terça-feira, 15 de julho de 2008

CARTA-TESTAMENTO DE MÁRIO DE ANDRADE

CARTA-TESTAMENTO ESCRITA POR
MÁRIO DE ANDRADE EM
22-3-1944
DESTINATÁRIO:
SEU IRMÃO CARLOS



PREFÁCIO NECESSÁRIO:

Antes da “carta-testamento” escrita por Mário de Andrade ao seu irmão Carlos, em 22 de março de 1944, que foi postada na íntegra, inclusive observando o estilo da escrita utilizada por Mário, é de grande importância narrar o depoimento da Sra. Oneyda Alvarenga, (ALVARENGA, Oneyda. In Mário de Andrade, um Pouco. Livraria José Olympio Editora – SCET-CSC. São Paulo, 1974 – p. 11/12), como segue:

“(...). Os amigos mais chegados de Mário de Andrade talvez saibam, como eu, que nos seus últimos tempos de vida ele falava muito que morreria aos cinqüenta anos e não lhe interessava viver além disso. Depois, como passara doente o ano de 1943, adiara a morte para os cinqüenta e um, explicando meio a sério meio de brincadeira não ser justo morrer aos cinqüenta, pois o ano de doença não fora vivido. Foi essa divinação assustadora da morte que em 1944 o levou a me contar várias vezes sua intenção de cuidar, antes de mais nada, da sua obra literária, que pessoalmente o interessava mais. Quanto ao matéria folclórico que colhera, já não tinha nem tempo nem paciência e não teria vida suficiente para tratar dele: ficava para mim, eu o estudaria depois que ele morresse. (...)”.

Em carta a Manuel Bandeira, datada de 22 de abril de 1933, Mário de Andrade ainda mantinha a esperança e o entusiasmo para o trabalho, apesar de já estar passando por momentos de inoportuno estado doentio, mas até então, não havia ainda mencionado nada a respeito da própria morte. Assim escreveu naquela carta (*):

“São Paulo, 22 de abril de 1933.
Manu,
pretendia lhe escrever por estes dias uma carta bem longa, mas uma dessas viagens bruscas me faz apressar a escrita e diminuir aquele abandono pretendido de mim, que sempre me faz comprido. Mas o caso é que me surgiu de supetão, e indesejabilíssima, uma nefrite, e do dia para noite me vi obrigado a pedir licença no Conservatório, mandar os alunos particulares passear e procurar um abrigo lá na chacra do tio Pio pra um repouso de pelo menos vinte dias de cama, que é o que por enquanto pedem os médicos. Se os futuros exames provarem a melhora de condições dos rins, volto pra o trabalho, se não, inda não sei o que vai ser. Você compreende que estas confissões não são assim pra você sem alguma melancolia. Estou meio assustado, confesso, e não tenho a mínima intenção de morrer, ou pra falar mais suavemente, me inutilizar tão cedo. (...)”.
(Grifo meu - cor azul).

Independente de outras fontes (textos e cartas) onde Mário de Andrade comenta sobre a possibilidade prematura da sua morte, o Blog optou dar mais importância na “Carta-Testamento”, pois a partir da morte do autor foi essa carta que originou e pautou todos os trabalhos e estudos da vida de Mário de Andrade. Sendo assim, a carta, “sem nenhuma modificação na grafia original”:


CARTA-TESTAMENTO DE
MÁRIO DE ANDRADE


S. Paulo, 22-III-44 (1)

Carlos

Essa história de operação, sempre é perigoso e eu costumo pensar que pertence à dignidade humana contar sempre com a morte. Por isso lhe escrevo esta carta rápida, apenas para orientar você sobre meus desejos e intenções, a respeito exclusivamente das coisas desta terra.
Minhas obras. Deixo bastante coisa inédita, a maioria ainda se fazendo. Coisas realmente em redação definitiva deixo apenas uma série de contos, inéditos ou reformados depois da publicação, e os meus poemas “Café” e “Carro da Miséria”. Isto tudo deve ser incluído nas minhas Obras Completas. O “Carro da Miséria” será incluído no volume das “Poesias Completas”, logo antes da parte intitulada “Livro Azul”. O “Café” com nota que só a parte de poesia está em redação, [definitiva?] e a parte “Descrição” apenas em primeira anotação, terá publicação à parte. Por intermédio do Luís Saia, você entrará em combinação com o Clóvis Graciano, que o ia editar de acordo com um projeto de contrato que tenho sobre a minha secretária (2). Os direitos autorais dessa edição, bem como o das minhas “Obras Completas” com o editor Martins, desejo que revertam aos filhos de Lurdes, pra (3) educação intelectual e física deles. Bem, quanto à minha herança em dinheiro, vinda de meu pai, isso não me interessa, façam como quiserem. Os contos farão um livro à parte, pertencente às Obras Completas.
Muito desagradável é o resto dos meus inéditos, que ainda estão por se fazer. Conferências como o “Seqüestro da Dona Ausente” e “Música de Feitiçaria no Brasil” podem ser publicadas tal como estão, com a advertência em subtítulo “conferência literária” porque o trabalho definitivo era muito mais sério e científico. Tal como está não passa de sugestão pra trabalhos de outrem. Os casos mais lastimáveis são o das “Danças Dramáticas” e do “Padre Jesuíno do Monte Castelo”. Estas obras não só não estão em redação definitiva como contêm erros de história ou crítica, que eu pretendia corrigir depois e fui deixando assim. Muito freqüente, meu processo de trabalho era assim, ir redigindo o que eu não sabia si era assim mas me palpitava ser assim, dependendo de verificação ou conhecimento futuro. Ultimamente até em dezenas de afirmativas eu continuava com um “(verificar” por depender desse trabalho de verificação ou reverificação futura. Agia assim pra não prejudicar o ritmo normal da redação. Assim na “Vida” do padre Jesuíno em conto com um [sic; “eu conto uma”] passagem de Feijó moço e estudante em Itu que depois pude saber que não existiu (4). Deixei para consertar depois e ainda não está consertado. Nas Danças Dramáticas também afirmo que não houve nenhuma de relação “histórica” com o Brasil e, houve sim, depois é que pude saber, como os “Quilombos” de Alagoas. Tais obras, portanto, não devem ser publicadas. Mas podem ficar, com o consulta, objeto de trabalha alheio, numa biblioteca pública, a Municipal de preferência.
Dos meus “trabalhos” só resta o fichário. Este deve ser repartido entre meus dois amigos Oneida Alvarenga e Luiz Saia que de comum acordo, sem interferência nenhuma da família, farão dos fichários o que quiserem.
Resta falar de que ajuntei e ganhei por mim. Minhas cartas. Toda a minha correspondência, sem excepção, eu deixo para a Academia Paulista de Letras. Deve ser fechada e lacrada pela família e entregue para só poder ser aberta e examinada 50 (cinqüenta) anos depois da minha morte.
Toda minha coleção de gravuras de qualquer processo de gravação, monotipias, aquarelas, guaches e desenhos deve ser entregue à Biblioteca Municipal.
Toda a minha coleção de quadros a ólio ou têmpera será oferecida à Pinacoteca de São Paulo.
