 - É nomeado pelo Ministro Gustavo Capanema, inspetor de ensino secundário;
1936 - Grandes comemorações marcam os cinqüenta anos do poeta, entre as quais a publicação de Homenagem a Manuel Bandeira, livro com poemas, estudos críticos e comentários, de autoria dos principais escritores brasileiros. Publica Estrela da Manhã (com papel presenteado por Luís Camilo de Oliveira Neto e contribuição de subscritores) e Crônicas da Província do Brasil;
1937 - Recebe o prêmio da Sociedade Filipe de Oliveira por conjunto de obra, e publica Poesias Escolhidas e Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica;
1938 - É nomeado professor de literatura do Colégio Pedro II e membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Publica Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana e Guia de Ouro Preto; Passa a ser membro do Conselho Consultivo do Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
1940 - É eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga de Luís Guimarães Filho. Toma posse em 30 de novembro, sendo saudado por Ribeiro Couto. Publica Poesias Completas, com a inclusão da Lira dos Cinqüent'Anos (também esta edição foi custeada pelo autor). Publica ainda Noções de História das Literaturas e, em separata da Revista do Brasil, A Autoria das Cartas Chilenas;
1941 - Começa a fazer crítica de artes plásticas em A Manhã, no Rio de Janeiro;
1942 - É nomeado membro da Sociedade Filipe de Oliveira. Muda-se para o Edifício Maximus, na Praia do Flamengo. Organiza a edição dos Sonetos Completos e Poemas Escolhidos de Antero de Quental;
1943 – É nomeado professor de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia;
1944 - Deixa o Colégio Pedro II. Muda-se para o Edifício São Miguel, na Avenida Beira-Mar, apartamento 409. Publica Obras Poéticas de Gonçalves Dias, edição crítica e comentada;
1945 - Publica Poemas Traduzidos, com ilustrações de Guignard;
1946 - Recebe o prêmio de poesia do IBEC por conjunto de obra. Publica Apresentação da Poesia Brasileira e Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos;
1948 - São reeditados três de seus livros: Poesias Completas, com acréscimo de Belo Belo; Poesias Escolhidas e Poemas Traduzidos. Publica Mafuá do Malungo (impresso em Barcelona por João Cabral de Melo Neto) e organiza uma edição crítica das Rimas de João Albano;
1949 - Publica Literatura Hispano-Americana e traduz O Auto Sacramental do Divino Narciso de Sóror Juana Inés de la Cruz;
1950 - A pedido de amigos, apenas para compor a chapa, candidata-se a deputado pelo Partido Socialista Brasileiro, sabendo que não tem quaisquer chances de eleger-se;
1951 - Publica Opus 10 e a biografia de Gonçalves Dias. É operado de cálculos no ureter;
1953 - Muda-se para o apartamento 806 do mesmo edifício da Avenida Beira-Mar;
1954 - Publica Itinerário de Pasárgada e De Poetas e de Poesia. Faz conferência no Teatro Municipal do Rio de Janeiro sobre Mário de Andrade;
1955 - Publica 50 Poemas Escolhidos pelo Autor. Traduz Maria Stuart, de Schiler, encenado no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em junho, inicia colaboração como cronista no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, e na Folha da Manhã, de São Paulo. Faz conferência sobre Francisco Mignone no Teatro Municipal do Rio de Janeiro;
