sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

UMA PITADA DE OSWALD DE ANDRADE E PAGU

Falar especialmente sobre Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, a Pagu, é a mesma coisa de querer, ou tentar, explicar o questionamento de quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Pesquisar a vida do Oswald e Pagu(?): ou temos a necessidade de sermos tão bons quanto Maria Augusta Fonseca (que dissecou a vida desse Andrade), quanto Telê Ancona (que conheceu mais da vida do Mário de Andrade que o próprio Mário), ou quanto Lúcia Teixeira Furlani que foi revestida de Pagu - pois, contrariamente, acabaremos fazendo uma bela canja da galinha e um suculento omelete para podermos degustar de tudo que já foi dissertado a respeito desses ícones.
Outros grandes estudiosos e pesquisadores (não sei ao certo se chegaram a tomar caldo de galinha ou saborear um omelete), conseguiram elaborar e deixar para nós verdadeiras "pérolas" dissertativas sobre Oswald e Pagu, tal como o Sr. Paulo Celso da Silva, cujo estudo introduzo a seguir:


OSWALD DE ANDRADE E PATRÍCIA GALVÃO:
DOIS CORAÇÕES E UMA REVOLUÇÃO

Paulo Celso da Silva

Resumo:

O Texto apresenta a ligação explosiva de dois grandes nomes da literatura brasileira: Oswald de Andrade e Patrícia Galvão, a PAGU. Vivido nos anos 30 do século XX, o amor dos dois protagonistas causou escândalo na sociedade provinciana de São Paulo. Pertencente às elites Paulistas, Oswald de Andrade vive o ápice e a derrocada de sua riqueza com a crise de 1929. Já Patrícia Galvão, pertencente à classe média que se forma na sociedade brasileira, vai questionar os valores e o papel da mulher na sociedade brasileira. Juntos apenas durante cinco anos revolucionam a maneira de amar e sonhar.


INTRODUÇÃO: O BRASIL ENTRA NO SÉCULO XX:

“O tempo e o espaço morreram ontem. Nós vivemos já no absoluto, já que criamos a eterna velocidade onipresente”. (Felipe Marinetti. Manifesto Futurista, 1909).

As últimas décadas do século XIX marcam a sociedade brasileira com profundas transformações na política, economia, arte e na vida cotidiana. Da independência em 1822, instituindo uma monarquia tropical, ainda ligada à metrópole portuguesa pela figura de D. Pedro, até o final dessa experiência, com seu filho D. Pedro II, foram apenas 67 anos.
Fortes traços europeus guardados em nomes e sobrenomes contrastam com a vida agrária, mesmo nas cidades, da república recém-proclamada e do capitalismo que luta para ser o modo de produção dominante.
Imigração, fábricas, operariado nascente, ferrovias, grandes fazendas, muares, café, algodão, tudo convive ao mesmo tempo e confrontando o mundo capitalista industrial com o pré-capitalismo agrário.
São, esses imigrantes, quem trazem essa nova visão de mundo, instalando fábricas em pontos do país, importando maquinário e percebendo a importância da proletarização das massas no sucesso da empresa.
A substituição da mão-de-obra escrava pela livre é gradativa, graças à força política das elites agrárias. Em alguns locais, fábricas funcionam com escravos, mas era necessário libertar o empresário do peso econômico de sustentar o escravo.
Cidades do interior de São Paulo, onde o número de escravos era reduzido devido ao tipo de comércio que praticavam, conduzem a abolição meses antes da assinatura oficial em 1888.
A república, no ano seguinte, confirma, mais uma vez na história brasileira, a mudança partindo de pactos das elites nacionais, ligados aos interesses do capital externo. Isso irá repetir-se durante todo o século XX, fragilizando a democracia brasileira.
Os ventos modernizantes do capitalismo trazem uma nova beleza, “a beleza da velocidade”, como declara Marinetti no Manifesto do Futurismo de 1909, publicado no Le Figaro de Paris e depois divulgado em todo o mundo.
Aliás, a modernização de Paris, no final do século XIX teve a perspectiva da velocidade; por isso, todo o centro da cidade foi derrubado, facilitando o tráfego de automóveis. O arquiteto Le Corbusier, considerado o maior arquiteto do século XX, declara que as ruas são para os veículos e não para pessoas.
O novo século é da máquina e da velocidade. Ser moderno é morar na cidade e ser veloz.
Ocorre que o tempo não é o mesmo para todos. Desde muito cedo no Brasil, as elites buscavam a Europa para estudar, passear e trazer as últimas novidades em arte e cultura.
Deslocando o eixo capitalista do nordeste para o sudeste, especialmente na cidade de São Paulo e em algumas cidades do interior, ligadas ao Complexo Cafeeiro, no início do século XX teremos famílias mais abastadas enviando seus filhos e parentes para a Europa.
No velho continente as manifestações artísticas estão inflamadas. Movimentos como o Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo, Surrealismo, serão designados, genericamente, como Vanguardas Europeias, rompendo com a estética tradicional.
As Vanguardas Europeias trazidas para o Brasil por jovens da elite, a Semana de Arte Moderna; em fevereiro de 1922, será o grande marco da arte e cultura do Brasil.



Dentre esses jovens entusiasmados com as vanguardas europeias, encontramos Oswald de Andrade, que em sua primeira viagem à Europa traz o caminho para o modernismo brasileiro.
"Deve-se a Mário de Andrade a eclosão do movimento modernista. A ele e a Di Cavalcanti. Minha ação foi apenas polêmica. De repente houve um clarão... e esse clarão era o Mário", declarou Oswald para O Tempo, em 19/09/1954.
Além deles, Oswald de 1890 e Mário de 1893, é toda uma geração de escritores, artistas formando o modernismo brasileiro: Vitor Brecheret (1894), Tarsila do Amaral (1897), Carlos Drummond de Andrade (1902), Heitor Villa-Lobos (1887) Raul Bopp (1898), Guilherme de Almeida (1890), Menotti Del Picchia (1892), Anita Malfatti (1896), Di Cavalcanti (1897), Manuel Bandeira (1886), Vicente do Rego Monteiro (1899), Lasar Segall (1891) e Monteiro Lobato (1882), apesar de este último criticar severamente a exposição de Anita Malfatti em 1917, prenúncio do modernismo.


O BRASIL COM O MODERNISMO

INGRESSA NO SÉCULO XX.

Industrialização, urbanização, política do café com leite, Primeira Guerra Mundial, Greve Geral de 1917, declínio das oligarquias agrárias, expansão do transporte e comunicações, Revolução de 30... E, com ela, chega ao fim o período chamado de I República.
Nos agitados anos do início do modernismo e, depois, no longo período dominado por Getúlio Vargas como ditador (1930-1945), outra personagem, nascida em 1910, frequenta e encanta a todos, pela inteligência e beleza: Patrícia Galvão, a Pagu.


Ex-aluna de Mário de Andrade no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, desde 1928 frequenta a casa de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, casados em 1926.
Dois anos depois, de frequentadora passará a mulher de Oswald, ambos militando no Partido Comunista Brasileiro.
A história do casal Oswald-Pagu, a qual inclui Rudá de Andrade, filho dessa união, perdura até 1935, sendo marcada pelas dificuldades sociais e econômicas da época de Vargas, com uma violenta repressão política e policial apenas encerrada com a deposição do ditador em 1945.
Esses anos de relacionamento serão interrompidos e desgastados pela grande viagem ao mundo feita por Patrícia Galvão de 1933 até os últimos meses de 1935, quando também se separa, definitivamente, de Oswald de Andrade.
Reconstruir a história desse casamento, começado no jazigo da família Andrade, é montar uma colcha de retalhos através de depoimentos, cartas e obras já lançadas sobre os dois.
Mesmo assim, o interesse deste texto está em destacar um relacionamento nada ortodoxo e nada linear, principalmente se pensarmos o período e a maneira como ele aconteceu.
Além do mais, é um casamento onde a paixão é o grande motor dos dois protagonistas, não uma simples paixão, dessas de enamorados. Uma paixão mais forte, querendo realmente, acreditando - de verdade - que seria possível mudar o mundo. Como me disse Rudá de Andrade, “... é a exacerbação do amor”. Paixão por tudo o que estavam vivendo, sofrendo as consequências da opção radical de amar em profundidade.
O fato de Oswald ser vinte anos mais velho que Patrícia parece não ter importância na época. Foram suas posições políticas radicais - de esquerda - e a farsa do casamento de Patrícia com Waldemar Belisário, estando grávida de Oswald, a gota d'água para a sociedade paulista.

CADÊ ZAZÁ


Patrícia Galvão nasceu em 9 de junho de 1910, na Rua São João, 21, às 14 horas, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. Mas será na cidade de São Paulo, onde sua família foi morar em 1913, que Patrícia terá reconhecimento pela atuação junto aos modernistas e na militância política.
A mudança de toda a família, seus pais Thiers Galvão de França e Odélia Rehder Galvão, mais os irmãos Conceição e Homero, nascidos em 1903 e 1905 respectivamente, acrescentou em São Paulo a grande amiga e irmã caçula, Sidéria, nascida no mesmo 1913.
Em São Paulo encontram uma cidade com seus 400 mil habitantes, mas, guardando, ainda, o provincianismo.
A mudança paulista começou em 1899 com o prefeito Antônio da Silva Prado (1899-1910). Ele modernizou bairros, abriu novos e novas avenidas, o Vale do Anhangabaú e o Viaduto do Chá foram reformados, contratou Ramos de Azevedo para construir o Teatro Municipal, iluminou ruas, o primeiro bonde partiu do Largo São Bento em 1900, incentivou a criação do Automóvel Club Paulistano e iniciou as obras do Viaduto Santa Efigênia.
A modernização do espaço urbano é acompanhada do avanço do consumo de bens industrializados. A industrialização em São Paulo, promovida em parte pelo lucro do comércio do café, faz aparecer uma elite urbana ávida de bons produtos e bens de consumo.
Nessa época surge o primeiro réclame yankee, o outdoor de hoje, apresentando o xarope Bromil. Antes da Primeira Guerra é montada uma agência de propaganda, a Eclética; no final da guerra, eram cinco as agências.
Aos ricos são oferecidos carros, pianos, máquinas de escrever, perfumes, roupas importadas. É a Belle Époque! Do outro lado da linha, trabalhadores das indústrias, imigrantes que consumirão o que a indústria nacional conseguir produzir.
Enquanto na Espanha, em 1900, é aprovada a lei proibindo o trabalho infantil, no Brasil, anúncios de empregos chamam por crianças e mulheres, mão-de-obra mais barata e, no dizer do empresariado, para as crianças é pedagógico, evita que fiquem pelas ruas...
Os imigrantes, em todas as cidades com indústrias, vão se reunindo em bairros operários. Em São Paulo temos o Brás, o Bixiga e, somente italianos, perto de 140 mil, entre 1911 e 1920.
A primeira residência da família Galvão em São Paulo será na Rua da Liberdade, depois na Rua Bresser, no Brás. Posteriormente mudaram para a Rua Machado de Assis, na Vila Mariana, o que se constituía em um salto social grande.
O Brás será o cenário do romance Parque Industrial, publicado em 1933 por Patrícia com o pseudônimo de Mara Lobo. Romance proletário, romance panfletário, Parque Industrial narra de maneira crua e direta a vida das mulheres trabalhadoras, sua exploração financeira, sexual, moral.
A sociedade e a cidade tentam se modernizar, um detalhe de 1914 já mostra mulheres fumando e o cigarro será outra marca registrada de Patrícia Galvão. A propaganda permitia, mas mulher fumando e, principalmente, fumando em público, era considerado obsceno.
Nesses primeiros anos de São Paulo, Patrícia é Zazá. Criança, como tantas, acompanhando os pais na Capital, sonhando com o conforto e as possibilidades da metrópole.
Zazá está anônima. Em 1916 estuda no Grupo Escolar da Liberdade, depois a Escola Normal do Brás e diploma-se na Escola Normal da Praça da República (atualmente o Colégio Caetano de Campos), em 1928.
É na Escola Normal do Brás que encontra Oswald de Andrade pela primeira vez. “...O Oswald começou por intermédio do Reis Junior”. Relata Sidéria, em 1981, para Augusto de Campos.
“Ele veio à Escola Normal do Brás para visitar o Guilherme de Almeida, que era Secretário da Escola, e o Reis Jr. era um rapaz belíssimo, depois foi casado com a Beatrix Reymal, poetisa, e ele subiu a escada, estávamos eu e a Pat ali no 'hall', quando o Reis Jr. subiu, ele era tão lindo, a Pat fez 'fiu fiu' prá ele e ele olhou e a gente ficou esperando o Reis Jr. voltar e ainda a Pat perguntou 'onde você vai?'. Dai a gente ficou esperando, ele voltou e logo se interessou pela Pat, que era muito chamativa, muito bonita, e começou o namoro dela com o Reis Jr., e por intermédio dele e de Guilherme de Almeida é que ela teve contato com o Oswald”.


NOSSO NENÊ, NONÊ!


Oswald era vinte anos mais velho que Patrícia quando a conheceu. Nasceu em São Paulo em 11 de janeiro de 1890. Filho único - um irmão morreu aos dois anos - os cuidados com Nonê, como foi carinhosamente chamado pelos pais, começaram com a escolha do nome, o mesmo de seu pai, José Oswald, acrescentando o Souza da mãe. Sua avó fez questão de grafar Oswald sem o o final e Nonê fará questão de frisar que a pronúncia é Oswáld e não Ôswald.
Seu pai, que havia chegado em 1881 na cidade, consegue progredir trabalhando para seu futuro sogro e, do ramo imobiliário, chega a vereador na cidade, no início do século.
O casal José Oswald Nogueira de Andrade e Inês Inglês de Souza Andrade dispensam todo cuidado ao menino que divide a casa com empregados, parentes, mas não divide a rua com outras crianças. A rua, ainda observa das janelas.
Para conseguir fundos que serão aplicados em um loteamento, a família se muda da Rua Barão de Itapetininga para a Rua Santo Antônio. Oswald liga-se fortemente à sua mãe e, isso marcará toda sua vida. É o próprio Oswald quem diz:
...O que importava para mim era minha casa e minha mãe. Fora dessa dupla tutela me sentia inútil.
Seus primeiros anos escolares foram na Escola Modelo Caetano de Campos, depois é transferido para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo.
O ano de 1900 é marcado por superstições e esperanças na cidade. A passagem do Cometa Halley agita a família Andrade. Mais importante, para Oswald, que o cometa, foi o bonde elétrico, uma modernização possibilitada pela energia elétrica instalada anos antes.
A rotina, característica do cotidiano, é descrita por Maria Augusta Fonseca (Oswald de Andrade - Biografia).
Seu Andrade, todas as tardes, caminha até o Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos maristas, para buscar Oswaldinho. A rotina escolar cobre o dia do menino. De manhã, o cheiro do café se espalha pela casa, o pai reza, a mãe dorme e o menino se prepara para os estudos, levado pelas mãos de “uma preta centenária chamada Maria da Glória, que afirmava, contrariando meus jovens conhecimentos, ter visto o imperador Napoleão em Pernambuco, donde viera”. Em casa a mãe aguarda o dia com orações (para os bons negócios de Seu Andrade), organizando e dando ordens para o serviço da casa.
Asmática, D. Inês, muitas vezes se acomoda entre as almofadas de palhinha que fica na sala de jantar.
O Nonê já era Oswaldinho para a cuidadosa família.
Conhece Guilherme de Almeida no Colégio de São Bento onde conclui o curso de Bacharel em Humanidades em 1908.



Oswald de Andrade e Guilherme de Almeida (Data provável da foto: 1916)