Toda a minha iconografia, jornais e quaisquer documentos da Revolução paulista de 1932 será entregue ao Instituo Histórico de São Paulo. Só se tirarão da coleção a bandeira de São Paulo em brilhantes e o anel de esmalte com as armas de São Paulo, que estão no armário de exposição de santos. A [sic; bandeira] fica com Mamãe, o anel será para o Carlos Augusto. [Sobrinho, filho de Lourdes].
Tudo quanto seja jóia de enfeite, alfinetes, brilhantes, etc. ficam pros filhos de Lurdes.
A coleção de santos e documentos religiosos em marfim, madeira, alabastro etc. serão doados para o Museu da Cúria Metropolitana de São Paulo, com exclusão do que eles não quiserem, que ficará para o Luiz Saia dar o destino que entender. Também o quadro antigo representando São João Evangelista será para a Cúria e não para a Pinacoteca. Está claro também que não pertence a estas doações a Senhora do Carmo, que Mamãe me deu, a qual ficará na família.
Os objetos de valor etnográfico, ou folclórico, como Xangô, Exu e ferro, ex-votos em madeira, etc. será para o museusinho da Discoteca Publica. Também se pedirá à Oneida Alvarenga que escolha para as coleções da Discoteca todos os discos de calor de estudo, folclórico, nacionais e estrangeiros que lhe interessarem. Os outros ficarão pros filhos de Lurdes.
Em minha biblioteca existe uma coleção muito grade de livros com dedicatória. Serão doados à Biblioteca Municipal, com a obrigação de não se desfazer deles embora duplicatas.
Também existe um grupo numeroso de obras “de luxo”, a maioria com ilustrações, sendo aqui considerado de luxo as edições “numeradas” de tiragem limitada e indicação do papel. Pertencerá também à Biblioteca Municipal. Algumas [sic] deste livros “de luxo” nacionais, a Biblioteca Municipal já possue. Serão estas duplicatas ofertadas à Biblioteca Municipal de Araraquara.
Tenho também alguns livros raros antigos, de forte valor monetário, de Brasiliana, como o Rugendas e o Martius. A Biblioteca Municipal ficará apenas com algum que por acaso ainda não tenha. Mas as duplicatas, com o Rugendas e o Martius pertencerão à Biblioteca, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo.
Você Carlos, retirará da minha biblioteca uma coleção de trezentos livros úteis, dicionários, livros fundamentais de estudo de ciências, uma boa história de artes plásticas, outra da música, alguns clássicos fundamentais das literaturas, Shakespeare, Dante, Aristóteles, Camões, Machado de Assis, enfim uma coleção de trezentos livros de primeira necessidade cultural ao seu critério, que ficará para os filhos de Lurdes, e na posse do Carlos Augusto.
Todo o grande resto será doado à Biblioteca Municipal, inclusive livros de musicologia e artes (5). Sérgio Milliet escolherá com os auxiliares que determinar o que deseja para a Biblioteca Municipal de São Paulo e não constitui duplicata dentro dela. As duplicatas todas e o que ele não quiser será dado à Biblioteca Municipal de Araraquara. O que dentro dela for inútil por constituir duplicata (será fácil saber mandando preliminarmente a relação que o Zé Bento fará) fica para uso da família. De preferência com os filhos de Lurdes.
Não deixo “lembranças”, objetos meus a ninguém. Tenho tão bons e numerosos amigos que tenho medo de numa lista organizada à pressa esquecer alguém. Me esqueci as esculturas de “arte livre” não arroladas acima, meus bustos, obras de Brecheret, de Haarberg etc. irão também para a Pinacoteca.
Eu apenas pediria que tudo fosse com ofício, no interior do qual enumeraria todo o doado, peça por peça, guardando cópia, pra que não desapareça nada por roubo. A tudo o mais, roupas, objetos, e o que eu por acaso tenha esquecido, a família distribuirá de acordo com o seu critério e o critério a que obedeci aqui. Não dôo na por vaidade e toda doação será feita sem alarde. Dôo apenas porque nunca colecionei para mim, mas imaginando me constituir apenas salvaguarda de obras, valores e livros que pertencem ao público, ao meu país, ao pouso que eu gastei e me gastou.

