sábado, 19 de janeiro de 2008

TARSILA DO AMARAL & ANITA MALFATTI

TARSILA & ANITA
Luiz de Almeida
Apesar de alguns (especuladores negligentes) tentarem afirmar que Tarsila do Amaral e Anita Malfatti foram inimigas - desconhecendo o fato das duas terem iniciado uma sólida amizade quando foram alunas de Pedro Alexandrino (1918...), desconhecendo também que Anita manteve Tarsila informada (na Europa) dos acontecimentos daqui, como assim fez quando da realização da Semana de Arte Moderna, antes de postar qualquer texto-estudo sobre a Tarsila, deixo aqui três tópicos importantíssimos: o primeiro é o desenho-retrato que Anita fez de Tarsila - provavelmente em 1919; o segundo: a foto das duas quando da Mostra de Anita no Masp, em 1955, tendo ao centro o Desenho-Retrato de Tarsila; e o terceiro: uma crônica de Tarsila sobre Anita. Assim:


Retrato de Tarsila por Anita Malfatti
(Pastel, 43 x 32 cm - 1919)
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Tarsila do Amaral e Anita Malfatti (1955)
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TERCEIRO TÓPICO:
DO LIVRO "TARSILA CRONISTA"
Anita Malfatti
6.12.1945

No próximo dia 11 encerra-se no Instituto dos Arquitetos, à rua 7 de Abril, a exposição de pintura de Anita Maltatti.
Fez muito bem a artista em apresentar de novo ao público alguns dos quadros que lhe restam da célebre exposição que realizou em fins de dezembro de 1916. Era essa a primeira exposição de arte moderna que se via no Brasil, e mesmo na América do Sul. Esses quadros, que nossos olhos educados admiram hoje como quem admira a paisagem cotidiana, já foram alvo de injúrias e anátemas.
Anita, que nesse tempo era uma simples menina corajosa, enfrentou o público de São Paulo, apresentando uma pintura nunca dantes vista nem sequer imaginada nestas paragens. Foi, portanto, um perfeito escândalo. Acham-se agora algumas dessas telas no Instituto dos Arquitetos, dando-nos a oportunidade de verificar a evolução do povo daquela época.
Bem poucos a compreenderam. Sei que Wasth Rodrigues, pintor que representava uma arte bastante avançada para o meio, lamentava não saber pintar como Anita. Imagine-se o efeito dessa confissão entre os nossos artistas!
O falecido professor Elpons, que mantinha em São Paulo um curso de pintura, deixando boas influências, fez-lhe também grandes elogios e chamava a atenção para alguns desenhos de colegas da artista, os quais figuravam entre os quadros expostos no salão térreo da rua Líbero Badaró. Esses desenhos eram para o público uma charada de bem difícil decifração: figuras em movimento, de caráter cubista.
Anita chegava dos Estados Unidos, para onde fora depois de um breve curso de pintura na Alemanha. Em Nova York, uma colega de academia disse-lhe uma vez: “Vamos para uma escola livre. Lá você poderá pintar como quiser”. Era a “Independence School of Art”, dirigida por Homer Boss, onde se reunia um pequeno grupo heterogêneo: pintores, dançarinos, artistas dramáticos. Eram poucos, mas pesavam bem na balança dos valores: Isadora Duncan e seu irmão, Raymond Duncan; Juam Gris; Baylinson, cujos desenhos foram expostos por Anita, assim como os de Sara Friedman e Floyd O´Neal, de linhagem aristocrática, sobrinha de Mac Adoo, secretário do gabinete do presidente Wilson. Também faziam parte o grupo a grande bailarina russa Napierkwska, que na Primeira Guerra Mundial refugiara-se nos Estados Unidos; Marcel Duchamp e um neto de Claude Monet. Napierkowska, depois de seis meses de estadia na América do Norte, celebrizou-se como artista dramática, representando durante dois anos seguidos a notável peça “War´s Bride”.
O Ministro da Guerra, Daniels, ia freqüentemente de Washington a Nova York par passear com Anita, Sara Friedman, Floyd O´Neal e uma sobrinha sua, de nome Evelyn Hope Daniels, que pertencia também ao grupo da “Independence School of Art”. Faziam freqüentes excursões, mas o que as encantava era ver Isadora Duncan no Estádio da Universidade de Columbia.
Anita se recorda com saudades desses amigos. A vida era mais ou menos surrealista. Quando se tratava de almoçar, o secretário Baylinson se apresentava entre os estudantes e corria o chapéu, com o cuidado de cobri-lo bem para que ninguém vise o dinheiro ali depositado, escondido antes na mão fechada. A maior parte, em dificuldades financeiras, não deixava cair nem um cêntimo, mas o chapéu era milagroso e dinheiro não faltava. Um dia Baylison disse a Anita em segredo: “Não seja boba. Não dê nada, porque aqui trabalham dois milionários que se fingem de pobres; uma senhora e o rei do aço”. (O rei do aço talvez saísse da imaginação de Baylinson). Esses ricaços queriam uma vida simples, com estímulo e conforto espiritual entre os alunos. A escola ficava muitas vezes em pé de fechar. Não havia dinheiro para o aluguel. Todos lamentavam, choravam juntos, mas no dia seguinte as contas estavam pagas e a vida recomeçava. Tudo isso era por causa de uma gaveta mágica na mesa do secretário, onde todos depositavam às ocultas as suas moedas para as despesas.
Seria mais interessante essa história contada pela própria Anita, que poderia também ser, se o quisesse, uma grande escritora. Conservo com carinho algumas de suas cartas, comprovadoras do que acabo de afirmar. Entre elas acha-se uma que escreve, com agilidade e espírito, o que foi a célebre Semana de Arte Moderna. Nessa época eu me achava em Paris, estudando pintura e não me nego a dizer que fiquei chocada ao saber que em São Paulo se atacava Olavo Bilac e outros nomes consagrados. Era essa a atitude daqueles que em 1916-1917 deram apoio a Anita. Todos os organizadores da Semana se confraternizaram em torno da pintora e se conheceram durante a sua exposição. Di Cavalcanti foi o primeiro a apresentá-la a Oswald de Andrade. Casualmente, apareceu na exposição Mário de Andrade, que voltou depois levando à artista um soneto parnasiano, dedicado ao “Homem Amarelo”, quadro que adquiriu mais tarde para a sua coleção. Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia e Armando Pamplona escreveram artigos elogiosos no Correio Paulistano.
E os anos se passaram. Hoje, todos, unânimes, reconhecem em Anita uma precursora, cujo nome está definitivamente ligado à história da pintura brasileira. Seus quadros já estão sendo disputados pelos colecionadores conscientes de que é maior a sua valorização em cada ano que passa.
Do período de exaltação da sua primeira exposição, onde as cores são violentas e às vezes agressivas, a pintora atinge agora o período de suavidade. Ao entrar no salão do Instituto dos Arquitetos, deparamo-nos com um conjunto de cores luminosas, agradáveis, que se espalham com espiritualidade pelas suas flores e nas suas telas tipicamente brasileiras.

(Amaral, Tarsila. In Tarsila Cronista. Introdução e Organização de Aracy Amaral – São Paulo. Edusp, 2001 – 1ª Edição. Anita Malfatti - Págs. 207 a 210).