quinta-feira, 8 de maio de 2008

TESTAMENTO DE MENOTTI DEL PICCHIA SOBRE A SEMANA DE ARTE MODERNA DE 1922

PREÂMBULO NÃO MUITO INTERESSANTE
(Mas achei que seria necessário... Não perguntem o motivo).

Luiz de Almeida

O primeiro contato que tive com Menotti Del Picchia foi em junho de 1962. Naquele ano freqüentava o 2º ano do extinto Ginasial, no Colégio La Salle, em Botucatu – SP. Morava sob regime semi-interno no Seminário São José. Era só atravessar o imenso portão de ferro que seccionava um muro de tijolos sem reboque, que na época parecia ser alto demais (tinha 13 anos incompletos e mais ou menos 1,50 m de altura), passava do Seminário para o Colégio La Salle. O professor de História do Brasil, irmão Lassalista, também chamado Luís (diferente do meu Luiz com “z”), era pouca coisa, uns 10 cm mais alto, me obrigou ler A Revolução Paulista, de autoria do Menotti. A Revolução Constitucionalista completaria 30 anos no mês seguinte, e, foi assim que tomei conhecimento que em 1932 houve uma Revolução. Mesmo contrariado, iniciei a leitura, pois teria que fazer um resumo, durante o período das férias de julho, para não ficar com média menor que 5 no 3º bimestre. Lembro-me perfeitamente que não dei importância para o autor. Isso não me interessava, pois a obrigação era conhecer a história da tal Revolução Constitucionalista. Nem preciso dizer que li e não entendi bulhufas. Ajudado por um seminarista que já cursava Filosofia e Teologia, de nome Mário, que tinha o apelido de Pelé, pois alem de ser negro jogava um futebol de primeira (deveria estar treinando na Ferroviária de Botucatu e não estudando Filosofia e Teologia... Eu pensava assim.), e foi ele que também me ensinou taquigrafia (hoje fora de moda e uso). Em Agosto, no reinício das aulas, entreguei o resumo na data certa e consegui ficar com a média 6, pois o professor adorou o “meu” resumo. Nesse resumo tinha uma pequena biografia do autor que também tive que escrever... Quer dizer, eu não, o Pelé. E foi assim que conheci o tal Menotti Del Picchia.
Em 1966 voltei a ter contato com Menotti, agora através da leitura do Juca Mulato. Aí foi fatal, pois acabei tendo, pela primeira vez, contato com obras de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. O livro era ilustrado com desenhos desses três modernistas - e foi assim que também acabei me interessando pelo Movimento Modernista e somente depois, lá pelo ano de 1974 ou 75, não me lembro, pela Semana de Arte Moderna.
Preambulei acima apenas para poder postar aqui no Blog um depoimento do Menotti Del Picchia sobre a Semana de Arte Moderna de 22, que, após concluir as pesquisas para o texto do Zé Bento, postado dia 1º de maio pp., 

(http://literalmeida.blogspot.com/2008/05/entrevista-com-z-bento-o-secretrio-de.html), encontrei numas folhas datilografadas e arquivadas na minha velha pasta de textos ainda fora de ordem. E, após uma leitura atenciosa, achei por bem postar no Blog - antes mesmo da biografia do Menotti que ainda não concluí. É um depoimento maravilhoso, diferente das outras crônicas, conferências, artigos e depoimentos do próprio Menotti sobre o mesmo tema, como os contidos no livro A “Semana” Revolucionária, organizado por Jácomo Mandatto, Pontes Editores – SP, 1992, que por sinal... é um espetáculo de livro, um documento histórico.
Apesar de utilizar-me de uma lupa e até mesmo forçar meu senso dedutivo e analítico, pois independente de algumas manchas, as dobras nas folhas detonaram algumas palavras datilografadas, consegui digitar o texto e agora partilho com todos os meus amigos leitores e visitantes do RETALHOS DO MODERNISMO. E, deixando de lero-lero, eis o texto:



A SEMANA DE
ARTE MODERNA DE 22Menotti Del Picchia


A Semana de Arte Moderna, de 1922, a “semana mais comprida do mundo”, na humorada denominação de Hernani Donato, tornou-se após mais de meio século, a Grande Semana de Arte Moderna pela alarmante prevenção que meu culto amigo Yan de Almeida Prado manifestou por dois de seus mais brilhantes fundadores, Mário de Andrade e Oswald de Andrade que, com o autor desta nota, formaram o trio básico que fez eclodir aquele histórico movimento.
Curioso: a famosa revolução cultural modernista parece imantada por estranha magia. Ela revive, torna-se ainda mais presente, toda vez que alguém a exalte ou tente nega-la. Desta vez, na explosão de Yan, surge como ‘grande’, adjetivo valorizado da sua impressionante sobrevivência e da sua constante e teimosa atualidade.
Basta esta denominação para esvaziar a afobada retórica que o simpático Yan “gasta para tentar destruir dois dos seus mais atuantes criadores”.
No volume de 140 páginas que escrevem sobre ela e que andam fazendo certo barulho nos nossos meios culturais, perde-se o autor em contínuas e repetidas diatribes contra esses dois meus companheiros, dentro de uma atmosfera abstrata, na qual o leitor, confuso, não fica sabendo o que era a Semana, nem porque mereciam tão severos castigos esses dois hoje gloriosos e universalmente consagrados escritores.
Em primeiro lugar, para dar meu depoimento como parte também atingida pelo libelo de Yan, pois, como Mário e Oswald, também estou na raiz desse movimento, cuja origem, como se verá, talvez esteja no nacionalismo do meu velho Juca Mulato. Urge recordar a Yan, se é que a esqueceu – a decisiva influência artística, política e social que teve a Semana na vida brasileira. Quem afirma isso não somos nós, os detonadores dessa “revolução sem sangue”, mas o presidente da República, Getúlio Vargas, ao enviar sua mensagem ao Congresso Nacional, ao celebrar-se a passagem do trigésimo aniversário da Semana. Tive a honra, então, como deputado, de ler no plenário na Câmara Federal trecho do documento que se refere à revolução literária deflagrada em 1922, em São Paulo, no nosso Teatro Municipal. Diz o texto oficial:
“As forças coletivas que provocaram o movimento revolucionário do modernismo na literatura brasileira, que se iniciou com a Semana da Arte Moderna de 1922, em São Paulo, foram as mesmas que precipitaram, no campo social e político, a Revolução vitoriosa de 1930. A inquietação brasileira, fatigada do velho regime e das velhas fórmulas que a rotina transformara em lugar-comum, buscava algo de novo, mais sinceramente nosso, mais visceralmente brasileiro. Por outro lado, a evolução econômica do mundo, o progresso técnico e industrial, a ascensão dos fatos políticos estavam a exigir nova estruturação da sociedade e novas leis, capazes de atender com eficiência a essas necessidades. Uns e outros fatores se congregaram para forjar o movimento, que aos poucos se dilatou, criou raízes e, finalmente, amadureceu, determinando de um lado a renovação dos valores literários e artísticos, de outro lado, a renovação dos valores políticos e das próprias instituições. Na verdade, o movimento modernista, nas letras e nas artes brasileiras, foi um impulso revolucionário que cresceu e extravasou, como o foi o movimento político causador da Revolução de 1930”.
Diante desse documento, que deu à Semana dimensão internacional e deflagrou a Revolução de 1930, a qual gerou uma legislação social que teve reflexo nos povos vizinhos, que viram no Brasil uma Nação pioneira em reformas, Yan ficará perplexo perguntando a si mesmo se foi um fenômeno de esquecimento que o levou a negá-la ou, talvez, então, muito moço, faltou-lhe acuidade para compreendê-la. Nem uma coisa nem outra justificariam seu furor em procurar destruí-la. Mas de meio século transcorrido, surge como um irado Erostrato fantasma, no intuito de matar mortos que estão mais do que nunca gloriosamente vivos e negar um movimento cujo espírito sua própria ira demonstra que continua presente, atuante e louvado. Gostaria que Yan lesse a segunda etapa do meu livro de memórias, A Longa Viagem, no qual ofereço ao leitor minudente e documentado relato da Semana, para que conheça o clima em que surgiu, o que ela foi e quem a fez. Quem me confere autoridade para dar esse testemunho é o grande crítico da minha geração, Tristão de Athayde, registrando: “Foi Menotti Del Picchia, e não Mário de Oswald, o chefe do modernismo” (pág. 216 em O Modernismo – ed. Cultrix). Após a Grande Guerra, a atmosfera internacional revolucionária inovava pensamento e processos que iam mundo afora, desintegrando velhas estruturas políticas e sociais. Esse sopro renovador tomava, em cada nação, um caráter específico. No Brasil, nos colheu no fim do regime feudal, oriundo da monocultura do café. Éramos, até então, culturalmente tributários da fascinação de uma França, então em pleno esplendo parnasiano. Eu criara o Juca Mulato, Lobato lançara o libelo de Jeca Tatu que, ao lado de Os Sertões, do genial Euclides, era o protesto contra a miséria e a ignorância, a que fora relegado o interland. Minha geração tomou consciência da revolução que se operava no mundo. O grupo da Semana deu-lhe a forma e o sentido nacional. Não foi uma escola, não impôs uma técnica, não formulou um código: formou uma consciência, um movimento libertador a integrar nosso pensamento e nossa arte na nossa paisagem e nosso espírito dentro da autêntica brasilidade.
