quinta-feira, 1 de maio de 2008

ENTREVISTA COM ZÉ BENTO: "O SECRETÁRIO DE MÁRIO DE ANDRADE"

ZÉ BENTO: O SECRETÁRIO DE MÁRIO DE ANDRADE

Entrevista de José Bento Faria Ferraz que foi durante quase doze anos, secretário particular de Mário de Andrade, dada a Roniwalter Jatobá (Jornalista e Editor da Revista Memória publicada pelo Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo), Edsel Britto e Milton Andrade, numa tarde do dia 30 de Junho de 1992, para a Revista MEMÓRIA.

Toda manhã, de segunda a sexta, no período de 1934 a 1945, Zé Bento, era assim que Mário de Andrade o chamava, cuidou dos livros à correspondência do ilustre morador da Rua Lopez Chaves, na Barra Funda, em São Paulo.
Na tarde de 30 de junho de 1992, por mais de 4 horas, eu (Roniwalter Jotobá), Edsel Britto e Milton Andrade conversamos com José Bento, 79 anos, e sua mulher Sônia, 76 anos, na sua casa na Rua Ásia, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. José Bento lamentou não ter feito como o secretário de Goethe, que analisou com argúcia, em livro, o convívio com o mestre, e a sua timidez, que de certa forma podou uma maior afinidade entre o auxiliar e o autor de Macunaíma. Mas valeu a pena. Mostra, entre outras coisas, a intimidade do seu dia-a-dia e, mais uma vez, aponta para qualidades já conhecidas de Mário de Andrade, lealdade e humanidade.


- Quando você começou a trabalhar com Mário de Andrade?
José Bento:
Vou voltar um pouco antes. Sou filho de mineiros, minha mãe conhecia música, tocava violão muito bem. Meu avô era um boêmio. Eu tinha, portanto, um mundo musical na minha personalidade. E minha mãe desejava muito que eu continuasse meu piano, que aprendia lá em Jacareí, para onde mudamos em 1920. Fui, então, para São Paulo e minha mãe fez questão que eu estudasse no Conservatório Dramático e Musical. Ali, via passar um homem alto, bem vestido, bem posto, rosto levantado. Era Mário de Andrade.

- Esse conhecimento aconteceu a partir de 1928 até 1933. Havia alguma gota de intimidade?
José Bento:
Não. Só via aquele homem, professor, de vez em quando. Ele passava e era só. Quando comecei freqüentar as aulas de História da Música e Estética com o Mário, aí passei a conhecê-lo mais. E era uma judiação o que Mário fazia. Homem de cultura, cheio de humanismo, ele descia de uma posição tão alta para lecionar para meninos. Meninos que não tinham, talvez, interesse pelas artes musicais. Ele dava aula de piano no Conservatório e em sua casa. E aulas de História da Música, duas vezes por semana. Era uma judiação porque a gente ainda era moço naquele tempo. Pensava mais em brincar com os meninos que estudar História da Arte. Então, comecei a conversar com ele nos intervalos das aulas. Todo mundo saía e eu ficava conversando com o Mário. Conversa rápida, conversa simples, prestava atenção. E comecei a conhecê-lo melhor. Eu era um rapazinho tímido, mocinho ainda. Um dia, comecei, de repente, a fazer ao Mário confidências de ordem econômica. Na época, a minha preocupação maior era não deixar o que estava gostando tanto de fazer, ou seja, a música. Mas também era obrigado a ter um norte na minha vida, a ter uma ocupação. Eu vivia angustiado, vendo meus pais se matando, e eu não achava o norte. Então, conversei com o Mário. Ele ficou quieto, não disse nada. Certo dia, depois da aula, ele falou: “Zé Bento, você não saia que eu quero falar com você”. Nós descemos e, na subida do Conservatório, três prédios depois, havia um restaurante, o Palhaço. O Mário perguntou: “Você já jantou?” Eu disse: Já. Sentamos na mesa. “Olha, Zé Bento, vou lhe dizer uma coisa: você comentou aquele negócio dos meses atrás... acontece que minha irmã Lurdes vai casar e agora não tem quem cuide das minhas coisas, dos meus livros, dos meus escritos. Então, estou imaginando: será que você toparia trabalhar comigo?” Lembro-me, as minhas pernas começaram a tremer. “Não tem problema”, ele disse depois, “eu te ensino”. Mas eu não sou bibliotecário, não entendo nada de livros, eu disse. “É, mas eu te ensino”, ele falou. “Você vai procurar o bibliotecário da Municipal e lá ele te arranja uns livrinhos e você vai aprender. Não se preocupe com isso. Você escreve à máquina?” Uns seis meses depois ele me chamou.

- Era um bom salário?
José Bento: Ele assim tinha me dito: “Olha, eu não posso pagar muito, porque eu não sou rico. Você vai trabalhar de manhã comigo, três horas por dia”. Pagava 200 mil réis. Então, eu trabalhava de manhã. Saía da Vila Mariana bem cedinho e às 7h30 chegava na Rua Lopes Chaves. Vinha de bonde, descia a Avenida Angélica.

- Isso foi quando?
José Bento:
1934. Nessa época, comecei a trabalhar também na biblioteca do Sindicato dos Bancários, sucedendo a Edgard Carvalheiro, no prédio Martinelli, à tarde.

- Como era o seu trabalho na casa da Rua Lopes Chaves?
José Bento:
Chegava às 7h30. O Mário já estava de banho tomado. Ele gostava muito de usar “robe de chambre”, tinha um desenhado por ele mesmo. O Mário era muito sensual. Também gostava de coisas finas. Já barbeado... era assim que ele trabalhava, ali sentada na escrivaninha que foi do pai dele. Minha função era cuidar dos livros. Como o clima de São Paulo, não sei se só na Barra Funda, sempre teve muita umidade, certos livros bichavam muito. Tinha o porão da casa dele; desinfetava o porão. Os meus pertences, as minha latinhas, meu “pós de Pérsia”, aquelas receitas de antigamente estavam lá.

- Foi boa a convivência?
José Bento:
Foi sim. Comecei a perceber a riqueza interior daquele homem. Mas, sempre naquela minha posição, coisa muito curiosa, que eu não consegui me libertar, sempre naquela posição meio subalterna. Eu não cheguei a criar com ele uma amizade assim profunda, coisa que a Oneyda Alvarenga e o Luiz Saia conseguiram. O que eu tinha mesmo era respeito pelo Mário. Naquela época se usava outros modos, mesmo os amigos se tratavam com respeito, era senhor, aquela coisa toda. Um dia, o Mário disse: “Para com esse negócio de senhor, me trata de você”.