No ano seguinte inicia no jornalismo escrevendo para o Diário Popular. Com períodos curtos de interrupção, as atividades jornalísticas acontecerão até falecer.
Uma passagem antológica, de seus anos escolares mostra bem o Oswaldinho tomando-se Oswaldo.
Guardo da infância uma experiência do alemão que me deu a medida da tirania e a suspeição da autoridade. Foi o presente pedagógico que aos treze anos ofertou, no Ginásio São Bento, a didática alemã...
Encontrei pela minha frente um professor teutônico, pré-nazista, De peito empoado, purista e autoritário.
O professor em questão era o Dr. Carlos Augusto Germano Dnuppell, de geografia, que no exame final solicita:
- Não, senhor, não quero nada de cor! O senhor vai realizar uma viagem estranha! Vai subir num navio num porto do Estado do Rio Grande do Sul e desembarcar na Bahia. Exijo apenas uma condição Para aprová-lo: que não entre nesse percurso em nenhum porto de Primeira ordem. Vamos!
Comecei por Torres, toquei em Florianópolis, que apesar de ser capital do Estado de Santa Catarina era um porto de segunda ordem. Esbarrei em Paranaguá e penetrei em águas de meu Estado, o Estado de São Paulo. - Iguape, Cananéia. Ia inevitavelmente entrar em Santos, mas me retirei a tempo. Passei para São Sebastião Ubatuba, Parati e, não achando meio, na minha pobre e mal exercitada memória cartográfica, onde pôr o pé, exclamei - Rio de Janeiro!
Foi uma gargalhada geral. Era o que ele esperava. Gritou:
- Rio de Janeiro! Capital da República, porto de Segunda ordem! Vou expulsá-lo da banca!
Mais morto do que vivo, eu respondi:
- Desci para ir de barca a Niterói!
O estrépito da classe atingiu o delírio. Vermelho, "Kinipel" gesticulava: - Ponha-se daqui!
Os dois outros lentes riam, gozando. A classe levantara-se e tomara conta de mim, erguendo-me nos braços e levando-me assim em triunfo pelos corredores do ginásio.
Acabara o exame e um monte de meninos acumulou-se ante a porta fechada, onde se produzia a classificação das notas. Eu me acoitara a um canto, sem nenhuma esperança. A porta abriu-se, leram-se os nomes, o meu vinha no fim. Eu tinha sido aprovado, simplesmente, grau 1. 'Contra o voto do professor da cadeira'.
O humour e os amores serão marcas registradas do Oswald adulto. No período de 1912 a 1942, são seis mulheres: Henriette Denise Bonfleur, a Kamiá, 1912; Maria de Lurdes Castro, a Deisi, 1917; Tarsila do Amaral, 1926, Patrícia Galvão, a Pagu, 1930; Julieta Bárbara, 1937; Maria Antonieta d'Alkimim, 1942.
A quantidade de apelidos criados para as pessoas, próximas ou não, suas brigas e reaproximações, suas respostas com muita presença de espírito e autocrítica, são apenas facetas de uma personalidade forte e explosiva, mas que, por outro lado, defendia os amigos, era apegado aos filhos José Oswald Antônio de Andrade, o Nonê, 1914; Rudá Poronominare Galvão de Andrade, 1930; Antonieta Marília de Oswald de Andrade, 1945 e Paulo Marcos d' Alkimim de Andrade, 1948. Contraditório e genial, desafiou o seu tempo, “... magoado por não ser reconhecido como merecia”, como lembra Rudá em carta para o crítico Antônio Cândido, na obra Ponta de Lança de 1945, vai desabafar:
Criou-se então a fábula de que eu só fazia piada e irreverência, e uma cortina de silêncio tentou encobrir a ação pioneira que dera o Pau-Brasil.
E vai além
Uma das ideias que me seduziram é essa que a base do humour é feita mais que de autocrítica, de auto-flageIação... Quem se esculhamba, sabe esculhambar os outros... Considero Minha obra acima da compreensão brasileira.
Mas o primeiro divisor de águas na vida de Oswald é em 1912, quando faz sua primeira viagem à Europa. O segundo em 1930, quando se une a Pagu. Em 1911, Oswald, apoiado financeiramente pelos pais, cria a Revista O Pirralho, com a participação de Amadeu Amaral, Paulo Setúbal, Comélio Pires, Babi Andrade, Voltolino, J. Bananêre e Sarti Prado.
É sua primeira separação longa dos pais, principalmente da mãe, e será de fevereiro a setembro. Nesses nove meses, muito conhece do mundo e muito irá mudar sua vida quando voltar.
Apertei minha mãe no corredor da casa, coberto como ela de lágrimas ardentes e fui acompanhado por meu pai até o cais do porto de Santos. Aí entrei pela primeira vez num transatlântico.
Quando decide retomar, o estado de saúde de sua mãe é muito grave. Para não preocupá-lo, seus pais escondiam os fatos nas cartas enviadas.
Anos depois, em “Um homem sem Profissão: Sob as ordens de mamãe” publicação póstuma de 1954, a morte de sua mãe é lembrada com dor e saudades:
Estava tudo acabado. Fechava-se brutalmente o ciclo maravilhoso que, desde a primeira infância, defendiam os braços pequenos e gordos da fada de minhas noites e dias. Haviam-se fechado os olhos azuis para cuja aflita vigilância tinham-se aberto os meus ...
A amada que me dera a vida partiu sem me dizer adeus.
Oswald incorpora quase todas as características da modernidade, com seu cadilac verde, sua presença incomodando a sociedade. “Ele escandalizava pelo fato de existir... como se andando pela rua Barão de Itapetininga ele pusesse em risco a normalidade dos negócios ou o decoro do finado chá-das-cinco”, lembra Antônio Cândido em 1970.

O romance entre Oswald e Tarsila do Amaral, que se juntou ao grupo depois da Semana de Arte Moderna, acontece junto ao período de muitas viagens à Europa. A primeira no final de 22 de onde o casal retomará apenas no final de 1923.
Muitos contatos importantes são feitos com a vanguarda artística: Pablo Picasso, Jean Cocteau, Brancusi, Erik Satie, Blaise Cendrars, além de uma palestra na Sorbonne, com o tema “L'effort intellectuel du Brésil Contemporian”.
Em 1924 Oswald publica duas grandes obras: Memórias Sentimentais de João Miramar e o Manifesto Pau-Brasil. O crítico Antônio Cândido, em “Estouro e Libertação”, artigo de 1944, afirma:
Memórias Sentimentais de João Miramar, além de ser um dos maiores livros de nossa literatura, é uma tentativa séria de estilo e narrativa ao mesmo tempo em que um primeiro esboço de critica social.
A burguesia endinheirada roda pelo mundo o seu vazio, as suas convenções, numa esterilidade apavorante. Miramar é um humorista pinse sans rise que (como se diria naquele tempo) procura kodakar a vida imperturbavelmente (sic), por meio de uma linguagem sintética e fulgurante, cheio de soldas arrojadas, de uma concisão lapidar. Graças a esta linguagem viva e expressiva, apoiada em elipses e subentendidos, Oswald de Andrade consegue quase operar uma fusão da prosa com a poesia.
O movimento Antropofágico proposto por Oswald vai nascer no dia de seu aniversário de 38 anos quando Tarsila lhe presenteia com um quadro, o Abaporu ou o homem que come.



