quarta-feira, 3 de setembro de 2008

MEUS HAIKAIS - GUILHERME DE ALMEIDA

GUILHERME DE ALMEIDA
E SEUS HAIKAIS (HAICAIS)
Capa do livro Poesia Vária
Não era para estar postando este tópico, mas tenho recebido vários emails de estudantes solicitando explicações a respeito dos “haicais” do Guilherme de Almeida. Então, através de forma bem resumida e reduzida, procurei adicionar realmente o básico, sem entrar em detalhes mais específicos.
É importante saber que Guilherme de Almeida não foi apenas um poeta. No decorrer do período que esteve literalmente ativo Guilherme foi: cronista, tradutor, autor teatral, crítico de cinema e até escreveu obra infantil (O Sonho de Marina – Ed. Melhoramentos, SP – 1941). Não vamos entrar no detalhe biográfico do Guilherme político e nem mesmo no do Guilherme da Revolução Constitucionalista de 1932, pois merece um estudo isolado e proveniente de muita pesquisa. Particularmente não desejaria mesmo entrar no detalhe do Guilherme de Andrade e Almeida Paulista Constitucionalista, pois o Blog Retalhos do Modernismo estaria desviando-se dos seus objetivos. Outro detalhe é que este Blog já postou parcialmente a biografia do Príncipe dos Poetas Brasileiros (título recebido em 1959, como sucessor de Alberto de Oliveira e Olavo Bilac, resultado de uma eleição de âmbito nacional, promovida pelo Correio da Manhã, do RJ)(1), não necessitando assim perdermos tempo com detalhes biográficos.

http://literalmeida.blogspot.com/2008/01/guilherme-de-almeida-sntese-biogrfica.html

O que mais importa neste tópico é o Guilherme de Almeida, poeta que teve a coragem de lançar em 1947, “Poesia Vária”, Livraria Martins Editora – São Paulo, [cuja primeira parte, “Peregrinação”, é a celebração poética de um fato que para qualquer outra pessoa poderia ser banal: a aquisição da casa própria. A emoção do poeta que, afinal, tem um lugar seu onde morar, pode ser medida pelos versos iniciais do volume: “Descalço em teu portal de hera e de granito / minhas sandálias sujas de infinito” – num simbolismo à Tagore, poeta muito da sua intimidade. Vário, em todos os sentidos, esse livro de Guilherme. Nele foram incluídos os “haicais” ou “haikais”, na forma rigorosa, com metro e rima, que Guilherme inventou para nacionalizar essas “anotações poéticas de um momento de elite” da poesia japonesa; as “chaves de ouro para onze sonetos que não foram escritos” e a ressuscitação dos cantares de amor e dos cantares de amigo medievais, no Cancioneirinho]. (2)

HAICAI ou HAIKAI... Afinal: O que é? Como é?

Haicai:- Nada mais é que um tipo de poema japonês (hokku) de Forma Fixa, formado de 17 Sílabas distribuídas em três Versos (5 – 7 – 5) sem Rima, como toda a poesia nipônica. Em princípio, o HAICAI deve sugerir uma das estações do ano, e o gênero foi imortalizado pelo grande poeta Matsuo Bachô, na segunda metade do século XVII. No Brasil, como já mencionado acima, Guilherme de Almeida houve por bem fazer rimarem os versos. Ele rimou os Versos Primeiro e Terceiro, introduzindo também Rima Leonina no Segundo, como neste exemplo do livro “Poesia Vária”:

VELHICE

Uma folha morta.
Um galho no céu grisalho.
Fecho a minha porta.(
3)

A definição clássica (normalmente encontrada nos dicionários):

Haicai:- Forma de poesia japonesa surgida no século XVII e ainda hoje em voga, composta de três versos, com cinco, sete e cinco sílabas, que geralmente tem como tema a natureza ou as estações do ano. [Cf. Haicu ou Haiku]

Etimologia:- Do Japonês:
- haikai, formado de hai “brincadeira, gracejo” + kai “harmonia, realização”;
- haiku, formado de hai “brincadeira, gracejo” + ku “frase” (p.ext. verso) ou estrofe.

Outra definição clássica:

- Haicai (Arte Poética). É o poema japonês constituído de três versos, dos quais dois são pentassílabos e um, o segundo, heptassílabo:

“Há quem exceda, em brevidade, a essa trova popular, de quatro versos, ou vinte e oito pés métricos. É o haicai japonês, pequeno poema de três versos, de cinco, sete e cinco pés métricos, respectivamente, que resumem uma impressão, um conceito, um drama, um poema, às vezes deliciosamente, não raro profundamente”. (Afrânio Peixoto, Miçangas, pp. 234-235.) [Cf. haicu].

A definição clássica de “Haicu” - (Do Japonês) = Arte Poét. Poema lírico japonês, constituído de dezessete sílabas distribuídas em versos não rimados, de cinco e sete sílabas.

Na introdução de “OS MEUS HAICAIS”, Parte II do livro “Poesia Vária”, Guilherme de Almeida fez a seguinte anotação:

HAIKAI
a poesia japonesa de dezessete sílabas em três versos: o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco. Define-se o HAIKAI: anotação poética e sincera de um momento de elite. Transpondo-o para o português, em 1936, o Autor acrescentou-lhe a Rima, fixando a seguinte fórmula:

__ __ __ __ x
__ o __ __ __ __
o
__ __ __ __ x.

Para entender facilmente, outros exemplos de Haicais de Guilherme de Almeida:

HORA DE TER SAUDADE

Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!).(4)

O PENSAMENTO

O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.(5)

TRISTEZA

Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?(6)

