sábado, 14 de junho de 2008

O MANIFESTO DO TRIANON - OSWALD DE ANDRADE, EM 09 DE JANEIRO DE 1921

Recebi vários e-mails solicitando a postagem do Manifesto do Trianon - O Discurso de Oswald de Andrade, realizado no dia 9 de janeiro de 1921 e editado no "Correio Paulistano", na edição do dia seguinte, que resolvi editá-lo na íntegra, observando exatamente a escrita original. Então:

O MANIFESTO DO TRIANON


O Grupo dos Cinco, já em 1921, ou o Grupo Modernista – ou futurista como então era chamado, e que, às vezes, a sim próprio assim se denominava – está não somente composto, mas coeso e unido, e representa já uma força nova dotada de consciência.
É chegado o momento, portanto, de declarar, publicamente, a sua existência, e o que importa mais, de revelar a disposição em que se encontra pra a luta, que sabe vai ser árdua. é a hora de romper as hostilidades não mais isoladamente, escrevendo, ora um ora outro, especialmente Oswald de Andrade e Menotti Del Picchia, artigos na imprensa, para falar, de maneira genérica, da arte nova, ou fazer referências, nem sempre precisas, aos seus cultores entre nós. Faz-se necessário divulgar o que se está realizando ou planejando nesse sentido. É indispensável, agora, teorizar, doutrinar, granjear prosélitos, polemizar, provocar, arrogantemente, a gene do outro lado. É fundamental que os novos deixem marcada a sua posição divisionista. Impõe-se, enfim, a ruptura, que, de fato, já se deu, mas que urge seja agora declarada como atitude de um grupo, proclamada como resolução de uma coletividade de escritores e artistas.
Isso ocorre a 9 de janeiro de 1921, por ocasião de um banquete oferecido a Menotti Del Picchia no Trianon – local de onde, também em banquetes, eram lançados os candidatos ao governo paulista ou nacional – e cujo pretexto é a publicação de “As Máscaras” numa edição luxuosa ilustrada por Paim. Estão reunidos nessa homenagem políticos, escritores da velha guarda, gente das finanças e da alta sociedade, e “meia dúzia de artistas moços de S. Paulo”. Muitos são os oradores nesse dia, e, entre eles, Oswald de Andrade, quer fala em nome dos dissidentes ao entregar ao poeta homenageado a sua máscara esculpida por Brecheret. Esse discurso assume foros de manifesto e nele o seu autor fez questão de acentuar a posição divergente do grupo modernista em meio aos que festejam Menotti Del Picchia, muito embora, como os demais, o louvem. Mas louvam-nos como um integrante do grupo e, de certa maneira, Oswald de Andrade chama o poeta de “Juca Mulato” às suas responsabilidades para com a nova geração, que o tem, aliás, como “o seu mais vistoso padrão”.
Então, assim discursou Oswald de Andrade, no famoso
DISCURSO DO TRIANON:


Menotti Del Picchia.
Uma voz quase pessoal a minha, que vem dizer o mesmo louvor coletivo da festa que te fazem, apenas numa tecla de sonoridade diferente, por querer completar a homenagem aqui afirmada de políticos e poetas, de amigos certos e admiradores permanentes, com a adesão diversa de um grupo de orgulhosos cultores da extremada arte de nosso tempo. É um restrito bando de formalistas negados e negadores que se juntam e se desfazem e permanecem no espírito de mútua eleição que se criaram para gozo próprio e virtude, quem sabe, da cidade tumultuária que os abriga.
Fazendo valer a sua vitória íntima sobre o adverso triunfo dos demais, os teus amigos estranhos trazem-te hoje, com o incenso efusivo de uns, e o outro ridente de outros, a mirra prenunciadora de martírios fecundos, a portadora inexorável de dádivas tristes.
Porque não podíamos deixar como hão deixaram Benjamim, em terra estranha, os irmãos comovidos da Bíblia. Tu és nosso, em meio das aclamações que não temos, tu és nosso, junto às bandeiras que ignoramos, tu és nosso sobre os troféus que não erguemos.
E quando excessiva pareceria a presença da gente de tua íntima clã, pois que ela em ti arvorou o seu mais vistoso padrão, ei-la, entanto que se reúne, e junta e alvoroça e congrega para que com os galardões te seja entregue também a máscula insígnia das responsabilidades que te esperam.
Sim, é para te lembrar a força que trazes no teu bojo prenhe de obras-primas e te sagrar para combates mais vivos, que vimos assegurar-te guarda de honra no tumulto desta consagração de alta popularidade.
Venha talvez chocar, senhores, esse tinir de armas heroicamente arengadas em pacífica consagração literária, mas nós, que arrogantemente subimos os espantosos caminhos da arte atual, por força havemos de trazer, como soldados em campanha, um pouco do nosso farnel de assaltos. Somos um perdido tropel na urbe acampada em território irregular e hostil, e, como ela, temos a surpresa dos acessos e a abismada contorção das alturas.
Falo em nome de meia dúzia de artistas moços de S. Paulo e daí o meu cálido orgulho incontido.
S. Paulo, neste instante em que o eixo da vida de pensamento e de ação parece deslocar-se num milagre lento e seguro para os países descobertos pela súplica das velas européias, partidas como num pressentimento de fim, par a busca de Canaãs futuras, S. Paulo é a continuada promessa dos primeiros escolhos verdes em que bateram, numa festa, as antigas proas cansadas.
Estamos no Trianon, devassando a cidade panorâmica no recorte desassombrado das suas ruas de fábricas e dos seus conjuntos de palácios americanos. É a cidade que, nas suas gargantas confusas, nos seus desdobramentos infindáveis de bairros nascentes, na ambição improvisada das suas feiras e na vitória dos seus mercados, ulula uma desconhecida harmonia de violências humanas, de ascensões e desastres, de lutas, ódios e amores, a propor, às receptividades de escol, o riquíssimo material das suas sugestões e a persuasão imperativa das suas cores e linhas.
S. Paulo é já a cidade que pede romancistas e poetas, que impõe pasmosos problemas humanos e agita, no seu tumulto discreto, egoísta e inteligente, as profundas revoluções criadoras e imortalidades.
Toma, pois, um sentido de investidura a nossa participação na tua festa, ó irmão cumulado de abençoadas farturas.
Vemos em ti o milagre da salamandra, que a glória não queima.
A tua resistência de predestinado já a cantaste na avançada tenaz da gente de Moisés pela sáfara paisagem dos ambientes de contraste.
E para que continues a marcha sobranceira no deserto de Rifidim e prossigas a cada apelo angustiado da sede que te agita, numa construção ciclópica de miragem, e avances na maravilhada descoberta do teu próprio eu, que porás nas areias, refletindo em desperdícios de riquezas vagas e imensas, vimos assegurar-se nessa dolorosa viagem da crença a calma companhia vigilante e profunda dos teus irmãos.
Examina a máscara que te trazemos em bronze. Ela é a sintética marcação das tuas forças mentais. Produziu-a de ti a mão poderosa e elucidadora de Victor Brecheret que, com Di Cavalcanti, Anita Malfatti e esse maravilhoso John Graz, ultimamente revelado, afirmou que a nossa terra contém no seu ignorado cadinho uma das mais fortes, expressivas e orgulhosas gerações de supremos criadores.
E se S. Paulo pode neste dia fazer a tua festa e te ofertar nessa festa esta obra-prima, é porque S. Paulo atingiu a primeira quietação de uma etapa vencida. Daqui, para diante!
Celebrando a festa dos oásis, os teus amigos de clã não fogem à efusão das palmas agitadas pelos outros.
E, no conjunto de aclamações que te cerca, eles põem a nota da sua invencida sinceridade.
Amanhã, no prosseguimento das areias mudas e adversas, eles irão contigo:
“Para ter que aspirar e perseguir o incerto
Sonho eterno e
ideal da Terra Prometida”.(1)

Nota: Esse discurso foi editado no “Correio Paulistano”, de 10 de janeiro de 1921. Do Grupo modernista, estão presentes à reunião, além de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Victor Brecheret, Armando Pamplona (que será um dos pioneiros do documentário cinematográfico brasileiro), René Thiollier e Mick Carnivelli. Os versos citados por Oswald de Andrade são do poema “Moisés”, final do Canto IV, “A Idolatria”.

FONTE DE PESQUISA:
_ Brito, Mário da Silva. História do Modernismo Brasileiro - Antecedentes do Modernismo Brasileiro - Editora Civilização Brasileira - RJ - 5ª Ed. 1978 - págs. 179-183.