Entusiasmado com o novo movimento, Oswald lança o "Manifesto Antropófago" e a Revista de Antropofagia (La dentição) fundada com Raul Bopp e Antônio de Alcântara Machado.
Por essa época, outra normalista frequenta as reuniões do grupo: Patrícia Galvão, “batizada” por Raul Bopp de PAGU.
O poema "Coco de Pagu", feito por Raul Bopp foi, conforme Augusto de Campos em Pagu Vida-Obra, publicado pela primeira vez na Revista Para Todos do Rio de Janeiro.


Pagu tem os olhos moles Olhos de não sei o que
Si a gente está perto deles A alma começa a doer
Ai Pagu eh
Dói porque é bom de fazer doer


Formada como professora, profissão que nunca exerceu em sala de aula, para a época era um grande feito e quase o máximo possível para as mulheres.
Em Um Homem sem Profissão, Oswald narra o futuro das mulheres de seu tempo.
Assisti ao desnudamento do homem como da mulher no meu século. Esta coitada, até minha adolescência, esmagava o corpo entre espartilhos e barbatanas de cintas ferozes. Era preciso tirar dela os últimos traços do natural.
... Casadas, “as mulheres transbordavam de gordura em largas matinês, o que fazia os maridos, saudosos de carne muscular e limpa, voltarem aos bordéis”. Uma vida de simulação ignóbil, abençoada e retida por padres e confessores, recobria o tumulto das reivindicações naturais que não raro estalavam em dramas crus. Um pai matava a filha porque esta amara um homem fora de sua condição.
Foi Isadora Duncan quem com seus pés nus pisou pela primeira vez a terra que, atrás de seu exemplo, se desnudaria.
Como estudante da Escola Normal, desafiava os padrões estéticos no vestir e no falar. Depoimentos descrevem a normalista como extravagante e moderna para a época. É o caso de Pedro Oliveira Ribeiro Netto em entrevista a Augusto de Campos em Maio de 1978:
... Era uma menina forte e bonita, que andava muito extravagantemente maquiada, com uma maquiagem assim, que não era da idade dela nem prá pele dela, que ela tinha a pele muito boa, mas ela andava com uma maquiagem escura, amarelo-escura, meio cor de queijo palmira, e pintava os lábios de quase roxo, tinha um cabelo comprido, assim pelos ombros, e andava com o cabelo desgrenhado e com grandes argolas nas orelhas .
... E outra coisa, também. Pagu usava saia muito curta que não era muito usual nessa época, ela usava saia muito mais curta do que as outras usavam, era meio minissaia. Passava todos os dias pela Faculdade de Direito. Diziam qualquer piada forte prá ela e ela não se dava por achada e respondia, chamava de filho disso, filho daquilo. Ela dizia mesmo. Não tinha problema.
E Luís de Almeida Salles complementa, na mesma entrevista:
...Mas você esqueceu de um detalhe. Ela usava uma bolsa que era um cachorrinho, um cachorrinho de pelúcia que abria, uma bolsa chocante; um animalzinho que ela carregava.
Com essa desenvoltura Pagu assumirá mais tarde a militância política, desafiando, polemizando, fazendo valer o seu ideal e sua paixão, para redefinir o papel da mulher na sociedade.
Em maio, Oswald e Pagu começam a escrever o Romance da Época Anarquista ou livro das Horas de Pagu que são minhas. O caso entre os dois teria começado na fazenda que Oswald comprara do pai de Tarsila e os encontros aconteciam em outra chácara na Avenida Santo Amaro.
Pagu está grávida. Oswald que já planejara o sequestro de Landa, não tem dificuldades em inventar um plano infalível: Pagu irá casar-se com Waldemar Belizário, pintor que morava nos fundos da casa de Oswald e Tarsila, Diferente do sequestro, este plano funciona e os dois casam-se em 28 de setembro, ele e Tarsila são padrinhos do casamento na Vila Mariana.
Pagu e Waldemar, casados, vão passar a lua de mel em Paris, e seguem de carro para Santos. No meio do percurso está Oswald e Nonê esperando a noiva em outro automóvel. Enquanto o noivo retoma sozinho para São Paulo, os três partem para Santos. Tudo parte do “plano perfeito” de Oswald.
Em Santos, o novo casal fica em uma pensão e parte para a Bahia. Na volta, a união já não é surpresa e assumem publicamente o amor. É janeiro de 1930, Oswald completa 40 anos e Pagu 20 anos, em junho.



Foto do casamento em frente à Igreja da Penha, em São Paulo (Foto do livro: Pagu - Patrícia Galvão - Livre na Imaginação e no Espaço, de Lúcia M. Teixeira Furlani - 4ª Edição - Editora Unisanta - 1999, Pág. 45. 