Antes de concluir creio que vale a pena descrever parte da entrevista concedida por Guilherme de Almeida para a poetisa, contista, advogada e jornalista: Maria Thereza Cavalheiro – São Paulo. Essa entrevista, pelo tipo de editoração gráfica, creio ter sido editada no D.O. Leitura. Infelizmente eu ganhei apenas uma tira do jornal contendo alguns tópicos da mencionada entrevista. Nessa pequena tira existe um tópico cujo título é: Os Haicais. Vejamos o que consigo decifrar dos farrapos da tira:

“Há de se registrar um fato importante. Guilherme de Almeida foi um dos primeiros poetas brasileiros a escrever haicais. E os publicou em Poesia Vária, lançado em 1947. Eu tinha então dezoito anos e fiquei encantada com os [Aqui a tira apresenta um furo. Por dedução creio que a autora escreveu: “(...) encantada com os poemas ou poemetos”, como são tratados]. (...) de aniversário [deduzo que esteja escrito: “No dia ou Na Festa”) de sua sobrinha Anna Maria (10-9-47), disse ao Poeta do meu entusiasmo pelos seus haicais. E ele contou, muito indignado, que muitas pessoas, incluindo críticos, esteavam dizendo que ele havia feito “charadas”.
Podemos entender, assim, perfeitamente, porque Guilherme de Almeida deu título aos seus haicais e criou um tipo de rima específica para essa composição poética. Os “haicais guilherminos” passaram a ser elaborados por bons haicaistas, entre os quais se destacam Cyro Armando Catta Preta, de Orlândia-SP, e o saudoso José Fernandes Soares.
Sabe-se que o haicai japonês é composto de três versos de cinco, sete e cinco sílabas respectivamente, sem rimas e sem título, com temas ligados à natureza. Ao transpô-lo para a nossa língua, Guilherme de Almeida rimou o primeiro com o terceiro verso, e criou uma rima interna no segundo verso, com tônica na segunda e na sétima sílabas poéticas. Dessa forma, como bem disse Sérgio Milliet na apresentação de Poesia Vária (3ª. Ed. Cultrix), Guilherme de Almeida “nacionalizou o haicai” e “estabeleceu uma forma nova”.
E não só isso. Temos para nós que Guilherme de Almeida assim procedeu para tornar o haicai mais acessível ao gosto do nosso povo, mais fácil de ser aceito. Em nada procederiam a comentários de que Guilherme de Almeida não conheceria as regras do haicai. Na mesma ent.... [aqui falta um pedaço na tira e não teve como continuar, creio ser “entrevista”] – “havia um grupo de poetas japoneses, antigamente, que se reunia à rua da liberdade. Assisti a muitos de seus encontros. Faziam-se Jogos Florais: era dado um tema (lembro-me de que um deles foi ‘brisa da primavera’) e uns dois ou três poetas apresentavam os seus haicais. [outro rasgo e não consigo decifrar o que ela escreveu]. (...)
Não é poesia de amor: é de estação. O haicai é como um verbete de dicionário. E deve ser, antes de tudo, espontâneo: o haicai é obtido como quem pega um inseto em vôo. Se escapar, escapou, e não se consegue mais fazê-lo. Porque deixa de ser sincero. O haicai se impõe. É ele que vem a nós. Pois bem: uma vez, com surpresa minha, notei que o tema dado era sobre o jacarandá. Surgiu então uma querela: discutia-se a época de sua florescência, indispensável à composição do haicai, que é, como se disse, antes de tudo, uma poesia de estação. Com maior espanto meu, um dos japoneses tirou do bolso um dicionário botânico brasileiro em japonês, para esclarecer a dúvida. Pois a poesia japonesa é uma poesia botânica, e os conhecimentos botânicos são indispensáveis ao poeta... Passei também a fazer haicais, que foram traduzidos por um intérprete, após passar uma prova, que todos julgaram. A poesia, no Japão, é obrigatória. Não importa a profissão do indivíduo. “Recordo-me que um dos componentes do grupo era agricultor, outro marceneiro, outro fazia serviços domésticos”.
[a tira termina aqui].


Bem, mas acho que o objetivo proposto foi atingido. Fica aqui minha sugestão: “os amigos leitores que tiverem materiais a respeito dessa temática, caso queiram colaborar, peço a gentileza de enviar-me através que qualquer dos seguintes emails:
literalmeida@hotmail.comliteralmeida@yahoo.com.br - literalmeida@uol.com.br ou literalmeida@gmail.com – pois poderão enriquecer este debilitado e fracionado texto... Mas não faltou vontade para que fosse mais o mais completo possível – dentro das minha limitações. Mas acho que valeu como iniciação para outros estudos e pesquisas a respeito do assunto pauta.

Luiz de Almeida

NOTAS:
(1) Barros, Frederido Pessoa de. Dados Biográficos de Guilherme de Almeida – Raça, de Guilherme de Almeida – Livraria José Olympio Editora, pág. XXI – Vol. 88 – 2º Edição – Coleção Sagarana, 1972 – Edição comemorativa do Cinqüentenário da Semana de Arte Moderna de 1922;
(2) Almeida, Guilherme de. Textos selecionados, estudo histórico-literário, biografia e atividades de compreensão e criação – Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Frederico Ozanam Pessoa de Barros – Literatura Comentada – Ed. Abril Educação, 1982 – in: De Você a Poesia Vária – pág. 104;
(3) Campos, Geir. Pequeno Dicionário de Arte Poética – Editora Cultrix, 1978 – 1ª Edição – pág. 82;
(4)(5) Almeida, Guilherme de. Poesia Vária – Parte II: Os meus haikais – Editora Cultrix, SP – 3º Edição, 1954 - pág. 45;
(6) _______, Idem, pág. 55;
(#) As definições clássicas: Versão Eletrônica dos Dicionários Aurélio e Houaiss.

NOTA NECESSÁRIA: Não deixe de ver: