quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MENOTTI DEL PICCHIA E A PAULICÉIA

MENOTTI DEL PICCHIA
E A EX-PAULICÉIA DE
MÁRIO DE ANDRADE

Menotti Del Picchia
(Foto para a Galeria da Academia Paulista de Letras - 1943)

INTRODUÇÃO DOLENTE
(Luiz de Almeida)
Minhas narinas ardiam e o refluxo era incontrolável quando concluí a leitura da maravilhosa crônica “Que dê o inverno?”, de autoria do Helios, ou melhor, do Menotti Del Picchia, publicada nas grossas e hoje amareladas páginas da preciosa Revista da Academia Paulista de Letras, que espirram fungos parasíticos quando as folheio. A referida crônica está na Revista N.º 9, de 12 de setembro de 1940 – ano importantíssimo na vida de Menotti Del Picchia: “publicou o romance Salomé, pela Revista dos Tribunais, São Paulo; publicou pela A Noite Editora, São Paulo: Contos (Obras Completas, I); recebeu Prêmio da Academia Brasileira de Letras pelo romance Salomé”. A nota triste desse 1940, não só para Menotti, foi a morte de Tácito de Almeida, 40 anos, poeta bissexto, participante ativo da Semana de Arte Moderna e da Revista Klaxon, irmão do Poeta Guilherme de Almeida. Para encerrar o ano, Menotti assina com Espasa Calpe, editora Argentina, o contrato da versão para o castelhano do romance “Salomé”. Incumbiu-se da tradução o escritor argentino Alberto Linares, redator da “La Nacion”, de Buenos Aires.
Mas... Retornando ao objeto desta introdução, a crônica “Que dê o inverno?”, do Menotti, após trocentos espirros, concluí a análise e logo após, a digitação. (Não posso esquecer de colocar meus livros antigos num longo banho de sol ou terei que contratar um virologista). E é sobre o resultado dessa minha análise que descreverei algo mais antes de postar o texto do Menotti.
Fiquei atônito a cada leitura e a cada reflexão, pois deparei com muitas coincidências quanto aos fatos narrados por Menotti, 70 anos passados, dando a nítida impressão que o texto fora elaborado dias atrás. Após lerem o texto verão que não estou enganado. A cidade de São Paulo foi impregnada pela mutação. (Menotti disse: banalização). Vejamos:
- Quem conhece a cidade de São Paulo, sabe muitíssimo bem, que não existe mais a “Paulicéia” do Mário de Andrade. A cidade tão versejada e tão musicada, não pode ser mais tratada como a “Terra da Garoa”, título esse recebido, quando nos longínquos períodos de outono, a garoa fina era contínua. Se buscarmos pelo paulistano nato iremos encontrá-los com idades acima de cinqüenta... Acho que até mais. Quem visita a maior metrópole brasileira e tem coragem suficiente para vagar sem rumo pelo centro da cidade, durante o dia, pois à noite nem pensar, percebe que a cidade está mais para uma mitológica Babilônia, ou para as bíblicas Sodoma e Gomorra. E, respirando a poeira industrial, a dos veículos e a da imundície do lixo pelas ruas, o visitante é obrigado a suportar a fetidez da urina e das fezes dos “humanos”. É... Infelizmente. E como é dorido pensar nisso... A mutação pariu e a cidade de São Paulo abortou sua identidade original. E essa perda de identidade não é “regalia” somente da cidade de São Paulo, bem sabemos. Mas o texto do Menotti é sobre a cidade de São Paulo, berçário do Modernismo brasileiro. Desnecessário dissertar mais para que o seleto leitor do Retalhos descubra, ao ler o texto do Menotti, que ainda poderiam ser exemplificadas muitas outras “causas” dessa “perda de identidade paulistana”, tais como as apregoadas de forma direta e nas entrelinhas subliminares pelo autor de Salomé, em 1940. Então, vamos ao texto, onde foi conservada a ortografia original.

QUE DÊ O INVERNO?

São Paulo esqueceu de tirar patente do seu invernozinho caracteristico. Alguém o escamoteou...
Nossa garôa era famosa e servia até para inspirar os célebres poetas acadêmicos: “densa garôa faz fumar a lua”... Tinhamos orgulho outr’ora do nosso frio como hoje o temos do estadio municipal. Êsse friozinho alfinetante, estimulador, tônico e desportivo, emprestava-nos um ar heróico. Olhavamos com superioridade para o nortista estorricado pelas soalheiras e que batia os dentes ao menor sopro de um aliseo. Êsse frio era uma espóra na carne: obrigava ao movimento.
O homem do equador quando descia para o planalto tremia como batido de maleita. E nós, então, passavamos perto dele imunizados pelo hábito, ostentando nossa vaidosa indiferença ao gélido soprar das brisas cortantes.
- Eta friozinho gostoso...
Pela manhã, ao sair para o trabalho, iamos deixando pelo caminho a fumacinha branca que saía do nosso hálito. Tinhamos algo de locomotivas.
Hoje tudo mudou. Em pleno fastígio invernal, o sol é um forno capaz de cozinhar pelotas de bodoque em calçada. Ao meio-dia o suor escorre de nossa fronte como si trabalhassemos numa caldeira. Adeus inverno!
Adeus? Não. Obedecendo às loucuras do tempo – a época é de confusão geral – o inverno deslocou-se para dezembro. Quando, antigamente, o sol era uma fogueira e as tempestades se armavam violentas e wagnerianas hoje o ar se torna siberiano... Não há mais coisa alguma no seu lugar. Tudo anda misturado... Basta dizer que, ha dias, segundo rezam os telegramas, em Haia, a cidade das Conferências de Paz, houve uma bagunça dos diabos... Parece que finalmente os seráficos diplomatas daquela cidade se convenceram de que o que o homem quer mesmo é a guerra...
Os alfaiates andam desanimados. Capotes ninguém encomenda mais. O frio abandonou o planalto. Vamos fazer fôrça para que volte. Êle tipifica nossa terra. Sem frio, sem garôa, São Paulo banaliza-se. O sentido heróico da vida se desfaz nessa lasciva preguiça que torna as urbes litorâneas e tropicais tão propensas ao “far niente” e transforma seus habitantes em felizes criaturas contemplativas, de olhos voltados para a paizagem e para as curvas das mulheres.
Isso, porém, não será melhor que viver criando uma civilização cujo passo sempre ruma para a guerra?
Helios.

(Fonte: Mencionada na introdução).