Mário de Andrade

(vire)

(S. Paulo, 22-III-44)
Carlos

Me esqueci duma doação especial que guardei para o Zé Bento, meu secretário. Na secretaria que truxe [sic; pronuncie-se trusse] do Rio, tirada a última gaveta do lado esquerdo dela, em baixo, se puxando o fundo falso, existem dez contos de réis. Esse dinheiro pertence a José Bento Faria Ferraz, assim como um objeto qualquer, de duração permanente, que você escolher. O objeto é pra ele guardar como lembrança da gratidão que lhe devo; o dinheiro é pra ele gastar como e quando bem entender, merecia muito mais, porque uma assistência como a dele não se paga. M.”

NOTAS:

(*) ANDRADE, Mário. In Correspondência Mário de Andrade & Manuel Bandeira. (Org.) Marcos Antonio de Moraes. São Paulo: Editora EDUSP; IEB. 2ª Ed. – 2001 – p. 556;
(1) Embora nem tudo corresponda ao assistemático... sistema ortográfico de Mário, respeitei integralmente, inclusive na grafia de nomes próprios, a cópia que me foi dada pela família dele, logo após sua morte A irmã Lourdes foi sempre “Lurdes”; Luiz Saia = Luís Saia (jamais Sáia, como aparece em alguns lugares da cópia); eu, Oneida, num desrespeito total às nossas assinaturas. No meu caso, com grande ojeriza minha, que desse jeito me sinto outra pessoa, uma estranha;
(2) Naqueles tempos, Clóvis Graciano ensaiara ser editor. Seu primeiro lançamento foi, em 1944, o livro “Escultura Popular Brasileira”, de Luís Saia, seguido, só em 1947, por uma das mais deliciosas histórias para crianças escritas no Brasil: a “Silvia Pética na Liberdade”, de Alfredo Mesquita, com esplêndidas ilustrações de Hilde Weber. As “Edições Gaveta” morreram depressa, nem me lembro se passaram dessas duas obras. Andam por aí algumas explicações do nome da editora, mas se não me engano ele nasceu de um sentido ajuntado por Luís Saia à palavra “gaveta” e usado por quase todo o grupo jovem ligado a nós três (Mário, Saia e eu): Mau humor, desânimo, irritação, espírito preocupado e fechado, “engavetado”. Quase a “fossa” hoje em moda: mas não chegava bem a ser, a “gaveta” ainda tinha uma boa dose de saúde espiritual, faltava-lhe alguma coisa para ser realmente mórbida “Estar de gaveta”, estar “engavetado” atrapalhava a vida, mas não tanto quanto a “fossa”;
(3) Este é um dos evidentes enganos ortográficos da cópia que recebi. Mário dava à contração da preposição “para” com o artigo “a”, a grafia “prá”. Nem me lembro de vê-lo usando o acento grave;
(4) Se não for erro de cópia, o trecho que retifiquei entre colchetes é um dos testemunhos mais fortes da pressa e tensão em que essa carta foi escrita;
(5) Em 1944, a Discoteca Pública Municipal ainda estava começando a grande biblioteca especializada em música, livros sobre Música, Folclore e assuntos afins, que veio a ter depois. Isso talvez explique a doação das obras musicológicas à Biblioteca Municipal. Mas me palpita que outra circunstância, bastante penosa, sirva de melhor explicação: durante sete anos Mário assistira à minha luta para manter um serviço que-ai de mim! ai de nós! – continuou mesmo incompreendido pela quase totalidade dos administradores municipais; vira a derrocada quase total da Discoteca, na primeira gestão do Dr. Prestes Maia, desastre que chegou a fazer com que nós dois pensássemos no recurso salvador de uma venda de todo o acervo ao Ministério da Educação e chegássemos a tomar algumas medidas para isso. Nossa correspondência mostrará tudo, mas tarde.

(Este texto faz parte da apostila de estudos e pesquisas da Biblioteca da Exposição RETALHOS DO MODERNISMO – Resumo da Oficina do livro: ALVARENGA, Oneyda. In Mário de Andrade, um Pouco. Livraria José Olympio Editora – SCET-CSC. São Paulo, 1974 – p. 11/12 - Depoimento de Oneyda Alvarenga; e 31 a 35 – Carta Testamento de Mário de Andrade).
Luiz de Almeida