- Ele era meticuloso?
José Bento:
Muito metódico no seu trabalho, nas suas pesquisas. Isso que você esta vendo aí (aponta pastas com índices), herde dele. Quando cheguei na sua casa achei os fichários feitos. E sempre tinha recados: “Zé Bento, faça isso, Zé Bento, faça aquilo”. Muitas vezes ia comprar livros na livraria Civilização Brasileira. O Mário vivia dependurado em dívidas.

- Tinha conta na livraria?
José Bento:
Sim, comprava e pagava. Ele adorava o livro também como objeto. Ele transparecia sensualidade em ver aquelas coisas todas. Sempre muito calmo. Raramente era visto irado. Às vezes em que o vi irado, a voz dele sumia. Ele implodia...

- Engolia tudo?
José Bento:
Engolia tudo. Por outro lado, várias vezes o surpreendi no banheiro declamando “Ahasverus e o gênio”, de Castro Alves, ou então “Juca Pirama”, de Gonçalves Dias. Tinha uma memória prodigiosa. Mas no resto da manhã, a gente trabalhava em silêncio. Ele cuidava das coisas dele e eu das minhas. Às 9 horas da manhã, eu batendo à máquina...

- Na Manuela?
José Bento:
Sim, na Manuela, homenagem ao Bandeira. Aí batiam à porta, ele abria. Era dona Mariquinha com uma bandeja de café. Era de prata, com três xícaras de café. Então a gente bebia o café que ele mesmo servia.

- Ele escrevia à mão e você datilografava, não é?
José Bento:
O Mário gostava muito de escrever à mão, com aquela letra tranqüila. Cartas datilografadas, só as mais formais. Ele gostava muito de fazer as cartas para a Henriqueta Lisboa, Fernando Silva, Manuel Bandeira.

- E as cartas de amor?
José Bento: Os amores de Mário... eu tenho a impressão que cessaram quando... eu tenho a impressão que Remate de Males foi o túmulo doa amores do Mário. Aos 40 anos, ele teve uma crise existencial muito forte. Foi um marco na vida dele. Ele tinha uma premonição da morte muito grande. Era de saúde precária. E o Mário se desmandou muito no Rio, de modo que quando ele veio de lá, já iniciava um processo lento de morte. Aliás, num certo sentido, eu compartilho do ponto de vista do Paulo Duarte: o Mário foi conscientemente se matando aos poucos.

- Solidão? E os amigos que freqüentavam a casa dele?
José Bento:
Os amigos são sazonais, não é? Os amigos dos anos 20 não foram os mesmos, nem poderiam ser os mesmos. Raras são as pessoas que têm amigos que as acompanham até a morte, porque a vida vai mudando. Então raras são as pessoas que conservam seus amigos de infância, porque a vida é tão atrapalhada. Então, eu quero crer que os amigos do Mário que permaneceram até o fim foram: Paulo Duarte, o Rubens (Borba de Moraes), o Sérgio, os dois Sérgios (Milliet e Buarque de Hollanda), os amigos do Rio, que duraram muito tempo, o Rodrigo (Mello Franco), o Carlos Drummond de Andrade, o Prudente (de Moraes Neto), o Manuel Bandeira e a Henriqueta Lisboa; as cartas da Henriqueta par o Mário a gente não conhece, mas as do Mário para a Henriqueta é de um amor... A gente percebe que é um amor de amante. É nas cartas para a Henriqueta que ele se abre mais.

- E a mulher do Ascenso Ferreira?
José Bento:
Não estou lembrado. Um amor, pelo menos platônico, de um para o outro. Eu não sei... Ele teve vários amores... Eu não sei. Vai caber ao biógrafo de Mário a tarefa pesadíssima de penetrar em todo o inconsciente dele. É difícil, e tem aquela coisa muito triste do Mário, que foi uma das causas, talvez, do rompimento em 1928 com o Oswald. E o Oswald tem uma frase candente, que o “Mário parecia um Oscar Wilde, por detrás”. É um assunto chato! Lembro que, uma vez, ele já tinha tido o pré-infarto, mas a rigor foi um infarto mesmo... Foi em 1944, mais ou menos. Estava doente, imóvel, quarenta dias na cama e eu soube de um seminário. E os alunos, pela leitura dos fatos e de suas obras, chegaram à conclusão que o Mário era homossexual. Eu, que nunca tinha ouvido falar nisso, fiquei indignado. Então, escrevi uma carta para a Oneyda (Alvarenga), carta dolorosa, chateado com o que tinha acontecido. Referir a obra de Mário à homossexualidade! Quem sabe pode até se referir, eu não sei, mas eu não podia conhecer aquilo. Então, a Oneyda ousou perguntar ao Mário sobre este aspecto da inimizade dele com o Oswald. E veio a resposta do Mário: “Olha, Oneyda, por favor, é uma coisa tão suja que eu não quero tocar neste assunto”. Tenho a impressão que coisa do Oswald deve ter machucado muito e que eles nunca mais puderam se entender.

Sônia:
Eu até lembro da época do Guilherme de Almeida no Departamento, que aliás foi uma desilusão. Eu gostava das poesias dele. Colecionava-as. Eu não o conhecia, mas apreciava o que ele escrevia. Zé Bento, lembra daquela senhora que trabalhou com o Guilherme de Almeida? É... na sala dele. Ela foi lá em casa e lançou, quer dizer, puxou conversa, só para dizer que o Mário era homossexual. Tem gente com instinto ruim. Primeiro, não sei se ele era; e se era, era discreto, discretíssimo. Antes do nosso tempo, ele teve uma grande paixão por uma mulher.

José Bento:
Maria da Glória?

Sônia:
Não. não, imagina! Maria da Glória... nunca... aquela mulher!

- Quando vocês se casaram?
José Bento:
Casamos em 1945.

- Depois de sua morte, não é? Ele acompanhou a preparação do casamento?
José Bento:
Mário me apoiava muito neste sentido.

- Vocês tiveram dois filhos, um inclusive chamado Mário, em homenagem a ele. Mário, o de Andrade, gostava de criança?
José Bento:
Adorava criança. E a grande preocupação dele era com o menor do meio operário. Eu me lembro bem de que o primeiro parque infantil, ligado ao Sérgio Milliet e à Maria de Lourdes Milliet, já levantava a preocupação de como criar parques par as crianças de operários.