1956 - Traduz Macbeth, de Shakespeare, e La Machine Infernale, de Jean Cocteau. É aposentado compulsoriamente, por motivos da idade, como professor de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia;
1957 - Traduz as peças June and the Paycock, de Sean O'Casey, e The Rainmaker, de N. Richard Nash. Publica Flauta de Papel. Em julho visita para a Europa, visitando Londres, Paris, e algumas cidades da Holanda. Retorna ao Brasil em novembro. Começa a escreve crônicas bissemanais para o Jornal do Brasil e a Folha de São Paulo;
1958 - Publica Gonçalves Dias, na coleção "Nossos Clássicos" da Editora Agir. Traduz a peça Colóquio-Sinfonieta, de Jean Tardieu. Publicada pela Aguilar, sai em dois volumes sua obra completa -- Poesia e Prosa;
1959 - Traduz The Matchmaker (A Casamenteira), de Thorton Wilder. A Sociedade dos Cem Bibliófilos publica Pasárgada, volume de poemas escolhidos, com ilustrações de Aldemir Martins;
1960 - Traduz o drama D. Juan Tenório, de Zorrilla. Pela Editora Dinamene, da Bahia, saem em edição artesanal Estrela da Tarde e uma seleção de poemas de amor intitulada Alumbramentos. Sai na França, pela Pierre Seghers, Poèmes, antologia de poemas de Manuel Bandeira em tradução de Luís Aníbal Falcão, F. H. Blank-Simon e do próprio autor;
1961 - Traduz Mireille, de Fréderic Mistral. Começa a escrever crônicas semanais para o programa "Quadrante" da Rádio Ministério da Educação;
1962 - Traduz o poema Prometeu e Epimeteu de Carl Spitteler;
1963 - Escreve para a Editora El Ateneo, biografias de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Castro Alves. A Editora das Américas edita Poesia e Vida de Gonçalves Dias. Traduz a peça Der Kaukasische Kreide Kreis, de Bertold Brecht. Escreve crônicas para o programa "Vozes da Cidade" da Rádio Roquette-Pinto, algumas das quais lidas por ele próprio, com o título "Grandes Poetas do Brasil";
1964 - Traduz as peças O Advogado do Diabo, de Morris West, e Pena Ela Ser o Que É, de John Ford. Sai nos EUA, pela Charles Frank Publications, A Brief History of Brazilian Literature (tradução, introdução e notas de R. E. Dimmick);
1965 - Traduz as peças Os Verdes Campos do Eden, de Antonio Gala. A Fogueira Feliz, de J. N.Descalzo, e Edith Stein na Câmara de Gás de Frei Gabriel Cacho. Sai na França, pela Pierre Seghers, na coleção "Poètes d'Aujourd'hui", o volume Manuel Bandeira, com estudo, seleção de textos, tradução e bibliografia por Michel Simon;
1966 - Comemora 80 anos, recebendo muitas homenagens. A Editora José Olympio realiza em sua sede uma festa de que participam mais de mil pessoas e lança os volumes Estrela da Vida Inteira (poesias completas e traduções de poesia) e Andorinha Andorinha (seleção de textos em prosa, organizada por Carlos Drummond de Andrade). Compra uma casa em Teresópolis, a única de sua propriedade ao longo de toda sua vida;
1967 - Com problemas de saúde, Manuel Bandeira deixa seu apartamento da Avenida Beira-Mar e se transfere para o apartamento da Rua Aires Saldanha, em Copacabana, de Maria de Lourdes Heitor de Souza, sua companheira dos últimos anos;
1968 - Dia 13 de outubro, às 12 horas e 50 minutos, morre o poeta Manuel Bandeira, no Hospital Samaritano, em Botafogo, sendo sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras, no Cemitério São João Batista.
UMA FOTO RARA

