domingo, 22 de novembro de 2015

MÁRIO DE ANDRADE: ARLEQUINAL

Mário de Andrade (Foto ilustrativa) 

Muito já se estudou, pesquisou e especulou sobre o real significado do termo “arlequinal” de Mário de Andrade, depois da publicação de Paulicéia Desvairada. Este artigo não trará nenhuma definição clássica. Será apenas uma chamada introdutória para que o dileto leitor do Retalhos possa buscar outros conhecimentos e estudos a respeito.

- Quando Mário aplicou “Arlequinal”, fez referência ao Arlequim, personagem da antiga comédia italiana cujo traje era composto de inúmeros losangos multicoloridos, ou seja, o todo era composto por pedaços. (Parcela significante dos estudiosos e críticos, associam o “Arlequim” de Mário ao personagem da Commedia dell’Arte). Assim, Mário se referiu a algo “multi”, composto de pequenos pedaços – um todo formado por fragmentos, por retalhos.

Em Paulicéia Desvairada, o primeiro livro modernista de Mário de Andrade, demonstra que a cidade de São Paulo é a sua musa inspiradora. Victor Knoll, em Paciente Arleguinada: Uma leitura da obra poética de Mário de Andrade. Hucitec, São Paulo, 1983, págs. 51/52, menciona:

- “(...). E também em “Inspiração”, composição toda feita de reticências, como se cada verso fosse o prolongamento do outro – um eco -, como se o poeta estivesse debruçado (suspenso) diante de São Paulo, o sopro que anima o seu canto, a noiva que se dá para a fecundação da palavra, esse grito está indicado:

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Trajes de losangos...
Cinza e ouro... Luz e bruma...
Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América!
 “Arlequinal!... Traje de losangos... Cinza e ouro...

Mário de Andrade colheu na figura de Arlequim os elementos para a constituição desta imagem poderosa e que reaparece de modo explícito, sugerido ou elíptico ao longo de toda a sua obra poética. A roupa de Arlequim é feita de losangos coloridos, exprimindo a divisão, a fragmentação, a multiplicidade, a dilaceração. Arlequinal exprime as partes distintas de um todo relativas à cidade, ao país, à vida psicológica (sentimento e personalidade), ao ambiente, ao clima, à situação social, à constituição racial, ao folclore, e por fim à criação e ao dizer do poeta”.

Capa da 1ª Edição de Paulicéia Desvairada
(Foto Ilustrativa)

A cidade de São Paulo é arlequinal, tanto étnica como culturalmente, pois é formada da junção da multiplicidade cultural trazidas por pessoas das mais diversas origens. O Rio de Janeiro é arlequinal, pois tem no seu carnaval uma multiplicidade de ritmos, culturas e cores, e também assim o é o Brasil, e isto se comprova em Macunaíma, o herói sem caráter definido, uma vez que ainda estava em formação, juntando pedaços e fragmentos, como também se caracteriza como um verdadeiro arlequim: burlesco, irônico e mandrião, repleto de multiplicidade no seu vernáculo, pela oscilação do seu caráter.

Para compreender a abrangência do termo Arlequim (substantivo), podemos facilmente associar o adjetivo Arlequinal ao próprio Mário de Andrade como: “Mário Arlequinal”. A vestimenta do arlequim feita de retalhos de tecido coloridos seria homóloga à definição de Mário de Andrade sobre ele mesmo: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta”. A característica eclética de Mário é o que o define mais especificamente com verdadeiro significado do substantivo e do adjetivo pertinente aos seus poemas.

Para aprofundar um pouco mais e podermos tentar entender outros aspectos “multi” (multidisciplinares, multidisciplinares, multidimensionais, multifacetados, etc.) da expressão “Arlequinal” empregada por Mário de Andrade, entre muitos, o RETALHOS destaca:

- A Estética Aberta de Mário de Andrade. Leda Miranda Huhne. Uapê, RJ, 2002;
- A Lira Paulistana de Mário de Andrade: A Insuficiência Fatal do Outro. José Emílio Major Neto. Tese de Doutorado – Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas da USP, São Paulo, 2006;
- As Andanças de Arlequim e Suas Múltiplas Percepções na Paulicéia de Mário de Andrade. Aparecida Maria Nunes. Trabalho apresentado ao NP 17 – Folkcomunicação, do V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom. Universidade Vale do Rio Verde – Unicor, nd;
- Mariodeandradiando – Telê Anona Lopez. Editora Hucitec, São Paulo, 1996;
- Mario de Andrade: Plural. Elisa Angoffi Kossovitch. Unicamp, Campinas – SP, 1990;
- Mário Vário: Uma Introdução ao Pensamento de Mário de Andrade. Luciano Santos. Editora Unijuí, RS, 2205;
- Paciente Arlequinada: Uma Leitura da Obra Poética de Mário de Andrade. Victor Knoll. Editora Hucitec, São Paulo, 1983;
- Paulicéia Desvairada. Mário de Andrade. Circulo do Livro, São Paulo, nd.

(Luiz de Almeida)