- Católico?
José Bento: Era, e esse era um problema muito sério pra o Mário. Ele tinha uma formação católica, estudou no Colégio Marista. Ele chegou a solicitar – naquele tempo o bom católico tinha de solicitar à autoridade diocesana – uma licença especial para poder ler livros que estivessem no Index, como Voltaire, Diderot, esse pessoal todo do Iluminismo. Pois o Mário fez essa solicitação. Ele participava de procissões de “Corpus Christi”, ele e o Antônio Alcântara Machado. Mas na última fase de Mário de Andrade ele se declarou comunista. Talvez fosse um comunista, mas de ordem intelectual, vamos dizer assim.

- Nunca entrou em partido?
José Bento: Não. Mesmo a atitude dele em 1932, quando São Paulo inteiro se incorporou, foi meio razoável. Inclusive o irmão dele foi para a frente de batalha. Não sei se era uma premonição.

- Como é que ele recebia, por exemplo, a crítica, os comentários, sobre seus livros?
José Bento:
Eu não gostaria de dizer: era vaidoso. Os sapatos eram feitos sob medida, na sapataria Guarani, em frente à livraria Civilização Brasileira, ali na rua XV de Novembro. O Mário era muito vaidoso. Usava chapéu. Na hora em que ele saía para almoçar, ele já se troca. De gravata, tudo direitinho.

- Comia bem?
José Bento:
Ah, era um bom garfo. Gostava de comidas finas.

- Fumava?
José Bento:
Fumava muito. E tinha muita insônia. Quem passasse às 22 horas pela rua Margarida com Lopes Chaves, via aquela janela aberta até 2 ou 3 horas da madrugada. Era o Mário tocando no órgão os corais de Bach. Era para ele poder se libertar das angústias, porque o Mário era um homem angustiado. Eu tenho a impressão que as injustiças do mundo caíam naquela sensibilidade acentuada que ele tinha.

- A senhora não gosta muito de se lembrar do Mário, não?
Sônia: Não. (Pausa)
Eu também tive problemas financeiros, coisas de família. Um dia eu fui procurar o Mário. Nessa ocasião, ele já era diretor do Departamento de Cultura, lá na Cantareira... Era uma pessoa muito à vontade, ou então queria deixar a gente à vontade. Ele disse que estava com fome e mandou buscar bananas. Era uma característica, talvez, da personalidade dele: deixar as pessoas muito à vontade. Eu conversei com ele sobre os meus problemas, disse-lhe que eu precisava de emprego. Ele me convidou para ir ao Departamento de Cultura. Ele também tinha convidado o Zé, que eu não conhecia, mas que já era seu secretário particular. Conheci o Zé Bento lá.

José Bento:
E foi uma coisa muito curiosa: eu preparava a documentação para entregar na Divisão do Pessoal da Prefeitura. E, ao buscar isso, vai levar aquilo, eu cruzei várias vezes com uma moça. Então, eu parei e pensei: mas que moça bacana!

Sônia:
Eu não estava nem aí...

José Bento:
Um dia eu entreguei uns documentos para o Paulo Magalhães, que era o chefe de gabinete do prefeito Fábio Prado, muito amigo do Mário. Em seguida, ele me mandou para a discoteca, que ficava atrás do Teatro Municipal. Quando eu chego na discoteca, correndo, para falar com a Oneyda, a primeira coisa que vejo é aquela moça, lá sentada, escrevendo. E ali está ela... O diabo me passou a perna.

- Lembra do dia da morte dele?
José Bento: Eu trabalhei no sábado, sábado eu trabalhava à tarde, e fui para a Lopes Chaves. Ele estava de “robe de chambre”. Estava pálido. Eu não estava gostando. Eu me lembro de que voltei para casa preocupado. No domingo, o Sílvio Alvarenga, marido da Oneyda, encostou o carro na minha casa. Eu falei: “Você por aqui?” Devia ser umas sete e meia da manhã, umas oito horas. Ele falou: “Você não gostaria de ir comigo na casa do Mário?” Eu falei: “Ele não está passando bem, não?” Aí eu me aprontei rapidamente e saí. Cheguei lá ele já estava morto.

- A casa estava cheia?
José Bento:
O Luiz Saia passou a noite lá. E me contou: “O Mário pediu uma xícara de chá e começou a tomar. De repente, disse: Saia, me segure que eu não estou me sentindo bem”. Deu a xícara e... aí foi trágico. Porque o quarto do Mário era no andar de cima. A mãe dele ficava no quarto do fundo. Tinha o banheiro e um quarto da dona Nhanhá e das outras moças que ainda moravam lá. Mas engraçado, nós, os velhos, vamos adquirindo uma verta calosidade... A mãe soube e não houve este drama que os moços têm... pronto, morreu. Ela se recolheu a um canto e, naturalmente, morreu aos poucos também. Não durou muito, não.

- E depois da morte dele, você voltou lá na casa?
José Bento:
Eu voltei várias vezes pra cuidar dos ditames da carta. Porque a carta não era seu testamento, apenas uma intenção. E essa carta estava comigo guardada, eu sabia onde é que estava. Tanto que um dia ele me disse: “Zé, esta carta está aqui. Se acontecer qualquer coisa comigo, você a dê ao Carlos Moraes de Andrade, ao Cade”. E eram recomendações para que eu separasse, de acordo com o Dr. Carlos Moraes de Andrade, os livros principais para a educação dos sobrinhos: era a Terezinha, o Carlos Augusto e a Maria Luiza. O resto das coisas, as obras de arte, iriam para a pinacoteca. A parte musical para a discoteca. No post-scriptum da carta, ele até agradece a minha assistência. E deixou para mim uma importância, não sei bem quanto era naquela época, mas este dinheiro nunca se achou. Naturalmente ele precisou dele e usou. Eu ainda fiquei lá mais dois ou três meses, arrumando as coisas e depois eu fui embora. Em 1945 eu comecei a trabalhar lá no Patrimônio. Em 1951, fui para Ribeirão Preto trabalhar na Faculdade de Ribeirão Preto.

- Da obra do Mário, poesia, conto, romance, você tem alguma preferência? Tem algum livro que marque mais.
José Bento:
São as poesias. A última parte da “Meditação sobre o Tietê” é uma coisa extraordinária.

- Um poema ecológico?
José Bento:
É um poema muito bonito, muito mais que ecológico! Um poema humanísssimo. É o Mário angustiado com a Segunda Guerra Mundial...

- Essa convivência com o Mário, durante doze anos... O que ela significou, vamos dizer assim, para o resto da sua vida?
José Bento:
Significou muito. Me esclareceu, me abriu horizontes, me deu certo sentido de liberdade, um sentido de respeito pela pessoa humana, um sentido de respeito à individualidade de cada um. O Mário me deu esta noção de liberdade... e de amor. E isso eu acho muito importante. Eu só sei dizer a você que foi um período feliz da minha vida, aquele em que eu acreditei nas coisas.


ZÉ BENTO NA VIDA DE

MÁRIO DE ANDRADE

No livro de Paulo Duarte: Mário de Andrade Por Ele Mesmo. Editora Hucitec (Co-Edição com a Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo) – 2ª Ed. corrigida e aumenta – São Paulo, 1977 – encontramos várias passagens onde o nome do Zé Bento aparece com evidência. Das 13 (treze) menciono 12, pois são as de maior importância, onde procurei manter a ortografia original. Ei-las:

Pág. 138: No artigo de Paulo Duarte: “PAIXÃO DE MÁRIO DE ANDRADE”

- (...) Já no mês de outubro (1943), (Mário) escrevia-me da cama ditando a carta ao seu secretário, esse bravo Zé Bento, companheiro fiel do Mário, e todos os momentos, por longos aos. (...).

- Pág. 188: Outra carta (de Mário de Andrade) a minha irmã, Aparecida Duarte, respondendo ao pedido de elementos para organizar a festa de S. João dos Parques Infantis.

“Rio, 1-VI-40

D.ª Nini

Recebi sua carta ontem a noite. Creio que muito pouco posso lhe ajudar, assim como estou aqui longe dos meus livros e sem grande parte dos meus fichários. (...) E ainda por cima como o meu secretário, isto é, o Zé Bento, creio que está ainda de férias, em Santos, será difícil talvez a Sra. encontrar certos livros nas bibliotecas públicas. (...)”.

- Pág. 233: (Carta de Mário de Andrade para Paulo Duarte)

“S. Paulo, 15-VI-42

Meu Paulo,

São meia-noite e trinta, chego em casa e encontro a sua aérea. (...). Amanhã vou, se não conseguir congregar que é mais difícil, pelo menos telefonar a alguns amigos e botar o Zé Bento secretário à disposição deles. (...)”.

- Pág. 252: (Carta de Paulo Duarte para Mário de Andrade)

“New York, 1.10.42

Meu querido Mário:
Pois recebi aquela cartinha pesteada que você escreveu, às pressas, no dia 15 de setembro. (...).
Espero que agradeça também ao Zé Bento que tem sido maternal com os meus caprichos forçados. Diga a ele que procurarei pelo menos amortizar a dívida em tempo oportuno no Brasil ou aqui se ele precisar de qualquer coisa dos States.
(...)”.

- Pág. 311: (Carta de Mário de Andrade para Sérgio Milliet)

“Rio, 3-XI-38

(...).
Agora de-tarde recebi uma carta sua sôbre os dinheiros meus do Estado e os seus da Revista do Brasil. Muito obrigado pelos meus e vou tratar dos seus. Ainda não vi o que você publicou nela, mas se são seus versos, pelo que me conta o Murilo, creio que pagam cem mil reis que é o que recebo também pelas minhas crônicas. Não valerá a pena mandar dinheiro pelo correio, quando receber o devido, avisarei o quanto é pro Zé Bento, êle o entregará a você, do que tem de meu com ele.
(...)”.

- Pág. 319: (Outra carta de Mário de Andrade para Sérgio Milliet)

“Rio 8-V-39

Sergio

Aí vai seu artigo que saiu domingo. Amanhã quarta devo receber o seu dinheiro. O milhor a fazermos é você aí receber do José Bento cem milréis do Estado meus em troca dos seus que eu receberei aqui. Vou escrever amanhã ou depois (estou ocupadíssimo) ao Zé Bento sôbre isso. E assim faremos todos esses meses. (...)”.

- Pág. 324: (Carta de Mário de Andrade para Sérgio Milliet)

“Rio, 31-VII-39

Sérgio

Saiu ontem mais um artigo de você no Notícias e vou avisar o Zé Bento que lhe pague. Ele já pagou o outro?
(...)”.

- Pág. 325: (Carta de Mário de Andrade para Sérgio Milliet)

“Rio, 20-VIII-39

Sergio,

recebi sua cara, saiu hoje um artigo seu no Diário de Notícias, hoje é o primeiro dia que vivo um bocado depois de uma grupe formidável, acabei de almoçar... um ótimo vinho, e aqui estou com um ótimo conhaque, vamos a ver o que sai disto tudo. vou avisar o Zé Bento que lhe pague, mas não sei se tenho dinheiro (está um calor!) aí, se não tiver creio que você terá que esperar o primeiro do mês, com pagamento do estado, é possível? (...)”.

- Pág. 328: (Carta de Mário de Andrade para Sérgio Milliet)

“Rio, 15-IV-40

Sergio

Faz um calor... Essa história toda com o Estado de São Paulo me deixou numa bruta atrapalhação. Recebi uma carta, mal amanhada como sempre do meu destrambelhado secretário Zé-Betinho, dizendo que era sua opinião, de você, que deu deveria continuar mandando minhas colaborações pro jornal. Na veja bem meu caso: Principia pelo simples fato de o jornal ter diretor novo e não sei se ele quer ou não colaboração minha. (...)”.

- Pág. 335: (Carta de Mário de Andrade para Sérgio Milliet)

“Rio, 11-XI-40

Sergio:
Recebo agora a resposta do Luis Martins, mas que não responde a coisas essenciais sôbre o meu “caderno” azul. Sou obrigado porisso a lhe pedir estes esclarecimentos. (...).
Mas e o “urgente” me der espaço de um mês, já poderia acrescentar aos ensaios sobre folclore a documentação nova que ajuntei sobre os seus temas, depois de publicados.
Esta carta lhe será entregue pelo Zé Bento, e você responda a ele verbalmente essas três perguntas:
1 – Máximo de dias que tenho para entrega dos originais (Conforme o tempo optarei por uma por outra, das duas composições escolhidas por vocês).
2 – (...)”.

- Pág. 360 – última página da Carta Testamento, Testemunho, diário, desabafo, etc, etc, de Paulo Duarte a Mário de Andrada em 1970 – Final do livro:

“Rua Guarará, setembro, 1970

Mário:

Ontem foi um dia de saudade íntima. Sempre tenho dias de saudades de você, mas ontem, era diferente. Ela não veio atoa, sugerida por qualquer coisas que nos trocava, de repente, sem a gente esperar, como das outras vezes. Foi provocada. (...).