Manuel Bandeira, Chico Buarque de Holanda, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, num encontro.
- Foto Suplemento “Mais!” da Folha de S.Paulo – de 09/01/1994 –
Pág. 5 – Matéria Chico Buarque volta ao samba e comemora 30 anos de carreira. Foto sem data.

ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE BANDEIRA

De Gilda Salem Szklo: "Tanto Bandeira como Drummond transitam entre o viver cotidiano e as coisas inefáveis. Há em suas crônicas, diríamos, uma dedicação integral à poesia. Da poesia à crônica, os limites são tênues para um e para outro. (...) Memória e lirismo convivem em seus textos em prosa. São narrativas de estruturas simples, com uma linguagem coloquial; primam pela leveza, pela argúcia e pela graça na análise do cotidiano. (...) Pelo Rio de outro tempo se movimenta o cronista-poeta Bandeira, emocionado de rever os lugares amados, absorto no mundo interior, sonhando com 'estrelas da manhã', com outros mundos longe deste, os espaços ideais da Pasárgada na cidade que está crescendo e perdendo seu jeito provinciano e humano de ser."
(Szklo, Gilda Salem. Drummond e Bandeira, os cronistas-poetas – In: Beatriz Rezende – Cronistas do Rio).

De Mário Quintana: “Quando Manuel Bandeira faleceu, em 1968, me lembro que eu tive a impressão de ter havido um terremoto. Pois há criaturas, como Manuel Bandeira, com quem não precisamos ter convívio cotidiano ou conhecimento pessoal, mas que, mesmo à distância, nos faz um grande bem sabermos que estão vivas, respirando conosco, para não nos sentirmos sós, para não desesperarmos deste mundo.
É que, um dia, com a sua poesia ou a sua bondade – não serão a mesma coisa? – fizeram cantar em nós alguma fonte oculta... Enfim, souberam expressar-nos e, portanto desoprimir-nos. Porque um grande poeta, não é o leitor que o descobre, mas é ele quem descobre o leitor.
Assim, enquanto ele vive e o mundo nos aflige com os seus problemas ou nos afligimos com os nossos, logo pensamos: “Ah! O poeta está sentindo isso”, ou “o poeta sentiria isso...”. Em suma, o poeta é o que se sabe ver. Esta, a comunhão que temos com os poetas vivos. Por isso, quando um grande poeta morre, sente-se esta súbita parada no coração do mundo. E, em cada um de nós, aquela sensação de terremoto de que já falei. Não há nada de ser nada: o mundo continua.
E Manuel Bandeira continuará, com o perdão do lugar-comum. Mas a gente é tão sensorial (Ah! não fôssemos poetas...) e eu não me conformo de jamais ouvir aquelas suas risadas em gluglu provocadas por suas próprias anedotas e nunca mais sentir aquele seu sorriso de anjo dentuço, ao me escutar. E dizer-se que toda essa saudosa irreverência é para evitar a solenidade, que ele tanto abominava....
Uma coisa, porém, afirmo: sempre considerei uma bênção do destino ter sido contemporâneo e merecido a amizade de Manuel Bandeira. E também, de Cecília Meireles, a quem nós dois queríamos tanto”.
(Quintana, Mário. Poeta.)

De Stefan Baciu: "Por seu conteúdo, por sua essência e seu estilo as crônicas de Manuel Bandeira representam, no conjunto de sua obra, um amplo terreno, capaz de mostrar ao crítico e ao leitor o desenvolvimento da vida brasileira em quatro décadas. Mesmo não sendo jornalista ("não nasci para jornalista"), foi um observador atento e lúcido dos fenômenos de uma época em que se desenvolveram tantos fatos notáveis para a história da Humanidade. De uma multiplicidade que escapa à leitura avulsa, dia a dia, no jornal, essas crônicas oferecem-nos uma síntese dos mais variados aspectos da vida brasileira, passando, com graça excepcional, do assunto pessoal, diário, quase íntimo, ao fait divers, à anotação crítica ou à pequena reportagem de tipo social e artístico."
(Baciu, Stefan. (1966). O Cronista. In: Manuel Bandeira de Corpo Inteiro.)

De Paulo Leminski: “Os poetas valem pelo que nos ensinam. Com Bandeira, aprendi aos 15 anos que poesia e humor não são incompatíveis. Hoje, acho que são, no fundo, a mesma coisa.
Outra coisa que aprendi com Bandeira foi o extraordinário domínio de formas, de um poeta que ia do soneto ao verso livre no tempo que a gente leva para dizer Manuel Bandeira.
Por fim, sempre admirei a capacidade que Bandeira tinha de extrair poesia das coisas mais insignificantes. Como disse Haroldo de Campos, Bandeira era um desconstelizador. Ele sabia transformar merda em ouro. Isso é alquimia. Isso é poesia. Isso para mim é Manuel Bandeira”.
(Leminski, Paulo. Poeta.)

De Antonio Carlos Villaça: "Suas crônicas são instantes de perfeição literária, pelo tom íntimo, coloquial, pela inteligência aguda, pelo poder de num traço fixar a vida fugaz, pela penetrante compreensão dos homens e dos fatos. Foi um admirável comentador da vida. Sabia retratar um homem, resumir um livro, uma conferência, uma cena, comentar um acontecimento político, ou social, contar uma anedota. Tudo com simplicidade total, despretensão, modéstia, poesia e astúcia".
(Villaça, Antonio Carlos. Estudo Crítico. In: Prosa: Manuel Bandeira).