Do meu encontro com Oswald de Andrade nasceu a idéia do movimento, ao qual se incorporaram na primeira hora Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Plínio Salgado, Cândido Motta Filho, Agenor Barbosa e outros paulistas juntaram-se depois com os companheiros que vieram do Rio com Graça Aranha: Ronald de Carvalho, Renato de Almeida e o imortal Villa-Lobos, e a adesão de dois dos maiores poetas do Brasil de todos os tempos: Manuel Bandeira e o grande Drummond de Andrade. Juntando ao grupo literário o grupo plástico, Anita Malfatti e Di Cavalcanti foi uma força viva da “Semana”, vindo ela gerar o artista de renome internacional que foi Portinari, Victor Brecheret, nosso escultor máximo, criou o “Monumento das Bandeiras”. Para, porém, dar ao grupo toque de suprema glória, lá estava a figura de Villa-Lobos, hoje celebrado como um dos maiores compositores da modernidade.
Para testar que Yan nada compreendeu do histórico movimento, basta o fato de atribuir à “Semana” o ócio grã-fino de uma senhora Marinette, ilustre dama que nem conheci. Certamente estaria ela assistindo, de uma frisa do Teatro Municipal, às três históricas noitadas das quais coube o grande Graça Aranha liderar a primeira, sobre o comportado silencio de uma desconfiada platéia, e, a mim, a segunda, apresentando e fazendo a exaltação da nossa gloriosa e heróica turma: Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, Plínio Salgado, Agenor Barbosa e outros – recebendo, como paga de tão honrosa e arrojada tarefa, a mais estrondosa e consagradora das vaias. Essa histórica façanha é registrada na carta que Mário, na manhã seguinte, me enviou, à qual Yan, no seu livro faz repetidas referências. Foi pela estridente repercussão dessas vaias que, primeiro com curiosidade, depois com interesse e, por fim, com plena adesão, as elites intelectuais e políticas do Brasil tomaram conhecimento do programa da “Semana” e o propagaram por todo o país. Nessa hora – 1922 – o Brasil celebrava o centenário do grito libertador que ecoara nas margens do Ipiranga, proclamando nossa Independência, enquanto ali, junto das margens do hoje encapelado Anhangabaú, no Teatro Municipal, um grupo de moços – escritores, jornalistas, poetas, músicos, artistas plásticos – proclamavam galhardamente nossa Independência Cultural. O primeiro era o grito da liberdade. O nosso grito era o da nossa integração no espírito da autêntica brasilidade.
Na Longa Viagem registro, não como escritor, mas como testemunha, o valor e a atividade dos meus companheiros. Não os encontro, Yan. A Justiça, porém me manda destacar do grupo duas figuras pioneiras e pinaculares: Mário e Oswald de Andrade. O gênio, o valor, a imagem, enfim, suas vidas e suas obras, há cinqüenta anos vem sendo objetos de estudos, análises, polêmicas, discussões. Cada crítico os visiona pelo seu ângulo. Não raro são alvo de uma idolatria que ofusca sua realidade. Uma crítica sofisticada, tocada desse pedantismo literário, hoje tão comum nos grêmios e nas universidades, esmiúça suas virtudes ou esvurma seus defeitos. Se está o interesse sempre presente que os dois famosos escritores, tão malsinados por Yan, continua a despertar entre seus admiradores e os estudiosos. Figuras como o autor de Os Condenados e Mário de Andrade não se discutem mais na sua grandeza. Sua consagração não está no fanatismo dos seus admiradores, os quais, com suas tendências, chegam a desfigurar com excesso de ternura – não raro uma ternura polêmica – as qualidades diversificadas de cada um deles. Com certas criaturas até os defeitos são expressões das suas virtudes. Ninguém acusaria Jesus por ter multiplicado o vinho nas Bodas de Caná, bebida que aos abstêmios poderá parecer pecaminosa. O camaleontismo de Oswald e o onimodismo de Mário, acusado pelo cioso cerco das suas “viúvas” – eu mesmo fui vítima de uma delas, segundo li num dos estudos feitos sobre Mário de Andrade – emprestaram-lhes várias faces, às vezes contraditórias, dando-lhes uma dimensão maior como oferecer-lhes ângulos inéditos através dos quais mostram a versatilidade do seu gênio.
Devemos agradecer o amigo Yan de Almeida Prado por ter atualizado, tão estridentemente, a Semana da Arte Moderna, que está ainda viva e não dormente, como prova a barulheira que fez com o intuito de apagá-la de nossa história. “Quanto a Mário e Oswald, que eram tão ironicamente impossíveis, terão sorrido na sua imortalidade ao ver a exasperação de quem se diz ter sido companheiro e que, depois de meio século após a eclosão da Semana, procura rebelar-se contra ela e contra eles”.



FONTE DE PESQUISA:
(D.O. LEITURA (13/149) - SÃO PAULO/OUTUBRO DE 1994 - Pág. 14 - Matéria organizada por Luiz Toledo Machado - Doutor em Literatura Brasileira da USP).