(...). Pág. 360:
“Almoçávamos ou jantávamos só, ou conversávamos sós ou com o Zé Bento, raramente com mais ninguém. (...). conversávamos só ou com o Zé Bento. (...)”.

Objetivo:

Sinceramente? Achei que na entrevista do Zé Bento ao Roniwalter Jatobá, Edsel Britto e ao Milton Andrade, ele agiu com simploriedade. Creio que o caráter do Zé Bento era ainda do rol de caráter que foi sucumbido pela sociedade moderna, onde não existe mais a fidelidade inerente da amizade e nem mais a liberdade de dois seres desfrutarem-se de um relacionamento mais íntimo e sincero, principalmente se levarmos em consideração o fato, como aqui, entre os dois, Mário e Zé Bento, um empregador e o outro empregado. Um relacionamento empregador e empregado, hoje em dia, normalmente termina com a presença de um terceiro elemento, um advogado ou um promotor. Zé Bento foi um secretário: compromissado, fidedigno, zeloso, discreto, responsável e amigo.
Independente da entrevista fui buscar passagens da vida do Mário onde a pessoa do Zé Bento aparece repentinamente e desvanece com a mesma rapidez. Iniciei por Paulo Duarte: “Mário por Ele Mesmo”. Nele, Paulo mostra facilmente que num determinado momento da vida do Mário, principalmente quando do seu exílio no Rio de Janeiro, o nosso queridíssimo Zé Bento manteve-se à frente, não apenas da guarda dos livros do Mário, mas sim, tomou postura compromissada sobre seus assuntos mais particulares, como por exemplo: o pagamento das dívidas, o recebimento de pagamentos de reportagens que Mário escrevia para os jornais, e até mesmo notificando a chegada de algumas correspondências que chegaram para o Mário. Isso ele fazia através de simples bilhetes, apenas mencionando que a carta enviada havia chegado ao destino, como fez com carta do Sabino para o Mário, que será narrado no decorrer deste texto.
Zé Bento, pelo menos para mim, lendo, pesquisando e procurando saber de mais detalhes, foi um daqueles homens “achados” pelo Mário. Não foi sorteado como num bingo onde o número que caiu da roleta era correspondente ao do Zé Bento. Refiro-me no sentido de “pessoa”, “ser humano”, que pela sua pouca idade quando Mário o chamou para trabalhar, teve sua formação, ou melhor, Mário completou o caráter do Zé Bento, sem muito estardalhaço, como um joalheiro preguiçosa e amorosamente lapida dia-a-dia uma pedra preciosa até transforma-se numa jóia raríssima e única. Pessoalmente, tenho essa idéia quando estudo Mário e o Zé Bento entra na história. E foi tão magnificente a atitude do Mário, que não permitiu que Zé Bento o visse morrer. Pode parecer, para alguns, que estou cometendo um excesso poético ou até pieguice, mas comparo a atitude do Mário em relação ao Zé Bento com a do meu pai, que permaneceu em estado de pré-coma durante 27 dias - e eu sempre ao seu lado. Bastou apenas alguns minutos até acertar o carro no estacionamento, quando voltei... ele já estava morto. Ou seja, segundo meus próprios princípios e deduções, Mário queria tão bem ao Zé Bento que não lhe permitiu participar dessa hora tão marcante e que provoca tristimania permanente, a hora da morte.
O Zé Bento serviu até mesmo como um “pombo correio”. Existe um bilhete da Oneyda Alvarenga ao Mário, provavelmente de dezembro de 1940, que implica Zé Bento como uma pessoa a quem se podia confiar, discretíssimo e que guardava segredo:

“Mário,
me faça o favor de ler a carta que escrevi ao Boggs (ela estava se referindo ao folclorista norte-americano Ralph Steele Boggs) sobre o caso do material folclórico e veja se está bem assim. (...). Me telefone dando a sua opinião ou, o que me parece melhor, escreva um bilhete e mande pelo Zé Bento. Abraços. Oneyda”.
(Cartas: Mário de Andrade – Oneyda Alvarenga. Editora Livraria Duas Cidades – 1ª Ed. São Paulo, 1983 – Pág. 303).

No livro Mário de Andrade – Cartas a Murilo Miranda: 1934/1945 – Editora Nova Fronteira – 1ª Ed. 1981, RJ., encontramos algumas passagens onde o Zé Bento é mencionado. Na página 67, um episódio fantástico: 27 de fevereiro de 1941, Mário escrevia uma longa carta para Murilo Miranda. De repente, Mário interrompe o assunto que dissertava e escreve:

“Interrompi a carta porque chegou a filharada, Zé Bento, Luís Sáia, tratar de negócios do Serviço do Patrimônio. (...)”.

Na página 70, desse mesmo livro, numa carta datada de 5 de março de 1941 ao Murilo, Mário é hilariante e sarcástico:

“Murilo meu, aqui vai carga pesada de coisas, tenha paciência comigo. Primeiro tenha paciência com o sr. meu secretário, este mui ilustre Zebetinho cabeça de água. Estive hoje arrumando as Acadêmicas e vi que o tal fez uma confusão danada, pediu números que eu já tinha e se esqueceu de dois números. Só me faltam agora os números 4 (quatro) e 5 (cinco)”.

Mais adiante, página 111, em carta datada de 29 de maio de 1942, Mário escreve:

“Murilo,
(...).
Porque você me mandou desta vez só dois números da Acadêmica? Eu distribuía sempre os que vinha ao Sáia, à Oneida, ao Zé Bento e outros que se interessam pela revista e a lêem todinha. Ou mande direto a eles ou me mais exemplares”.

Na página 150, Mário inicia uma carta a Murilo Miranda fazendo uma revelação, que achei importante cravar aqui, mesmo não tendo ligação direta com o assunto pauta deste texto, mas é uma revelação, pelo menos ao Murilo. Depois, nessa mesma carta, Mário refere-se ao Zé Bento, isso na página 151. Vejamos:

- Pág. 150:

“S. Paulo, 24-VII-43

Murilóide,
lhe escrevo à máquina, porque recebi a minha Manuela do conserto, aliás limpeza, e ela está que é uma felicidade. Manuela é a minha Remington, comprada nem sei mais quando ali por 1920 e que até agora está perfeitíssima. Se chama Manuela em honra do Manuel, meu maninho”.