De Antonio Candido: “A poesia de Manuel Bandeira caracteriza-se pela amplitude do âmbito, testemunhando uma variedade criadora que vem do Parnasianismo crepuscular até às experiências concretistas, do soneto às formas mais audazes de expressão. Doutro lado, conservou e adaptou ao espírito moderno os ritmos e formas mais regulares, de tal maneira que nenhum outro contemporâneo revela tão acentuadamente – mas ao mesmo tempo com tanta liberdade – a herança do mais puro lirismo português, transfundido na mais autêntica pesquisa da nossa sensibilidade. Sob esse aspecto, a sua obra lembra a de Gonçalves Dias.
Em toda ela, com timbre inconfundível, corre a nota da ternura ardente e da paixão pela vida, que vem desde os versos da mocidade até os de hoje, como força humanizadora. Graças a isso, a confidência e a notação exterior se unem numa expressão poética ao mesmo tempo familiar e requintada, pitoresca e essencial, unificando o que há de melhor no lirismo intimista e no registro do espetáculo da vida. Daí uma simplicidade que em muitos modernistas parece afetada, e que nele é a própria marca da inspiração”.
(Candido, Antonio. In: Considerações Gerais – Literatura II – Objetivo – pág. 58).

De Davi Arrigucci Jr: "A poesia de Bandeira (...) tem início no momento em que sua vida, mal saída da adolescência, se quebra pela manifestação da tuberculose, doença então fatal. O rapaz que só fazia versos por divertimento ou brincadeira, de repente, diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e tédio, começa a fazê-los por necessidade, por fatalidade, em resposta à circunstância terrível e inevitável. O Itinerário de Pasárgada é o relato, também na forma do discurso humilde, dessa experiência poética dentro da moldura inarredável de sua condição trágica. Ironicamente, a morte não vem; o poeta viverá oitenta e dois anos, e sua existência marcada estará obrigada ao convívio cotidiano com a ameaça fatal: o 'mau destino', que se faz uma imagem sempre presente desde a 'epígrafe' de A Cinza das Horas, em 1917. A existência esvaziada pela doença é, por assim dizer, preenchida pela poesia, capaz de transformar a sensação de perda numa forma de resgate de tudo, como se lê na 'Canção do Vento e da Minha Vida'. Mas a idéia de morte, posta no horizonte de expectativa de cada dia, se transforma ela própria também, como tema poético de uma obrigada convivência diária, despindo-se de toda grandeza solene, como um risco que se fizesse, entre outros, um elemento do cotidiano, matéria principal, de onde o poeta maduro irá extrair sua poesia".
(Arrigucci Jr, Davi – Humildade, paixão e morte: a poesia de Manuel Bandeira – Davi é considerado um dos melhores críticos da obra de Manuel Bandeira).

De Carlos Drummond de Andrade: "Livre entre os mais livres, inquietante na largueza e nos seus ritmos e na amargura do seu pensamento, é o sr. Manuel Bandeira, o primeiro em ordem cronológica dos nossos modernos poetas, pois que o seu Carnaval é a publicação anterior a toda nossa agitação literária. Nele a tortura interior, surgindo face do público, tornou-se vulgar. Dir-se-ia que a sua face faz caretas de dor. Isso não impede de manejar as cordas da sátira e ser impiedoso para com os sapos do parnasianismo."

FRAGMENTOS DE CARTAS: MANUEL E MÁRIO

Trecho de carta de Mário a Bandeira: “Creio nas afinidades eletivas. Sou teu irmão desde uma nunca esquecida tarde de domingo, em que num táxi o Guilherme disse-me do aparecimento do ‘Carnaval’ e recitou de cor alguns versos esparsos de tua obra. No dia seguinte procurei o livro. Quando, para ler a ‘Paulicéia’ na casa do Ronald, exigi dos amigos tua presença, não foi porque tivesse a curiosidade de te conhecer fisicamente. Foi para um reconhecimento. Emprego a palavra com a sutileza dos poetas japoneses no seus haicais. Com todas as significações e associações que ela desperta. E daí em diante esse reconhecimento não cessou de aumentar, florir, frutificar. Hoje és, e não te ofenderás com a metáfora, és uma propriedade minha”.
Mário de Andrade – 22 de maio de 1923.

Trecho de carta de Bandeira a Mário:
“Antes de entregar os meus versos à tipografia, mandei-os a você, pedindo-lhe que os criticasse: o meu desejo era que você fizesse com eles o que eu, a seu pedido, faço com os seus: uma espinafração isenta de qualquer medo de magoar ou melindrar – crítica de sala de jantar de família carioca, de pijama e chinelo sem meia. Você tirou o corpo fora e limitou-se a aconselhar a supressão de um soneto. Se você tivesse me dado outros conselhos, o meu livro sairia mais magro porém certamente mais belo”.
Manuel Bandeira – 27 de dezembro de 1924.

Trecho de carta de Mário a Bandeira: “A sinceridade sem vergonha que o modernismo às vezes usou é um erro. Daí aquela minha dúvida expressa no prefácio do ‘Losango cáqui’, se temos o direito de chamar de poemas aos nossos movimentos líricos. Eu também me entusiasmei pela sinceridade sincera na arte. A ‘Escrava’ que é de princípios de 1922 dia isso. Hoje eu me entusiasmo mais pela sinceridade artística que por ser artística não deixará de ser psicológica, e real. A história é que versos agente faz pro outros lerem”.
Mário de Andrade – 29 de dezembro de 1924.

Trecho de carta de Bandeira a Mário:
“Macunaíma chegou e eu gostei dele. Eu estava de pé atrás com o herói. Você deve ter notado que quando você me falava dele eu não mostrava lá muito entusiasmo. me parecia que você estava preparando uma bruta caceteação em cima da gente. Me explico: você me dizia que era uma história escrita sobre lendas do Amazonas. Ora quase todas essas lendas me aporrinham, é um defeito meu, eu luto para me emendar mas qual. Bem entendido ano são todas que me aporrinham: são principalmente as que explicam a origem das coisas. Porque é que cai orvalho de manhãzinha, - e lá vem uma historiada comprida com uns nomes filhos da puta pelo meio. Sei da importância enorme de tudo isso, mas quê que hei de fazer, como dizia Macunaíma, me aporrinha. Agora as sacanagens, as histórias de bicho, etc., isso é comigo. Comecei a ler e a gostar”.
Manuel Bandeira – 31 de outubro de 1927.

O SORRISO INTROSPECTIVO
DE BANDEIRA
Um Sorriso

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moutas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse ágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

