domingo, 20 de julho de 2008

"O HOMEM DO POVO" - OSWALD DE ANDRADE E PAGU

"O HOMEM DO POVO":
O PASQUIM DE
OSWALD DE ANDRADE
E
PATRÍCIA GALVÃO (PAGU)



INTRODUÇÃO (POUCO NECESSÁRIA, MAS...)


Como simples cidadão mortal, ex-professor de Eletricidade e de Desenho Técnico, ex-projetista de linhas de transmissão e distribuição de energia elétrica (com o “ex” já define que estou e sou aposentado), tenho uma biblioteca. Por ser doméstica e de um “ex” pessimamente remunerado funcionário de uma das empresas do Grupo Votorantin, até que minha biblioteca é respeitável (atualmente com mais de 3 mil volumes). Logicamente só com obras que me interessam e que o meu degustar literário exige. Assim como tenho obras raríssimas, também tenho aquelas porcarias que às vezes são compradas numa banca de revista de rodoviária para “tentar” serem lidas durante uma viagem. Orgulhosamente não tenho nenhuma anti-obra do paulo Coelho e nem da A Gata-triste. E, como apaixonado pelo Modernismo procuro, de acordo com as poucas sobras financeiras de final de mês, ir adquirindo obras Modernistas, tanto dos literatos como dos artistas plásticos – não deixando nunca de buscar pelas obras dos pesquisadores, historiadores e mestres da literatura (não vou citar nenhum nome, pois corro o risco de deixar a impressão de que só gosto destes e não daqueles). Mas... estou prefaciando toda essa minha paixão, somente para dizer que não consegui até hoje um exemplar da edição fac-similada do “O HOMEM DO POVO”, lançado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - em 1985 saiu a 2ª Edição com a belíssima Introdução de Augusto de Campos. Isso deixa minha biblioteca parecendo exatamente comigo: pobre.
No mês passado, numa das visitas na Biblioteca Municipal da minha querida Piraju, encontrei um exemplar do O HOMEM DO POVO, doado pelo grandioso e querido Diretor Teatral, Sr. Márcio Aurélio Pires de Almeida – que orgulhosamente posso dizer: é um Pirajuense e meu parente. Sem nenhum vacilo assinei o livro de empréstimo e, cuidadosamente: li, reli e iniciei a digitação de tudo que nele existe, hora rindo muito das colocações e palavras utilizadas por Oswald e Pagu, hora imaginando os dois datilografando as matérias e lendo para o outro pedindo opinião e, logicamente, os dois “rachando o bico” de tanto rirem. Pode até ser que algum novo leitor do RETALHOS DO MODERNISMO venha pensar que sou um fanático, um babaca e sei lá mais que termos podem me classificar... Mas, como diz o ditado caipira: “uns gosta dos zóios e otros da raméla” – para mim é uma satisfação imensa poder estar falando sobre o O HOMEM DO POVO e postando a matéria que segue, pois ela chega a provocar orgasmo mental – pelo menos naqueles que estudam o Modernismo ou admiram Oswald e Pagu ou ainda: naqueles que estão “mentalmente” ativos.
(Luiz de Almeida)


ANTECEDENTES DO “O HOMEM DO POVO”

Em 1931, Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, vão a Montevidéu para um encontro com Luís Carlos Prestes que estava exilado por lá. Apenas para ilustrar o texto, um resumo rápido da vida política de Luís Carlos Prestes:

“Nasceu em Porto Alegre em 1898. Foi político e militar. Liderou o PC – Partido Comunista no Brasil por mais de 50 anos. Em 1922, participou do movimento tenentista contra o governo de Artur Bernardes. Em 1924, liderados por Prestes, a oposição militar brasileira criaram a famosa “Coluna Prestes”. Em 1927, depois de muito caminhar pelo território nacional, Prestes exilou-se na Bolívia, onde teve o primeiro contato com as ideologias do Partido Comunista (PC). Da Bolívia, Prestes foi para a Moscou onde converteu-se definitivamente à ideologia marxista. Retornou clandestinamente ao Brasil em 1935, casado com a alemã e comunista Olga Benário. O objetivo de Prestes era concretizar o PC no Brasil. Após liderar o fracassado golpe conhecido como Intentona Comunista, Preste foi preso e exilado. Sua mulher, embora grávida, foi mandada de volta para Alemanha, onde morreu num campo de concentração nazista. Prestes continuou sua luta em prol do PC. Foi anistiado, preso, exilado, anistiado, preso e exilado... Em 1979, com a anistia, Prestes retornou ao Brasil, mas o PC brasileiro já estava fracassado e, no final da vida, Prestes afastou-se definitivamente do PC. Faleceu em 1990”(Fonte: Nova Enciclopédia Ilustrada Folha de S. Paulo – Vol. 2 – pág. 795).

Voltando as atenções para Oswald e Pagu, esse primeiro encontro do casal com Luís Carlos Prestes, foi comentado por Oswald de Andrade como o ponto de partida para que ele deixasse de lado (encerrasse com prazer) as idéias modernistas de 22 e aderisse às causas do proletariado. Vera M. Chalmers, no livro: “3 linhas e 4 verdades – o jornalismo de Oswald de Andrade – Livraria Duas Cidades – SP, 1976 – p.149”, narra esse comentário e essa mudança de postura de Oswald de Andrade:

“(...)Encontrei-o em companhia de Silo Meireles. E, durante o nosso primeiro encontro, vi que aquele capitão do exército era um intelectual, cheio não só de cultura política, mas de cultura geral. O seu conhecimento das doutrinas sociais era completo. Conversei com ele três noites a fio nos cafés de Montevidéu. E dede aí toda a minha vida se transformou. Encerrei com prazer o período do Modernismo. Pois aquele homem me apontava um caminho de tarefas mais úteis e mais claras. Desde então se já era um escritor progressista que tinha como credenciais a parte ativa tomada na renovação da prosa e da poesia do Brasil desde 22, pude ser esse mesmo escritor a serviço de uma causa, a causa do proletariado que Prestes encarnava. Pude caminhar com homens como Jorge Amado, como Aníbal e Dionélio Machado, como Oswaldo Costa, Álvaro Moreyra e Aparício Torelli. Com Prestes aprendi muito naquelas conversas de café em Montevidéu.”
OSWALD FUNDA O JORNAL
“O HOMEM DO POVO”
Retornando ao Brasil, Oswald e Pagu filiam-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Militando no partido, Oswald funda e dirige o jornal “O HOMEM DO POVO”, em março de 1931. Augusto de Campos, na Introdução do “O HOMEM DO POVO” – Coleção completa e fac-similar do jornal criado e dirigido por Oswald de Andrade e Patrícia Galvão (Pagu), 2ª Ed. SP. 1985, editado pela Imprensa Oficial do Estado S.A. IMESP – Divisão de Arquivo do Estado de São Paulo, pág. 10, descreve a criação do Jornal:
“(...).
O Homem do Povo, lançado em 1931, é um registro da fase mais sectária e “engaée” da atuação política de Oswald e Pagu, numa primeira postura de adesão quase que incondicional às “verdades” partidárias e ao proselitismo do PC.
Trata-se de um jornal panfletário, de um assumido pasquim político, que teve curtíssima duração – apenas 8 números. Em formato tablóide, 48 x 34 cm, com 6 páginas e títulos desenhados em letras “art déco”, a publicação apresentava como editor Álvaro Duarte e como secretários Pagu e Queiroz Lima, sob a “direção do homem do povo”. Oswald assinava os editoriais, que também apareciam com a rubrica de “O Homem do Povo”. A sede da redação ficava no Palacete Rolim, à Praça da Sé n.º 9-E.
Programado para circular às 3.ªs, 5.ªs e sábados, conforme se lê no anúncio da última página do número 2, o jornal teve as seguintes publicações: n.º 1 (sexta-feira, 27 de março); n.º 2 (sábado, 28 de março); n.º 3 (terça-feira, 31 de março); n.º 4 (quinta-feira, 2 de abril); n.º 5 (sábado, 4 de abril); nº 6 (terça-feira, 7 de abril); n.º 7 (quinta-feira, 9 de abril); e n.º 8 (segunda-feira, 13 de abril). Paradoxalmente, o povo não leu “O Homem do Povo”. Leram-no alguns intelectuais, os estudantes de Direito... e a polícia, que acabaria proibindo a sua circulação após a ocorrência, nos dias 9 e 13 de abril, de graves acidentes, que tentaram por duas vezes empastelar o jornal por causa de dois editoriais considerados ofensivos à tradicional Faculdade do Largo de São Francisco. (...)”.
Todo tumulto que culminou no fechamento do jornal “O Homem do Povo”, foi iniciado após o primeiro editorial escrito por Oswald de Andrade na edição n.º 7, de 9 de Abril de 1931, com o título “as angustias de piratininga”, conforme pode ser lido a seguir, na íntegra e sem alterações na escrita original:AS ANGUSTIAS DE PIRATININGA