Lúcia Furlani descreve assim: "A presença de Pagu desaloja completamente Tarsila da visão e da vida de Oswald, com quem ela, então, finalmente se une. A cerimônia acontece, primeiro, no cemitério, em frente ao jazigo da família do escritor (e onde ele está enterrado). Depois, posam em frente à Igreja da Penha em São Paulo - conforme pode ser verificado no depoimento de Oswald de Andrade, a seguir:
Segundo trecho do livro "O Romance da Época Anarquista ou Livro das Horas de Pagu que são minhas",1929-1931, Oswald de Andrade narra o seguinte, sendo assim, supõe-se que houve foto do dois casando-se no Cemitério:
"1930, 5 de janeiro. Nesta Data, contrataram casamento a jovem amorosa, Patrícia Galvão e o crápula forte, Oswald de Andrade. Foi diante do túmulo do Cemitério da Consolação, à Rua 17, nº 17, que assumiram o heroico compromisso. Na luta imensa que sustentaram pela vitória da poesia e do estômago, foi o grande passo prenunciador, foi o desafio máximo. Depois se retrataram diante de uma igreja. Cumpriu-se o milagre. Agora sim o mundo pode desabar".
O ano de 1930 é marcado por mudanças políticas e econômicas, desencadeadas pela quebra da bolsa de valores norte-americana e pelo apoio de Washington Luís a Júlio Prestes, quebrando o acordo entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais na sucessão presidencial, que era de revezar um paulista e um mineiro no poder federal e estes, eram dois paulistas. Os mineiros resolvem apoiar Getúlio Vargas, governador gaúcho, com João Pessoa, paraibano, para vice.
No final do pleito, o paulista sai vencedor e é acusado de fraude eleitoral, comum na época. Descontentes, os grupos formados por militares e políticos planejam um golpe para evitar a posse de Júlio Prestes.
Em Recife, no meio do ano, João Pessoa é assassinado, por um adversário político, motivado por questões pessoais. Foi o estopim para as tropas iniciarem a rebelião contra o governo.
Ainda nesse ano conturbado, Pagu dá à luz Rudá Poronominare de Andrade em 25 de setembro. Os nomes indígenas significam o deus do amor e uma divindade aventureira, respectivamente.
Um mês depois, Pagu está nas ruas agitadas pela revolução. A população enfurecida quebra, grita, agita: é o Brasil fechando um período e abrindo o novo. São Paulo prepara-se para o próximo levante, a Revolução de 32.
Depois de ter 'apoiado' o golpe que colocou Vargas no poder, em dezembro Pagu está na Argentina para um recital de poesia. Encontra Prestes que, da mesma forma que tentou convencer os tenentes da revolução através do comunismo, como única forma de beneficiar realmente o povo, também o faz com Pagu.
O comunismo que Oswald não percebeu na viagem à Inglaterra em 1912 entrava agora pela porta da frente de sua casa. No ano seguinte ao do encontro com Prestes, os dois estão inscritos no Partido Comunista.
Em 1931, participando de uma manifestação em Santos, acontece a sua primeira prisão como agitadora, o que a coloca como a primeira mulher presa por motivos políticos no Brasil.


Assim deixaram o rosto da Pagu de tanta tortura na prisão.


Nesse momento de suas vidas, conseguiram unir a paixão e a consciência num projeto único. Parte desse projeto incluía a revolução cultural, o jornalismo era um caminho possível para isso.
Durante os meses de março e abril de 1931, fundam o jornal panfletário O Homem do Povo. Com apenas oito números, o jornal em formato tabloide foi a primeira manifestação dos dois dentro da nova ideologia que assumiram e deu muito que falar na cidade.
Por exigência do Partido Comunista, Pagu lança, em janeiro de 1933, com o pseudônimo Mara Lobo, o romance proletário Parque Industrial retratando a situação das operárias no bairro do Brás, em São Paulo.
Com texto forte, sem meias palavras, as protagonistas vivem as situações cotidianas do bairro operário marcado pela pobreza e exploração, na constante luta para, apenas, sobreviver.
Mesmo duro, o livro guarda momentos de lirismo, como a passagem da deportação de Rosinha Lituana, delatada por Pepe em troca de dez mil réis, com os quais pretende comprar um presente para a ex-noiva, tentando reatar o romance. Expulsa por querer mudar a situação social dos pobres no Brasil.
No interrogatório, comunicam-lhe que a vão expulsar. – Você é estrangeira!
Mas ela não conhece outro país. Sempre dera o seu trabalho aos ricos do Brasil! Sorri numa amargura. Vão levá-la para sempre, do Braz ... Que importa?
... Mas deixar o Brás! Para ir aonde? Aquilo lhe doe como uma tremenda injustiça. Que importa! Se em todos os países do mundo capitalista ameaçado, há um Brás ...
Outros ficarão. Outras ficarão.
Brás do Brasil. Brás de todo o mundo.
Além de financiar o livro de Pagu, Oswald também banca a edição de Serafim Ponte Grande, lançado pela Ariel Editora Ltda., do Rio de Janeiro. Junto com Memórias Sentimentais de João Miramar, esse livro é inovador, propondo novas formas de escrever um romance. O livro estava pronto desde 1928, mas Oswald, minucioso, por várias vezes alterou o seu prefácio, até concluí-lo de maneira crítica e autocrítica. Nele define posições e finaliza assumindo seu papel de escritor como transformador da realidade.
O caminho a seguir é duro, os compromissos opostos são enormes, as taras e as hesitações maiores ainda. Tarefa heroica para quem já foi Irmão do Santíssimo, dançou quadrilha em Minas e se fantasiou de turco a bordo.
Seja como for. Voltar para trás é impossível. O meu relógio anda sempre para frente. A História também.
O livro retrata, às vezes auto-retrata, o lado mais libertário de Oswald, contando a história do funcionário público Serafim, traidor da revolução que rouba o caixa dos revolucionários, guardado por seu filho, fica milionário e sai viajar pelo mundo.
Não são livros que se complementam, quanto ao conteúdo da trama entre personagens, mas ambos testemunham um momento histórico e uma maneira nova do fazer literatura.
O casal mostra seus amigos, ex-amigos e sociedade uma forma de ser e viver diferente daquela - considerada – “normal” para a classe social de onde vieram. Oswald com 43 anos, não mais o homem rico da década passada, sempre ávido de novas experiências estéticas e sociais, aceita o desafio de Pagu, com 22 anos, apaixonada e revolucionária, acreditando que a ação política e intelectual, trará igualdade de classes no Brasil.
Essa química, mesmo estando cada um fugindo para um lado, mantinha acesa a chama do casal. A questão não é a aventura inconsequente, é sim, saber que está fazendo o novo, apesar das “taras e hesitações”.
Esgotada, parte para um auto-exílio, que dura de dezembro de 1933 a novembro de 1935, deixando Oswald e Rudá em São Paulo. Dos lugares por onde passa, envia matérias para os jamais Correio da Manhã, Diário de Notícias e Diário da Noite, os dois primeiros do Rio de Janeiro e o outro de São Paulo.
O roteiro parte do Rio de Janeiro rumo ao Pará, dali parte para a Califórnia passando pelo Canal do Panamá.
Aproveita a passagem por Hollywood e trava contato com artistas e diretores do cinema americano e, informalmente, é convidada para ficar. Recusa, pois “A minha finalidade é muito maior e mais difícil de alcançar”.
A próxima parada é o Japão. Lá estava seu “padrinho”, Raul Bopp (também padrinho de Rudá, batizado nas águas de Santos ou São Vicente por Bopp) como chefe do consulado em Kobe, que organiza sua estada e visita às ilhas em fevereiro de 1934.
Longe das atividades e das pressões partidárias, Pagu parece estar feliz. A viagem transcorre sem sobressaltos, mas com surpresas: encontra Freud no navio para a China, é a única latino-americana na posse do príncipe. Com outro príncipe, Puhy, em Hsiking, consegue as primeiras sementes de soja que entraram no país, chamadas aqui de Soja Pagu.
Seu destino é a Rússia. No famoso trem Transsiberiano segue para Moscou e em maio, envia notícias para Oswald, “Te escrevo na portinha de Moscou. E botando os últimos recalques na latrina”. E num postal, com a foto de Lênio, o líder soviético, começa a desilusão com o socialismo, “Meu bem, te mando este de Moscou. Isto aqui é jantar frio sem fantasia. Tou Besta”.
Enquanto isso em São Paulo, as juras de “amor eterno” e o “profundo amor”, estão abalados.
No final do ano de 1934, enquanto Pagu se restabelece em Paris, pois estava ferida em consequência de um confronto com a polícia local, Oswald conhece, em uma festa no Grupo Escolar do Brás, Julieta Guerrini, com quem fica e, em dezembro, assinam contrato antenupcial.
Em carta para Oswald, já restabelecida em 1935, relata momentos de felicidade na luta pelo mundo melhor, “Temos tido combates seguidos nas ruas”. Militando fervorosamente, é presa e a farsa de Leonnie é descoberta. A situação complica por ser comunista e estrangeira. O governo francês oferece duas saídas: o Conselho de Guerra ou a deportação para a Alemanha nazista ou para a Itália fascista, dois países reconhecidamente contra o comunismo.
A salvação vem do embaixador Souza Dantas, conseguindo a sua repatriação para o Brasil.
Em novembro, Pagu chega ao Brasil. É de Sidéria, sua irmã, na mesma entrevista para Augusto de Campos, o relato do regresso:
Nós fomos esperá-la em Moji das Cruzes. Ela desembarcou no Rio e de lá tomou um trem para Moji, onde moravam meus pais, naquela época. E então, estávamos eu, meu pai, Oswald e Rudá, com um buquê de flores, esperando. Daí ela chegou e o Rudá deu as flores pra ela, que ela não via o Rudá fazia uns anos, não é, e daí a gente foi jantar, foi aquela festa de chegada. E o Oswald nessa época já estava de caso com a Julieta Bárbara. Eu tinha um quarto na rua dos Andradas, onde eu morava sozinha, e então ficamos, eu e a Pat, com o Rudá. Depois ela foi trabalhar na "Platéia" e nós estávamos mesmo militando. E um dia as coisas estavam apertando muito, nós estávamos sendo meio perseguidas e tudo, então a gente telefonou pro Oswald porque a gente estava numa vida que não podia continuar com uma criança, e os Oswald já vivia com a Julieta Bárbara. E veio o golpe de novembro e nós fomos presas, as duas.
Era o fim do relacionamento entre Oswald e Pagu.


CONCLUSÃO:


“A paixão é, por essência, feita para ser vista: é preciso que se lida o esconder: saiba que estou lhe escondendo alguma coisa”.
(Roland Bartbes. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1981. p.80)