Poema típico para inúmeras análises e concepções.
Um Sorriso: Provavelmente escrito em 1912. Faz parte dos últimos poemas do A Cinza das Horas, que inicia com o poema Epígrafe, escrito em 1917.
Ao analisarmos uma obra literária, não podemos, de forma alguma, caso isso não seja feito é pura perda de tempo, preferível ler um gibi do Homem Aranha ou de outro herói (efêmero, com certeza); deixar, antes de tudo, estudar e conhecer a vida do escritor, do seu dia-a-dia nas mais profundas anotações ou notificações pertinentes. Existem alguns escritores que esse procedimento não funciona. Bandeira, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Oswald de Andrade, Pagu, não podemos deixar de conhecê-los intimamente. Somente após esse "conhecimento" é que poderemos dissertar sobre seus textos. Na pintura, esse procedimento é mais abrangente e também inevitável, casos específicos dos modernistas: Anita Malfatti, Guignard, Di e Segall. Brecheret e Tarsila, nem tanto.
O poema “Um Sorriso” é um dos do livro A Cinza das Horas, editado pelo próprio Bandeira em 1917. Esse foi o seu primeiro livro cujos poemas trazem traços parnasianos e simbolistas. Então, ao analisarmos um poema do Bandeira, mesmo que seja uma simples palavra ou frase pinçadas de um texto qualquer, temos que verificar primeiramente a data que o poema (ou texto) foi escrito, e principalmente, como estava a vida e o cotidiano do poeta. Sendo assim, podemos iniciar uma pesquisa para “traduzir” Um Sorriso, partindo de alguns tópicos especiais e necessários.
Vejamos:- Segundo a biografia do Bandeira, em 1917, ano que editou o A Cinza das Horas, ele estava no Rio de Janeiro e lecionava na Faculdade Nacional de Filosofia;
- Nessa época, Bandeira vivia angustiado, solitário e macambúzio por causa da tuberculose. Não podemos esquecer que a manifestação dessa doença, naquela época, inevitavelmente era a morte. Ele, portanto, vivia cotidianamente com sentimentos de temor, desânimo e vazio interior. Ele preenchia todo seu tempo escrevendo. Era um meio de desabafo, de espantar o medo da morte, de esquecer a descrença e a solidão. Ele utilizou a escrita para deixar cravado todos esses sentimentos negativos provocados pela não aceitação imediata do seu estado de saúde. Sem muito analisar, cravava no papel palavras extremamente amargas, chorosas e de desalentos que medravam do seu íntimo, dos seus sentimentos e da mente conturbada e preocupada. A doença tornou Bandeira uma pessoa frustrada. Então, nos momentos de ócio da doença, o lápis deslizava brutalmente sobre as folhas de papel, demonstrando em versos a constante perspectiva do sofrimento contínuo e da morte. Isso ficou evidente no próprio depoimento de Bandeira: “Eu não tinha intenção de iniciar carreira literária quando publiquei o A Cinza das Horas. Desejava apenas dar-me a ilusão de não viver inteiramente ocioso”. Desse depoimento tiramos uma conclusão óbvia: Bandeira, quando não estava escrevendo estava sofrendo, se martirizando pelo fato de estar doente;
- O livro A Cinza das Horas é considerado um livro que transcende um tom fúnebre. Como mencionado, esse livro é puramente parnasiano e simbolista. O estilo Parnasiano tinha algumas características particulares: A descrição era obrigatoriamente pormenorizada e repleta de detalhes – (muitos sem importância para o texto e para o contexto); era exigência o emprego de palavras raras, aquelas incomuns no vocabulário popular ou do cotidiano; preferencialmente, ou melhor, obrigatoriamente, utilizava-se de rimas ricas ou preciosas, desprezando