Precioso e ridículo, como literatura política, nullo de visão social, fechado no mais estreito e pífio provincianismo, vertendo apenas o puz que brota dos dois cancros de São Paulo – a Faculdade de Direito e o café – o manifesto do Partido Democrático fixa bem para os olhos ingenuos dos que acreditam nas meias-revoluções, de que tamanho é a guela ambiciosa e hypocrita dos exploradores que depois de ter erguido palácios e fazendas, a chicote e a tronco de escravos – pretendem continuar a sugar o suor dos que trabalham, a troco de respresental-os na comedia dos cargos públicos.
Cynicos, comediantes sem treino, pois foi da deslavada, da mais clara exploração feudal que até hoje viveram do alto de suas cathedras de professores, deu suas bancas de jornalistas e de suas mesas de jogo – eil-os que surgem ao embate da primeira crise séria, chamando a si o encargo de ser o traço de União entre o governo e o povo!
Traço de união entre o parasita e o explorado, entre o que come e o que é comido, entre o carrasco e a victima, elles mesmo confessam que são a força lenta onde esperneia o trabalhador da cidade e dos campos, batido, humilhado, morto de miseria e de desesperança, mas que num ultimo espasmo ha de se despegar dos que o esganam, para leval-os por sua vez ao patíbulo definitivo que pleiteiam e merecem.
Felizmente, a degringolada já os attingia e as angustias de Piratininga são simplesmente feitas do odio covarde dos que sempre se viram na farra facil da Edade Media que o café produzia e a Faculdade abonçoava em nome do Direito Burguez, e agora se vêem forçados a subir os elevadores dos que imponentemente emprestam a 5% ao mez, para implorar as reformas já obtidas nos Bancos da grande fuzarca.
Vencidos pelo phenomeno da agonia capitalista, a sua cégueira ideologica attribue intenções communistas a sinceros consolidadores da Ordem Burgueza, como francamente são o Coronel João Alberto e o General Miguel Costa, com tod a razão mais de uma vez apontados ao odio das massas exploradas pelo alfifalante de Luiz Carlos Prestes.
Consolidadores fascistas, a sua bôa vontade esbarra na inconcertabilidade da maquina onde inutilmente querem andar. Que entreguem essa lata velha, esse forde furado sem radiador nem gazolina, ao ganancioso grupo de fazendeiros e professores que ambiciona os ultimos lucros do ferro miúdo.
O dr. Julio Prestes gastava trezentos contos em palácio, o Coronel João Alberto gasta seiscentos, o dr. Morato gastará novecentos.
Que o governo dos tenentes se demitta e entregue ao Partido Democratico a maquina podre do Estado Burguez que enganou a economia paulista – para que perante as massas elucidadas, seja essa a ultima tragica experiencia de desastre, - é o deseja e pede
o h o m e m d o p o v o
Após esse editorial, os estudantes da Faculdade de Direito iniciaram uma verdadeira guerra contra o “O HOMEM DO POVO”, sempre na tentativa de atingir Oswald de Andrade. A imprensa não perdeu tempo. Com manchetes em letras garrafais e fotos das aglomerações e dos tumultos, colaboraram e agitaram mais ainda a fúria dos estudantes de Direito. A imprensa, logicamente comandada e com o respaldo também de muitos que haviam sido atacados e tripudiados por Oswald e Pagu nas matérias editadas no O HOMEM DO POVO, como os políticos, a classe burguesa paulistana, a polícia, o clero e alguns intelectuais da época, chegou a inventar que num dos confrontos com os estudantes, “a moça que vivia com diretor do O HOMEM DO POVO”, Pagu, havia dado dois tiros. Essa arma nunca foi encontrada.