- Pág. 151 – continuando:

“(...). O que sei por ele (Luís Sáia) é que serão poucos os colaboradores, pois não se trata duma homenagem apologética, mas dum estudo sobre mim. E os colaboradores, em que o próprio Sáia foi excluído, assim com o Zé Bento e a Gilda, foram escolhidos entre gente capaz de fazer crítica por já ter provado essa capacidade. E o que fez, e é certo que você não tem razão de se zangar, pense bem”.

- Págs. 169/170, do Cartas a Murilo Miranda, após descrever uma longa discussão, isso em carta datada de 31 de julho de 1944, Mário mostra-se por inteiro, apesar de contrariado, sempre preservou seus amigos mais íntimos, entre eles o Zé Bento:

“S. Paulo, 31-VII-44

Murilo
(...).
E si sei de alguma coisa, pois tudo foi organizado à minha revelia e continua sem nenhuma espécie de participação minha (basta dizer que na tradução de um só pensamento com terminologia técnica de folclore, no estudo do Roger Bastide, eu cheguei quando discutiam, mas propuseram a frase em francês, eu sabia como traduzir, mas me bateu uma tal vergonha que não pude dizer, me calei, que se arranjassem!) si sei do pouco e não prestada bem atenção ao que contavam, foi porque o Zé Bento, meu secretário, se recusou terminantemente a oferecer fotos e coisas da minha bibliografia, e com razão, pois era contra qualquer ética profissional. E daí foi a bagunça, uma semana detestável de discussões com os outros e comigo mesmo. E cada vez mais me arrependo de ter cedido (e si não cedesse, saía da mesma forma e está claro que eu não ia brigar com alguns dos meus melhores amigos, com que eu ficava então!) mas me arrependo”.

Finalizando a participação do nome do Zé Bento nas cartas de Mário a Murilo Miranda, na página 175, em carta datada de 27 de outubro de 1944, Mário deixa claro que Zé Bento estava fazendo falta, pois ele (Zé Bento) estava no Rio de Janeiro:

“S. Paulo 27-X-44

Murilo
(...)
Você pede resposta da carta anterior. Está claro que lhe mandarei cópia das cartas da Cecília sobre o caso da Rosa. Aliás creio que é só uma, a da recusa do nome. A seguinte é só uma notinha mandando o soneto. Mas o Zé Bento está no Rio, fazendo exames no Dasp, e as minhas cartas desde 41 não estão catalogadas, procurar é impossível, só ele mesmo quando chegar e reassumir o posto de secretário. A secretária que o substituiu não tem tempo, trabalha pouco e tem já serviço muito. Aliás estou nessa melancolia surda de precisar imaginando em ter um secretário mais cotidiano, que trabalhe mais horas para mim, é o diabo”.

No magnífico livro Mário de Andrade: Exílio no Rio, de autoria do jornalista carioca Moacir Werneck de Castro, Editora Rocco, 1ª Edição – 1989 – RJ, cuja capa estampa o óleo sobre tela de 1923, “Retrato de Mário de Andrade”, de Anita Malfatti – onde o autor relata o período do escritor Macunaímico no Rio de Janeiro, narra também duas passagens importantes sobre o Zé Bento na vida do Mário, como segue:

- Pág. 23, Primeira Parte “Exílio no Rio”, em Rotina Carioca:

“Providências de arrumação da casa encheram os primeiros dias do transplantado. Divertia-se comprando artigos domésticos, roupa de cama, travesseiro, talheres, vassoura, lata de lixo e o indispensável veneno contra baratas. Precisava mandar vir de São Paulo uns poucos móveis, livros (uma pequena parte da vasta biblioteca, o mais necessário), tapetes e objetos de decoração, para tornar habitável o apartamento. O secretário José Bento Faria Ferraz, o Zé Bento, ia anotando de lá as remessas. De uma vez foram mandados sete quadros (os que mais gostava, entre os quais o seu retrato por Segall e A Família do Fuzileiro Naval, de Guignard, e a Colona, de Portinari), duas estatuetas, uma dúzia de copos de cristal, uma máquina para banhos de luz, cinco almofadas, um pijama de seda”.

Já no final desse mesmo livro, foram editadas algumas cartas que Mário, após retornar do Rio, escrevera para o Moacir Werneck de Castro. Não consegui “ainda”, descobrir se algumas dessas cartas foram manuscritas e o Zé Bento datilografou ou foram ditadas pelo próprio Mário para que o Zé Bento datilografasse diretamente. Mas existe uma, datada de 11 de março de 1944, parece-me que teve a participação do Zé Bento, como pode ser verificado no final da carta, onde consta uma observação do Zé Bento. Essa carta é longa, onde Mário não deixa de dar algumas broncas, mas inicia a carta homenageando o jornalista:

- Pág. 219:

“S. Paulo, 11-III-44

Mohacir (com h aspirado)

O h vai em homenagem aos seus 29 anos, puxa como você está velho! E envelhecido, talvez caducando. Pelo menos quando diz e garante na sua carta que não sido mesquinho nem sectário no que tem escrito sobre o assunto em relação à literatura”.
(...).

No final dessa carta (Pág. 221), aparece a seguinte descrição logo abaixo da assinatura do Mário:

“O Mário manda avisar que vai na Semana Santa pro Rio.
Zé Bento”


No Livro: “Remetente: Mário de Andrade – Destinatário: Fernando Sabino – Cartas a um Jovem Escritor – Editora Record – 3ª Ed. RJ – 1981 – Pág. 120, está editada uma mini-missiva, ou um bilhete, Zé Bento para Fernando Sabino:

“S. Paulo, 2 de maio de 1944

Sr. Fernando Sabino

Em nome de Mário de Andrade, acuso o recebimento de “A Marca”, e comunico-lhe que o mestre segue para o Rio, no primeiro avião de sábado, da VASP.
Pede-lhe o favor de ir esperá-lo no aeroporto.
Cordiais Saudações
José Bento Faria Ferraz
Secretário – Part”.

