quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

PAGU: "ABRAM AS JANELAS, DESABOTOEM MINHA BLUSA, QUERO RESPIRAR"

(Desenho de Luiz de Almeida - Nanquim - 2007)


PAGU - Patrícia Rehder Galvão nasceu em São João da Boa Vista, SP, a 9 de junho de 1910, filha de Thiers Galvão de França e Adélia Rehder Galvão, ambos representantes de uma tradicional família burguesa paulista.
Durante sua juventude, um dos sonhos da estudante normalista, inteligente e rebelde era conhecer o cavaleiro da esperança, Luis Carlos Prestes, líder do Partido comunista no Brasil.Nessa época Patrícia já se destacava por sua insolência, seu linguajar, seu modo de vestir e suas atitudes extravagantes.
Gostava de fazer provocações aos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo - reduto da nata oligárquica - com seus versos satíricos, seus lábios pintados de roxo e suas grandes argolas nas orelhas, mas ao mesmo tempo, deslumbrava a todos pelo seu jeito atrevido, talentoso, belo e, principalmente, com a intensidade pouco comum de seus brilhantes olhos verdes.
Pelo intermédio do diretor de cinema Olympio, foi apresentada ao poeta e futuro embaixador do Brasil na Europa, Raul Bopp, que, fascinado, escreveu versos para ela, denominando-a Pagu e apresentando-a para a fina flor da sociedade intelectual de São Paulo.
Pelo seu talento de poetisa e por sua audácia, foi logo apadrinhada pelo escritor Oswald de Andrade e sua mulher Tarsila do Amaral
. O casal projeta-a como mascote do surrealismo
e arma com ela uma sensacional apresentação de suas poesias, junto com o grande palhaço Piolim, no Teatro Municipal de São Paulo - espaço sagrado da cultura tradicional paulista - com a qual queriam provocar um escândalo. Foi um sucesso e o episódio acabou consagrando Pagu como musa da poesia surrealista brasileira.
Deste convício nasce um romance entre Pagu e Oswald, e, em um outro famoso episódio, Pagu casa-se com o Waldemar Belisário e foge, após a cerimônia, com Oswald de Andrade. Os dois realizam uma cena de casamento poético no jazigo da família do escritor. O escândalo é geral. Dessa união nasce um filho, Rudá.
Em 1931, o casal funda um jornal tabloide chamado "O Homem do Povo", no qual Pagu assinava a coluna "Mulher do Povo". Com suas críticas e disparos irreverentes, o jornal provoca a ira e a rebelião dos estudantes da Escola de Direito do Largo São Francisco que destroem sua sede.
Para se ter uma pequena noção do que Pagu escrevia no O Homem do Povo, cito esta passagem de uma de suas colunas: "Senhoras que cospem na prostituição, mas vivem sofrendo escondidas num véu de sujeira e festinhas hipócritas e maçantes, onde organizam o hino de cornetas ligados pra todos os gozos, num coro estéril, mas barulhento".
Pagu começa a participar intensamente da vida política e evolui rapidamente nos quadros da militância do Partido Comunista do qual é filiada. Viaja a Buenos Aires, onde realiza seu sonho de encontrar-se com Luis Carlos Prestes, milita ardorosamente no Partido Comunista, radicalizando-o de tal forma que consegue afastar seu fundador, Astrogildo Pereira, acusando-o de intelectual.

Escreve o livro Parque Industrial - Romance Proletário, um dos livros mais importantes da década de 30, pois o romance era, entre outras coisas, modernista, urbano, feminista e marxista. Para a época, é um livro com uma linguagem totalmente desabusada e que aborda questões tabu tanto para o leitor burguês quanto para a militância.
O livro saí, por ordem do Partido Comunista, com o pseudônimo de Mara Lobo, nele Pagu mostra sua inata capacidade de ser vanguarda, mas caí, algumas vezes, em maniqueismos e esquematismos, o que é, por sua vez, totalmente tolerável para os dias em que foi escrito.
No livro, Pagu mostra a exploração do proletariado fazendo uma comparação dos sofrimentos desta classe e as terríveis explorações sexuais que sofrem as mulheres, faz do capital o grande falo estuprador dos proletários e lasca o pau na moral hipócrita da sociedade paulista da época.

Em 1935, participa do comício que lembrava a condenação à morte dos anarquistas Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, nos EUA, em 1927, e, durante os conflitos ocorridos no mesmo comício, expira, no seu colo, o estivador Herculano de Souza, vítima dos enfrentamentos com a polícia.
Após o comício, fica presa no cárcere nº 3 da Praça dos Andradas, a pior cadeia do continente na época, tornando-se, tristemente, a primeira mulher presa política torturada no Brasil. Foge do presídio em 37.
Em 38, é presa novamente e condenada a mais dois anos e meio de prisão pelo Tribunal Nacional de Segurança da ditadura do Estado Novo. Na saída da prisão instala-se numa vila operária e milita, participando, de revólver na mão, da defesa do Partido Comunista.

Inicia então uma longa viagem pelo mundo afora. Em Hollywood, entrevista para o Correio da Manhã os atores George Kroft e Miriam Hopkins. Na China, cobre a coroação do primeiro imperador da Mandchúria, Pu-Yi, do qual torna-se amiga, e de quem recebe, a pedido de Raul Bopp, sementes de soja, as quais ela trouxe para o Brasil, hoje um dos maiores produtores de soja do mundo.
Pagu será uma das primeiras pessoas a trazer sementes de soja para cá. Entrevista ainda Sigmund Freud. Viaja pela Transiberiana para Moscou, oito dias e oito noites de ferrovia. A URSS, com o stalinismo, decepciona-a. Na ocasião comenta em carta enviada a Oswald: "Isto aqui é jantar frio sem fantasias. Tou besta". Parte para a França onde faz contato com Aragon, Eluard, Breton, Benjamin Perret, Elsie Houston, Clevel, Sartre, Ionesco e Arrabal. Estuda com Politzer, Marcel Prenant e Paul Nizan. Escreve artigos memoráveis sobre o Congrès de Écrivans pour la Défense de la Culture.

Em Paris aprende o "argot", adota o nome de Leonine ao ingressar nas Jenesses Communistes e insurge-se contra a determinação da Frente Popular de não cantar a Internacional no s festejos de 14 de julho. Ferida na manifestação de rua, fica hospitalizada por três meses. Posteriormente, com a queda do gabinete de Léon Blum e assumindo o Governo de Pierre Laval (direitista que mais tarde vai se juntar aos alemães) a comunistas estrangeira é presa e, não fora a enérgica intervenção do embaixador Souza Dantas, seria deportada para a Alemanha, já que sua mãe tinha ascendentes germânicos.
Volta ao Brasil em frangalhos. Separa-se de Oswald de Andrade. Encontra o país polarizado entre a direita dos integralistas e a esquerda da Aliança Nacional Libertadora, a ALN. É presa por consequência da "intentona" de 35.
O Juízo Penal de São Paulo a absolve, mas o Tribunal Militar do Rio lhe condena a dois anos e meio de prisão, aos quais serão acrescentados ainda seis meses por ter se recusado a participar da homenagem ao interventor de São Paulo, Ademar de Barros, quando este visitava a cadeia. Ficaria encarcerada até 1940.
Reencontra, na prisão, a ex-babá de seu filho, a quem politizara. Vivendo um dos momentos mais dramáticos da sua vida, suplica a seus familiares para intercedam junto a Oswald para que ela possa rever o filho Rudá, que não via há dois anos. Consegue revê-lo.

Depois dessa passagem dificílima pela prisão, Pagu passa a viver com seu grande companheiro, o jornalista Geraldo Ferraz, com quem ficou até o fim de seus dias. Após a prisão, Pagu é abandonada pelo PCB. Deixa o cárcere ferida, deprimida e ressentida com os companheiros e o partido.
Liga-se então ao grupo de Mário Pedrosa
que editava um jornal, A Vanguarda Socialista. Seu primeiro artigo é uma crítica demolidora do livro Vida de Luis Carlos Prestes, de Jorge Amado. Nessa época, após reencontrar-se com o filho Rudá, então com 17 anos, escreve o belíssimo Não Tenha Medo Rapaz.
Passa a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo, onde apresenta numa aula de Décio de Almeida Prado, sua tradução de A Cantora Careca, de Ionesco. Promove espetáculos em Santos, lutando pela construção de um teatro na cidade. Movimenta-se também pela formação de grupos amadores e pela apresentação do teatro de vanguarda.
É graças a Pagu, que traduziu e dirigiu a peça, que foi apresentada, em Santos, a montagem de Fando e Liz, de Arrabal. Escrevendo no jornal Tribuna de Santos, posiciona-se contra o chamado teatro esquerdista, só abrindo exceção para Bertold Brecht, segundo ela, por causa da "beleza literária".

Em 1949, desespera seu companheiro Geraldo Ferraz ao tentar o suicídio com um tiro na cabeça. Em 1950, candidata-se à Assembléia Legislativa de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro. Não se elege e encerra assim seu ativismo político.
Nesse ano, Pagu funda a Associação dos Jornalistas Profissionais de Santos. Durante toda a década de 50, Pagu exerceria uma importantíssima influência no panorama cultura da cidade de Santos, ajudando, principalmente, na campanha pela construção do Teatro Municipal da Cidade de Santos.

Em 1958, Pagu chama o jovem autor, ator de teatro e seu amigo, Plínio Marcos
, para substituir um ator no papel de um marinheiro na peça "Pluft, o Fantasminha". Plínio Marcos seria um eterno admirador de Pagu.
Quando Oswald de Andrade morre, Pagu anuncia sua próxima viagem a Paris. Tinha descoberto que estava com câncer e queria morrer no estrangeiro, escondida de todos. Após outra tentativa frustrada do suicídio, volta ao Brasil para morrer junto à família, em Santos, sua querida cidade natal.
Pagu morreu no dia 12 de dezembro de 1962 pedindo:

"abram as janelas, desabotoem minha blusa, quero respirar".
(Texto de : Renato Roschel - 16/07/2004 -
Fontes de Pesquisa: Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade; Editora: Jorge Zahar Editor; 2000. Pagu: Patrícia Galvão Livre na Imaginação no Espaço e no Tempo; Editora Unisanta; 4ª edição; 1999).