terça-feira, 21 de julho de 2009

GUILHERME DE ALMEIDA: O LITERATO ECLÉTICO

EX-LIBRIS DE GUILHERME DE ALMEIDA

O ECLETISMO DE

GUILHERME DE ALMEIDA

(Luiz de Almeida)


Quando estudamos a biografia de alguém, normalmente tomamos conhecimento dos seus feitos, das suas qualidades e qualificações. Ao estudarmos a de um literato, obviamente saberemos se: poeta, romancista, contista, cronista, etc. Muito bem.
Como já mencionado nas duas postagens anteriores, o RETALHOS DO MODERNISMO, optou para, neste mês de Julho, editar postagens sobre o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”: GUILHERME DE ALMEIDA. E, devido a quantidade de material sobre o referido Poeta, tornou-se tarefa difícil a escolha da “matéria” ideal para postagem, pois algumas muito longas, outras por não possuir referências, outras por ser demasiadamente acadêmicas e repetitivas, outras por serem de conhecimento público – fato esse que desviaria do objetivo do Blog, que é o de procurar trazer sempre algo de novo, pelo menos na Net. E, seguindo esse objetivo, o Blog traz um texto guilhermino inédito na Internet: “Do Sonho”.
Os admiradores de Guilherme de Almeida sabem que ele não foi somente poeta. Advogado, promotor, comendador e soldado Constitucionalista, Guilherme de Almeida, duas vezes acadêmico, foi também: jornalista, tradutor, cronista, redator, crítico, compositor, orador, desenhista, ilustrador, heraldista, numismata, vitralista, arborista, etc. Não sendo necessário mencionar mais nada, eis o texto do nosso Poeta, mantida a grafia original:


DO SONHO


Alguém me disse, certa vez, faz muito tempo:
- Se me fôsse possível escolher o meu destino, eu escolheria a trajetória luminosa de um sonhador.
No princípio, estranhei, não aprovei a idéia, que me pareceu esdrúxula nos lábios da quase-criança que a pronunciaram. Depois pensei e dei razão à pequena sonhadora.
O sonho é ainda a única realidade porque é a mais irreal, a única verdade, porque é a mais inverossímil; a única utilidade, porque é a mais inútil.
Lembro-me bem, lembro-me sempre do “ex-libris” que compôs, um dia, para seu delicado uso e fino gôzo, uma alma delicada e fina de mulher. O desenho evocava um caule longo e felpudo de papoila sonorífera, com uma daquelas estranhas cápsulas de que se extrai o ópio que faz sonhar; uma última pétala desprendida esvoaçava, caindo. E a divisa dizia:- “Somnium extat”. O Sonho fica. É verdade. Tôda a futilidade leviana voou no vento; só aquela cápsula, que continha o sonho, ficou.
E lembro-me também, lembro-me sempre daquele instante bíblico, quando os invejosos irmãos de José do Egito ajustaram a morte do visionário, do intérprete dos sonhos de Faraó; e o esperaram numa sombra, e disseram quando êle apareceu na distancia: - “Eis, ai vem o sonhador, matemo-lo!” De tôda essa irmandade abundante no tempo e no espaço, e mesclada e incrédula, só José ficou e ficará na lembrança admirada dos homens.
E lembro-me, afinal, lembro-me sempre de mim mesmo, do relampago inútil e frívolo e efêmero de um sonho, que ficou clareando, que está clareando tôda a útil e séria e longa noite de uma vida...


Guilherme de Almeida


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FONTE:
- ALMEIDA, Guilherme de. Crônica. Revista da Academia Paulista de Letras, São Paulo, nº 48, 12 de dezembro de 1949 – p. 5.