Os políticos e o clero queriam Oswald e Pagu presos, pois o O HOMEM DO POVO incomodava. Em quase todas as edições Oswald circulou uma enquete, inclusive com explicações de como se votava, com a seguinte chamada: “QUAL É O MAIOR BANDIDO DO BRASIL?”. Em cada edição era publicado o resultado da enquete com o nome dos mais votados. Até hoje ninguém confirma se houve de fato alguém que tivesse encaminhado seu voto para o jornal. Alguns pesquisadores chegam afirmar que tudo era pura invenção do Oswald, da Pagu, com palpites do Plínio Salgado.
Não poderia encerrar este texto sem adicionar os ditos do Senhor Augusto de Campos no final da sua Introdução na Edição fac-símile já mencionada:
“(...).
Mesmo sem se concordar com radicalidade e o sectarismo das diatribes de “O Homem do Povo”, é possível lê-lo com interesse e curiosidade. Não só pelo fato de estar ligado a personalidades tão fascinantes como Oswald e Pagu, partindo-se do pressuposto de que, quando um autor é interessante, tudo o que se relaciona com ele – até as obras menores – se torna interessante, por constituir subsídio para a compreensão de outros aspectos de maior relevância para a sua caracterização.
Sem dúvida, aqui não se encontrarão as grandes páginas de invenção estilística de “João Miramar e Serafim Ponte Grande”. A “Revista de Antropofagia” é mais rica em idéias e em criatividade, e os estereótipos da catequese política estão hoje mais desgastados do que antes. Mas, no desleixo das suas linhas apressadas, no seu amadorismo algo provinciano, na sua ingenuidade quixotesca, “O Homem do Povo” traz, ao lado da marca feroz e veraz da utopia, o rastro literário da modernidade e da paródia que dele fazem como que um prolongamento da “2.ª dentição antropofágica”. Este pasquim proletário não deixa de ser – como eu já afirmei em “Pagu: Vida-Obra – um descendente engajado da “Revista de Antropofagia”.
Estilhaços do riso oswaldiano espoucam por esses textos irados, fazendo com que eles desbordem da razão política, datada e perecível, para se incorporarem ao plano menos transitório das criações intelectuais. “Do meu fundamental anarquismo jorrava sempre uma fonte sadia, o sarcasmo”, disse Oswald no prefácio ao “Serafim”. Por isso, esse HOMEM DO POVO, que o povo não leu, pode ser lido agora, e não apenas como documento de uma época, suas lutas e suas contradições. Podemos rir com ele. E até perdoar facilmente os seus desmandos e excessos verbais. Vão por conta da impaciência, da impotência e do desespero dos que tentam pensar com generosidade nos desfavorecidos sociais, num mundo onde ainda prevalece a “manunkind”, de que fala o poeta norte-americano E.E. Cummings – a “humanimaldade” -, um mundo onde até hoje, depois de meio século, exauridas as utopias, a justiça e a fraternidade estão longe de ser alcançadas”.
(Augusto de Campos – Introdução do “O HOMEM DO POVO” – Coleção completa e fac-similar do jornal criado e dirigido por Oswald de Andrade e Patrícia Galvão (Pagu), 2ª Ed. SP. 1985, editado pela Imprensa Oficial do Estado S.A. IMESP – Divisão de Arquivo do Estado de São Paulo, pág. 12).
(Foto do livro Pagu - Livre na Imaginação e no Espaço - Lúcia M. Teixeira Furlani - Editora Unisanta - 4ª Ed. - pág. 45)