Outra interferência do secretário Zé Bento no trabalho do Mário de Andrade, está descrito no livro A Lição do Guru (Cartas de Mário de Andrade a Guilherme Figueiredo – 1937-1945) – Editora Civilização Brasileira – RJ – 1ª Ed. 1989. Na Pág. 29, uma pequeníssima missiva de Zé Bento a Guilherme Figueiredo:

“S. Paulo, 15,3,941

Sr. Guilherme Figueiredo

Escrevo-lhe em nome de Mário de Andrade para solicitar de V.S. o envio de um exemplar com dedicatória, fechado, de seu romance ’30 anos sem paisagem’, para figurar em sua biblioteca, ao lado do exemplar aberto.
Caso seja possível, é favor manda-lo para sua residência em S. Paulo, à rua Lopes Chaves, 546.
Subscrevendo-me cordealmente, apresento-lhe meus cumprimetos,

José Bento Faria Ferraz
Secretário Particular

Uma observação importante que encontrei nas pesquisas: Zé Bento não foi apenas um secretário e guarda-livros de Mário. Existe uma narrativa de Flávia Camargo Toni, organizadora do livro A Música Popular Brasileira na vitrola de Mário de Andrade – Sesc-Senac-SP, com apoio do IEB – 1º Ed. 2004, na pág. 26, que mostra a eficiência e a eficácia de Zé Bento na execução dos seus trabalhos para com Mário de Andrade, acompanhando o mestre desde os seus primeiros movimentos após o despertar:

“O professor José Bento Ferraz, que, na juventude, foi aluno e secretário de Mário de Andrade, lembra-se do mestre, quando feliz, principalmente no tempo fecundo do Departamento de Cultura, cumprindo uma espécie de rito matinal. Acordava cedo e, ao se barbear, colocava um disco na vitrola. O secretário punha-se ali aguardando o início das tarefas e, às vezes, podia observá-lo fazendo anotações nas capas de seus discos”.

CONCLUSÃO:

Para concluir esse pequeno e simples estudo sobre o professor, secretário particular e amigo de Mário de Andrade, José Bento Faria Ferraz, o Zé Bento, não poderíamos de deixar de inserir sua participação na composição dos álbuns de recortes da coleção jornalística do Mário. Dois álbuns pretos cobrem o período de 1918-1935 e o segundo deles, rotulado por seu dono “Recortes IV”, reúne a maior parte das crônicas que publicou no Diário Popular, tem início com “Táxi”, em abril de 1929 a 10 de julho de 1932. Como afirma em depoimento o professor e secretário Zé Bento, os álbuns de Mário foram organizados em dois períodos ou momentos. Primeiro, as crônicas dispostas segundo sua rigorosa cronologia e caprichosamente coladas, seria trabalho do próprio cronista entre 9 de abril de 1929 a 13 de dezembro de 1931, provavelmente realizado par e passo com a publicação e cobrindo as 101 páginas do álbum. A seguir, uma interrupção de três anos e a segunda etapa que tem início em 1935, quando José Bento, torna-se secretário particular de Mário. É um jovem ainda sem experiência; vai colando os recortes à medida que aparecem, sem critérios de classificação. Então, o conjunto de crônicas do “Diário Nacional” sobre, em Recortes VI, um entremeio de críticas de arte e entrevistas, oriundas de outros periódicos entre 1933 e 1935, dispostas fora de ordem cronológica.


QUEM FOI JOSÉ BENTO FARIA FERRAZ?

José Bento Faria Ferraz nasceu em Pouso Alegre, Minas Gerais, em 30 de outubro de 1912 e faleceu em 17 de março de 2005, em São Paulo. Atuou pelo Departamento de Cultura de São Paulo, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Teve ainda destacada participação como professor da Escola de Artes Plásticas de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, entre os anos de 1960-1970. Articulista de diversos jornais e revistas, deixou significativa contribuição como ensaísta, poeta, cronista e historiador.

DEPOIMENTO DE ZÉ BENTO SOBRE MÁRIO DE ANDRADE

(Parte do depoimento de José Bento Faria Ferraz sobre o Movimento Modernista em 1922, quando se comemorava o Cinqüentenário da Semana de Arte Moderna)