Na entrevista que fiz com Rudá de Andrade, em janeiro de 2000, este revelou fatos e interpretações novas para a relação entre Pagu e Oswald, seus pais.
Analisando o casamento dos dois, procurou deixar bem claro que ambos se influenciavam, e não como muitas vezes é dito, que Pagu transformou Oswald.
“Acho que não é bem assim, é um complexo de coisas. Os dois se encontraram no momento, nas suas circunstâncias, essas circunstâncias criaram o momento conflitante, emocional, momento vigoroso, extraordinário e que isso fez aquela coisa de larga a Tarsila, pega a Pagu, faz isso faz aquilo, faz um filho, tudo isso faz parte, tudo nasce nessa paixão. O sonho ligado a Utopia. E a utopia socialista, que é um sonho civilizatório, sonho internacional. Todo um contexto universal, nem local, universal”.
Oswald sempre foi um pai muito chegado aos filhos, queria todo mundo por perto. Rudá reencontrou a mãe muito tempo depois que ela saiu da prisão (de 1935-­40), mais por iniciativa sua do que de Oswald, “... ele abortava meus encontros, desconversava. Tinha medo que eu me apaixonasse por minha mãe. E foi o que aconteceu”.
Pagu era muito meiga, encantadora e divertida, criando personagens a toda hora, como seu gato, que se chamava Gim. Às vezes Gim era o gato, outras vezes Gim era a bebida e ainda Gim era escrever ou desenhar alguma coisa, “a Pagu vivia num mundo. No mundo da lua”.
A melancolia que atribuem a Pagu, depois que deixou a prisão, é rebatida por seu filho. Na sua opinião, ela oscilava entre a depressão e a felicidade, com “momentos de grande entusiasmo, grande emoção, grande revelação, grande satisfação, grande euforia e momentos realmente depressivos”.
Mesmo no hospital, quando esteve internada nos tempos de prisão,muito deprimida e doente, cativou todo mundo, mesmo sofrendo choque elétrico e medicação forte, típicos de tratamento de doentes mentais da década de 30, “a gente fazia uma farra lá dentro, adotou umas pessoas, uma menina, um amor de pessoa, uma louquinha de lá, mas muito legal”.
O que é a paixão? A paixão segundo Oswald e Pagu, hoje?
Parecem respostas simples, imaginando que o contexto que os envolveu não existe mais e as - chamadas - políticas alternativas mundiais, a terceira via, que tanto encanta nossos políticos atualmente, sugerem uma coesão entre a (velha) esquerda e a (sempre) direita, num projeto salvador comum: a Globalização. E ponto final!
Dessa forma, Oswalds e Pagus estariam tão fossilizados quanto um Tiranossauro Rex, o grande carnívoro.
Felizmente, a paixão é o extraordinário, a revelação, uma perturbação que nos descobre, nos faz descobrir o risco e assumi-lo com criatividade. Nos faz dizer NÃO! às respostas prontas.
Enganam-se aqueles que imaginam, idealizam a paixão como linear. Ao contrário, ela é conflitante, imprevisível, contraditória. Não traz segurança para os apaixonados, seus projetos comuns são nutridos pela desigualdade, é isso o que atrai um ao outro, pois, mesmo assim, o projeto é em comum.
Esse é o segredo de Oswald e Pagu, descobrir o risco. E assumi-lo.
Eles assumiram, como poucos, essa paixão. Paixão um pelo outro, no que cada um tinha de individual para fundir com o outro.
Paixão por descobrir novas ideias, mesmo que elas valham anos de prisão. Qual é o risco que queremos assumir hoje?
Nosso contexto de consumismo, colocando um “sedativo” nas classes altas e médias, que buscam mais e mais segurança em tudo (rua, emprego, lazer, consumo, negócios, política etc.) é o palco propício para não querer riscos. Como se tudo o que está acontecendo, não fosse problema nenhum.
Por isso, muitos jovens preferem “ficar” com o outro, como eles mesmos dizem. Apenas ficar quer dizer, apenas não assumir o outro e suas contradições. O outro nunca é o OUTRO.
O que também não é crime nenhum. Cada geração encontra as saídas que pode, para dar conta das “dores” da paixão.
Outras personagens conhecidas assumiram seus riscos e paixões. Picasso teve várias fases em sua pintura, fase azul, rosa, cubismo, cerâmica e, para cada fase, abandonava tudo - casa, mulher, quadros, ideias - e partia, entusiasmado para o novo. Oscar Wilde desafiou sua época e assumiu um amor homossexual por um jovem da alta sociedade. Morreu em 1900, depois de condenado por esse amor, cumpriu pena de dois de prisão e trabalhos forçados, o que minou sua saúde. Dali, o “gênio excêntrico”, criou tudo de e para Gala, sua mulher-musa, numa paixão arrebatadora e sem fim.
Não é o caso de julgar. Os dualismos, certo e errado, bem e mal, bom e mau, não se aplicam às grandes paixões. A paixão desafia as convenções sociais, desafia sua época, quer se tomar público seja lícito ou ilícito.
A exacerbação da paixão, entre Oswald e Pagu, mostrou isso: risco, desafio, contradição, criatividade.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE,Oswald. Um homem sem profissão. Memórias e Confissões. Sob as Ordens de Mamãe. São Paulo: José Olympio, 1954.
BENGUELL, Norma. Eternamente PAGU. Rio de Janeiro: FILEM, 1987.
BRITO, Mário da Silva. As metamorfoses de Oswald de Andrade. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1972.
CAMPOS, Augusto de. PAGU Patrícia Galvão VIDA OBRA. São Paulo: Brasiliense, 1982. CÂNDIDO, Antônio. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 3. ed. rev. e ampl., 1995. FONSECA, Maria Augusta. Oswald de Andrade O homem que come. São Paulo.Brasiliense, 1982 FONSECA, Maria Augusta. Oswald de Andrade 1890-1954 Biografia. São Paulo: Secretaria do Estado da Cultura, 1990.
FURLANI, Lúcia Maria Teixeira. Patrícia Galvão - Livre na imaginação, no espaço e no tempo. Santos: UNISANTA, 1999.
GALVÃO, Patrícia. Parque Industrial Romance Proletário. São Paulo: Alternativa (edição Fac-similar), 1981.
REMATE DE MALES. Revista do Departamento de Teoria Literária n. 6, Campinas: UNICAMP, 1986.
As fotos expostas no Blog foram adquiridas do: livro da Lúcia M. Teixeira Furlan (título mencionado no texto), site do Pitoresto, Acervo IEB/USP, Lia Zats (Pagu, a Luta de Cada Um - Editora Callis e Museu Pagu da Cidade Santos.

(Paulo Celso da Silva – Estudo Acadêmico – UNIBERO/SP – Ano VII – Nº 13 – Janeiro/Junho de 2001)