completamente a rima pobre (Rimas Ricas: quando rimam palavras de classe gramática diferente. Rimas Preciosas: quando rimam uma palavra e uma combinação de palavras, como “estrela/vê-la”. Rimas Pobres: quando rimam palavras da mesma classe gramatical); a constante busca pelos temas exóticos ou históricos; visão mais carnal que espiritual do amor (a poesia amorosa dos parnasianos está mais próxima do relacionamento humano comum). Não serve como exemplo explícito dessa característica parnasiana, mas no A Cinza das Horas, dois poemas nos aproximam, mesmo que sorrateiramente – são eles: Poemeto Irônico e Poemeto Erótico; e um exagerado interesse pelo Universalismo, ou seja, preferência pelos assuntos universais, em vez do individualismo que revela o estado de espírito das pessoas e os procedimentos mais íntimos. (Apesar de que os parnasianos brasileiros não seguiram à risca essas convenções, preferindo a não universalização e sim assuntos nacionais, tais como: paisagens específicas do Brasil e fatos de nossa história);
- Bandeira sempre tomou como tema para seus poemas os fatos corriqueiros do dia-a-dia. Utilizou-se também de temas tradicionais, mas sempre os recriava e os reinventava. Usou de ironia, de sarcasmo e humor quando poetizou a morte, a doença, a dor, a solidão, o medo e a falta de uma mulher para amar. (Não podemos deixar de lembrar que a grande paixão de Bandeira foi uma holandesa de nome Fredy Blank, que ele a chamava de Madame Blank. Ele a conheceu na juventude, antes de ir para Clavadel. Era culta e sensível, que já tinha duas filhas. Essa paixão se estendeu por mais de 40 anos e terminou na velhice, quando Madame Blank, doente, voltou para a Holanda, pois o velho poeta não podia cuidar dela). Bandeira nunca foi muito religioso ou espiritualista, como sempre dizia. Apesar disso, nunca se despojou de um rico potencial de religiosidade. Apesar de pertencer a uma família religiosa, sempre foi um católico relaxado, mas mantinha suas devoções e guardava com carinho crucifixos e imagens de santos, especialmente as que lhe davam prazer estético na contemplação;
- Na análise do livro A Cinza das Horas, precisamos lembrar sempre do depoimento do próprio Bandeira a respeito dos poemas contidos nesse livro: “Nada tenho a dizer desses versos, senão que ainda me parecem hoje, como me pareciam então, não transcender a minha experiência pessoal, como se fossem simples queixumes de um doente desenganado, coisa que pode ser comovente no plano humano, mas não no plano artístico (...)” – (in: Itinerário de Pasárgada). O escritor Fábio Lucas, no artigo: Manuel Bandeira, Poeta Menor? (in: Manuel Bandeira: Verso e Reverso – 1ª Edição - Editora T. A. Queiroz, Editor – SP – 1987 – Org. por Telê Porto Ancona Lopez – pág. 4), afirma: “(...) Bandeira dificilmente sai do campo de suas dores e de seu mundo interior, (...)”. A afirmativa desse escritor praticamente traduz o depoimento de Bandeira e reafirma o já mencionado neste texto sobre a constante preocupação do poeta com o seu eu interior e doentio.
E, para concluir sobre o A Cinza das Horas, antes de efetuar a releitura do poema Um Sorriso, é saber que o livro contém cinqüenta poemas, introduzidos pela “Epígrafe”, poema que praticamente conduz a temática dos outros 49 poemas, onde está implicado a “felicidade do passado” e a “melancolia” e a “frustração”, pertinentes na vida do poeta, mais enfaticamente no período de 1904 a 1935, quando ele começou a desprezar o seu próprio medo da morte.Agora, vamos tentar fazer uma releitura do "Um Sorriso":

Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol-posto.
A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...
Depois o céu... e mar e céus azuis: Dir-se-ia
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos...
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...

Bandeira inicia o poema com tom melancólico. O período entre o pôr do sol e a chegada da noite, naturalmente é um período sombrio. É um espaço temporário onde a natureza trava uma batalha incógnita: é a luz do sol que se permite esmaecer ou é a escuridão que se apropria do espaço ofuscando a claridade? Bandeira utiliza-se de simbolismo na primeira afirmação quando emprega o verbo “cair”. O entardecer não “cai” como implica o significado literal do verbo “cair” = ir ao chão, ir de cima para baixo, tombar. Ele usa como sinonímia de “baixar”. O “cair” da tarde (entardecer) é um período que tem significado melancólico, pois é um curto espaço de tempo em que, o sumiço da luz - (Luz tem figuração de Vida), opõe-se ao da chegada da noite, da escuridão – (Escuridão tem figuração de ausência de Vida). Para um indivíduo mórbido, esse período é de extrema tristeza, de abatimento físico e mental. Quem teme a morte ou quem está constantemente preocupado se vai morrer a qualquer momento, como era o caso de Bandeira em decorrência da tuberculose, o entardecer é realmente tenebroso e assustador. Na continuação ele afirma: “A umidade aveludava o musgo”. Musgo são plantas que crescem em lugares sombrios, normalmente entre as pedras, onde há pouca incidência de luz solar. Implica aqui mais um termo que Bandeira expressa sua melancolia, aliás, dois termos: umidade e musgo. Antes disso o poeta utiliza-se de outros dois termos similares: “A sombra já enoitava as moitas”. “Sombra” é ausência de luz, obscuridade. “Enoitava” é anoitecer, que é o período em que a luz se esmaece. É um verbo puramente de característica do parnasianismo: “a utilização de palavras incomuns do cotidiano”, como é o caso também do “aveludava”, que tem como significado “suavizava”, que em seguida ele repete: “E tanta suavidade havia, de fazer chorar nesse sol-posto”. Aqui ele demonstra um estado de espírito totalmente descontrolado. Algo suave não pode fazer um estado de espírito normal cair em prantos.
Mas, para o solitário, o amargurado, nenhuma manifestação, por mais branda que possa ser, consegue modificar ou incitar alterações nos seus sentimentos.
O segundo verso provoca uma grande incógnita. “A viração do oceano...”. O significado de viração relacionado ao mar é: vento fresco e suave que costuma soprar à tarde do mar para a terra; brisa marinha. Esse vento fresco e suave “acariciava o rosto como incorpóreas mãos”. Mais uma vez o poeta usa de simbolismo empregando o verbo acariciar. O vento no rosto, quando fraco e suave, não causa transtornos, pois o impacto do seu fluxo e desviado pela área arredonda desse rosto. Aqui ele utiliza-se da poética quando dá ao vento o simbolismo de “mãos” imaginárias. (Poeticamente lindíssima a construção, bem própria do estilo bandeiriano). Tem um significado aqui de carência afetiva. Bandeira sofreu de carência afetiva, pois foi um solitário.
Na seqüência desse segundo verso, Bandeira volta-se para o seu interior, subliminarmente expresso no uso do “tu”. Ele direciona-se para o seu interior, magoado, repleto de medos e tristezas. Esse seu interior, diante do anoitecer, mesmo estando figurativamente à beira-mar, estava absorto no espaço físico e totalmente voltado pra si mesmo. É aquele olhar perdido que olha, mas não vê, absorto e totalmente cegado pelos sentimentos de tristimania, (mágoa) ou “saudade”. Saudade do tempo em que o seu interior não era ainda possuído por sentimentos negativos, quando não havia nenhuma manifestação da doença. Nesse final do segundo verso, o poeta volta-se para o “todo” do seu ser. Descobre-se nesse período que este absorto, fora de si, ele, num todo, “senti sorrir”, um sorriso disfarçado, digamos, aquele sorriso de não se conformar com a situação – aqueles momentos foram de total desprendimento.
Mas ele volta a se auto-classificar ao utilizar o termo “desgosto”, que significa: falta de gosto, de prazer, de alegria; aborrecimento, contrariedade, desprazer, estado de espírito de pessoas desgostosas, pesar, tristeza, falta de gosto, de simpatia, de amor por desafeto, grande insatisfação, mortificação, tribulação, estado de quem se sentiu ofendido mágoa, melindre. O grande “desgosto” de Bandeira fora a doença. Por isso ele se auto-define como “desgosto” ao inserir o pronome possessivo “meu”. Simbolicamente ele afirmou: “Foi então que mesmo na minha constante tribulação eu sorri”. Então, ele completa e explica o motivo desse sorriso. “Escolhos” são recifes ou rochas à flor da água. “Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos...”. O poeta relembra aqui o olhar disperso e distante: “ao fundo” aqui tem significado de “distante”, ficando configurado como simbolismo quando do emprego de: “Depois o céu...”. E ele volta a afirmar figurativamente esse olhar disperso: “e mar e céus azuis: dir-se-ia prolongarem a cor ingênua de teus olhos...”. O fato de estar absorto o fez sorrir sorrateiramente. Provocou, por instantes, o esquecimento das aflições, como que, simbolicamente, um garoto torna-se extasiado diante de um brinquedo. E conclui esse motivo no último verso: Tudo em sua volta, pelo menos naquele momento, seus sentimentos e o seu eu interior voltam (ou tornam-se) como ele sempre gostaria que fossem: sem tristezas e sentimentos negativos e com o corpo sem doença. “A paisagem ficou espiritualizada”. O seu mundo torna-se livre e ganha vida, pois “Tinha adquirido uma alma”. “E uma nova poesia desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...”. A poesia sempre tinha sido um meio de escape para Bandeira. Escape das suas preocupações e tristezas e principalmente um escape para não se preocupar com a doença, como ele mesmo declarou em depoimento já mencionado neste texto.
Essa “nova poesia”, simbolicamente, significa um novo alento que surgia após momentos de devaneio que o fez sorrir por estar naquele estado de pura indignação de si mesmo. Simbolicamente, Bandeira deixou exposto um momento de reflexão sobre o seu eu interior sofrido. Por um momento ele concluiu que toda aquela sua preocupação com a doença era vã. Então, esse novo alento que despertou dos seus sentimentos mais profundos, que ele mesmo define simbolicamente que não sabia exatamente de onde viera, quando afirma: “desceu do céu, subiu do mar(...)”.
Por essa sua “descoberta” que o fez sorrir, mas não foi um sorriso qualquer – foi “Um Sorriso” interior, pois uma nova coragem de continuar vivendo “cantou na estrada...”, ou seja, foi decisória para continuar “vivendo” seu dia-a-dia, simbolizado pela “estrada”.