(...)
No que se refere especificamente a Mário de Andrade, seu papel no Movimento foi amplo, vanguardeiro, consciente e deliberado, com vistas a imprimir novos rumos ao estudo dos problemas ligados ao nacionalismo cultural, concebido a cultura numa significação larga que abrangesse a Sociologia, a Etnologia e Etnografia. Com esse propósito ele desenvolverá uma pesquisa admirável no sentido de valorizar as manifestações culturais da alma popular. O sentido nacionalístico da obra andradiana constitui um tema complexo, cuja abordagem requer uma reflexão, que escapa ao objetivo deste depoimento. Não é de hoje que, em sentido amplo, os críticos e ensaístas literários se debruçam sobre esse tema caracterizador de uma literatura. (...). Ao analisar a obra andradiana é preciso enfocá-la não somente no âmbito do quadro dos princípios estéticos que presidiram à formação intelectual de seu autor, mas principalmente no que ele entendia como literatura utilitária, pois seu pensamento básico era de que a arte tinha que servir.
Foi um homem determinado e de princípios éticos. Voluntarioso, consciente da obra que tinha a realizar, confessa em um de seus poemas:
“E enropei de acerba seda o arlequinal do meu dizer”, exclamando a seguir: “Eu fiz de minha vida um rasgo matinal”, e em tom profético: “sou daqueles que sabem o próprio futuro/ E quando a arraiada começa, não solto as rédeas do dia/ não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades”, confessando finalmente a Carlos Drummond de Andrade: “Sei o que quero, sei o que faço e pra onde vou”, isto porque: “Eu trago na vontade todo o futuro traçado”.
Este saber querer e fazer contrariando toda glória fácil, é uma constante que centraliza o ponto de partida de sua vasta produção intelectual, toda ela dirigida no sentido de dar uma identidade ao Brasil, e que passa a ser o fio condutor de toda sua obra expresso em suas palavras ditas em 1924: “Nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo o sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá felicidade”. E, para dar essa alma a seu País, Mário de Andrade deformou sua obra de maneira consciente e resoluta e de “camisa aberta ao peito” enfrenta todas as incompreensões e dificuldades, pois tinha aquela convicção expendida mais tarde por Roger Bastide, a de que “é sempre difícil abandonar preconceitos e etnocentrismos”, principalmente se levarmos em conta o meio provinciano e acadêmico da São Paulo de 1922.
Assim aparelhado e fortalecido, parte em busca dos princípios primordiais responsáveis pela formação da alma nacional. E ao justificar seu trabalho de pesquisador e coletor das riquezas populares, traduzidas nos cantos e na poesia popular, nos instrumentos, nos ex-votos, observa: “Recolhendo e recordando estes cantos, muitos deles tosquíssimos, precários às vezes, não raro vulgares, não sei o que me segredam, que me encho de comoções essenciais e vibro com uma excelência tão profundamente humana, como raro a obra erudita pode me dar. Não sei que apelo tradicional me leva, que coincidência de afeto, de corpo, de esquecimento de mim; sei, mas é que em vão reconheço este e outro defeito nos cantos. Eles me comovem mais que nada e eu me identifico com eles, numa Einfuhlung perfeitíssima. Necessária. Como devem ser necessários todos os nossos gestos humanos”. Nestas palavras graves, responsáveis, eu vejo, eu adivinho, eu amo, toda uma plataforma de ações que Mário de Andrade desenvolverá através da Discoteca que irá criar. É essa comunhão perfeitíssima e necessária com a alma popular que faz com que ele entenda e admire e ame o som rústico de um violino, feito por um instrumentista do sertão nordestino, o canto aberto e rasgado, cheio de síncopes e de neumas dos catimbós e dos cocos, da voz plena e vibrante e ligeirinha de seu maior amigo, o coqueiro Chico Antonio, pois “do fundo das imperfeições de tudo quanto o povo faz, vem uma força, uma necessidade que, em arte, equivale ao que é a fé em religião”. Isso é que pode mudar o pouso das montanhas. Justamente esta força profunda, inconsciente do canto popular, a meu ver, advém do caráter sagrado que o povo imprime em suas relações mais puras com as forças superiores da vida, com entidades divinas em que acredita. Tudo para o povo é puro, tudo é para ele uma hierofania, como nos ensina Mircea Eliade, uma manifestação de realidades sagradas. E é isto que nós, com a empáfia de letrados, de civilizados brancos não entendemos, dando de ombros, com desprezo, para estas manifestações que são mensagens mais puras, água da fonte que escorre cristalina do inconsciente coletivo dos tempos imemoriais.
(...).
Sua obra toda guarda um parentesco íntimo com a alma popular, onde o pensamento ilógico – que é sempre lógico na ótica das camadas populares iletradas – constitui a base de suas manifestações, de suas metáforas, de seu simbolismo. Mesmo o “brilho inútil das estrelas”, caracterizador de Macunaíma tem um sentido profundo, de uma lógica não cartesiana que necessita ser entendido e examinado seriamente, extirpando dele quaisquer traços anedóticos e superficiais, pois para a alma popular tudo tem um fundo religioso de verdade, de beleza e de amor.
Mário de Andrade parte para sua aventura, para a sua viagem maravilhosa em busca do Brasil, onde num trabalho arqueológico, estuda, à exaustão, a literatura colonial à procura dos traços primeiros de nossa formação como povo. Busca no Romantismo essas constantes e continuando a aventura se lança de corpo e alma na colheita e análise dos fatos populares. (...).
Toda a obra de Mário de Andrade é um vasto “livro de amor”, por isso que imprimiu indelevelmente nela a marca de sua sensibilidade, de seu espírito crítico apaixonado. Tudo o que fez foi feito com paixão em busca das raízes profundas de nossa nacionalidade.
Sua obra vasta e complexa deverá ser analisada com rigor, dentro de um espírito crítico construtivo, pois o escritor foi um escritor difícil – como uma vez se definiu – sem concessão ao epidérmico, ao gozo fácil. Seu pensamento é caprichoso, denso por demais, marcado por decorrências temáticas, ora de fundo harmônico constituído de acordes lindíssimos, ora melódicos em que a linha toma aspectos tempestuosos e conflitantes, em dado momento, em outro, segue plácida e lírica feito água de nascente. E, ainda por vezes, toma o jeito de uma escritura polifônica de espírito contrapontístico em que as vozes, os temas, se sucedem, se chocam, dialogam entre si, lembrando uma tocata e fuga de seu grande mestre Johann Sebastian Bach, aquele mesmo Bach que no pequeno órgão de Mário, localizado junto à janela de seu estúdio, pacificava-lhe a alma cheia de morte, de morte, de morte, esta morte que desejava amar com o mesmo engano com que amou a vida... Torna-se necessário ir a fundo no pensamento andradiano, para usufruir de suas riquezas e citando Lanson, a propósito de Rabelais, digo, faz-se mister “quebrar o osso” dessa obra ampla e generosa de Mário de Andrade, a fim de sugar o que ela tem de mais substancial, de mais íntima, à procura do sentido universal e misterioso que ela oculta, toda metáfora e sutileza. E beleza. E quem for em busca desse sentido,encontrará uma paixão ardente e irrefreável de Mário de Andrade pelas manifestações da alma popular densa de mistério, de religiosidade, de riqueza interior e de amor.

FONTES DE PESQUISA:

– ANDRADE, Mário. Táxi e Crônicas no Diário Nacional – Estabelecimento de Textos, Introdução e Notas de Telê Porto Ancona Lopes – Editora Livraria Duas Cidades, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976 – SP;
– ANDRADE, Mário. Cartas a Murilo Mendes (1934/1945) – Editora Nova Fronteira – 1ª Ed. 1981 – SP.;
– ANDRADE, Mário. A Lição do Guru (Cartas a Guilherme Figueiredo) – 1937/1945 – Editora Civilização Brasileira – 1ª Ed. 1989 – RJ.;
– ANDRADE, Mário. Cartas a Um Jovem Escritor – Remetente: Mário de Andrade; Destinatário: Fernando Sabino – Editora Record – RJ, 3ª Ed. 1981;
– ANDRADE, Mário e ONEYDA Alvarenga. Cartas. Editora Livraria Duas Cidades – SP, 1ª Ed. 1983;
– D.O. LEITURA (13/149) – São Paulo/Outubro de 1994 – Págs. 13/14 – Matéria organizada por Luiz Toledo Machado – Doutor em Literatura Brasileira da USP), Depoimento de José Bento Faria Ferraz;
– DUARTE, Paulo. Mário de Andrade Por Ele Mesmo – Editora Hucitec, Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977 – SP. – Segunda Edição corrigida e aumentada, com prefácio de Antônio Cândido;
– REVISTA MEMÓRIA - Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo – São Paulo. 1992;
– TONI CAMARGO, Flávia (Org). A Música Popular Brasileira na Vitrola de Mário de Andrade – Ed. Sesc – Senac – SP – 2004, com apoio do IEB – Instituto de Estudos Brasileiros;
– WERNECK DE CASTRO, Moacir. Mário de Andrade – Exílio no Rio. Editora Rocco – RJ. 1ª Ed. 1989.


(Luiz de Almeida: Estudo efetuado para as Oficinas Literárias da Exposição Retalhos do Modernismo – 2008)