terça-feira, 15 de janeiro de 2008

TÁCITO DE ALMEIDA - O MODERNISTA ESQUECIDO

TÁCITO DE ALMEIDA:
CRONOLOGIA BIOGRÁFICA E CULTURAL

1899 – 14 de Julho, nasce em Campinas – SP, Carlos Tácito Alberto de Almeida Araújo, o Tácito de Almeida, apelidado de Taci pelos amigos, quarto filho do Dr. Estevam de Araújo Almeida e de D. Angelina de Andrade Almeida;
1900 – Transferindo-se a família para São Paulo, cursa o Colégio Macedo Soares e o Ginásio N. Sra. do Carmo;
1910 – Exerce papel importante na criação da Liga Nacionalista;
1917 – Adere à Liga Nacionalista. O irmão primogênito Guilherme de Almeida, estréia na literatura com o livro de poemas “ “Nós”. Entra para a faculdade de Direito;
1919 – Formado aos 20 anos, viaja pelo interior durante a campanha de Rui Barbosa à presidência da República. Em São Manuel, em sessão cívica no cinema, conhece Guilhermina Pinho. Casa-se com ela;
1921 - Guilhermina morre de febre puerperal, deixando Flávio que será criado pelos avós maternos;
1922 – Participa ativamente na realização da Semana de Arte Moderna de 22. Escreve no “mensário de arte moderna”: Klaxon (cuja redação ficava no seu escritório), sob o pseudônimo de Carlos Alberto de Araújo. Na Klaxon, Tácito de Almeida e Guilherme de Almeida encarregam-se do planejamento e põem mãos à obra na execução gráfica quase artesanal da revista na Tipografia Paulista de José Napoli, à Rua da Assembléia, em São Paulo. Com Antonio Carlos Couto de Barros, amigo de faculdade, monta escritório na Rua Direita, nº 33. Milita no Diário Nacional, órgão do Partido Democrático;
1923 – Paralisa a produção poética e inicia a produção de textos jurídicos e políticos. Na casa holandesa em que mora com os pais, à Rua Fausto Ferraz, no Paraíso, transforma a mansarda em apartamento moderno e minúsculo, depois de ter aplaudido a mise-en-scène do filme de Wiene, O gabinete do Dr. Caligari. Inaugura-o com festa ao som de jazz;
1926 – Escreve o conto “Um homem bondoso” para o primeiro número da revista modernista “Terra roxa... e outras terras”;
1932 – Em maio, casa-se pela segunda vez com Nina von Riesenkampf, refugiada russa, filha de almirante do czar. Nina é irmã da pintora Moussia Pinto Alves, casada com Carlos Pinto Alves, jurisconsulto, grande amigo de Tácito. Os filhos com Nina são Eduardo Luís Paulo e Beatriz. Participa ativamente da Revolução Constitucionalista;
1933 – É um dos fundadores da Escola Livre de Sociologia e Política, onde lecionou Ciência Política;
1940 – 03 de setembro, morre em São Paulo.
 

COMENTÁRIOS E CRÍTICAS

De Mário da Silva Brito: “O canto de Tácito de Almeida transfigura o descritivo buscando integrar o homem e a natureza. Tende ao lirismo meditativo. Este emerge de versos dotados de certa pompa imagística ou de polida ironia. Irônico é o poema Paz Universal, em que exalta a alegria e a concórdia – esperanças acalentadas pelos homens recém-saídos do conflito bélico de 1914-1918. Não se esquece, porém, de que a vida é luta, uma outra guerra. Os modernistas da primeira hora, entre os quais Tácito figura historicamente, empenhavam-se em opor a alegria à dor. O poema Paz Universal é representativo dessa direção do espírito, embora o envolvam as sombras do pessimismo”.(Brito, Mário da Silva – in: Poetas Paulistas da Semana de Arte Moderna – pág. 148 – Editora Martins – 1972).De Manuel Bandeira:- (MB foi admirador da poesia de Tácito no primeiro momento modernista). Em 1924, quando os caminhos se diversificavam, o autor de Libertinagem renega Pau-Brasil e invectiva os modernistas de São Paulo, com exceção de Mário de Andrade: "Mas eu não adiro. E vou começar a fazer intrigas. Há muita insinceridade nesse chamado movimento moderno. Fala-se mal dos outros pelas costas. Cada qual vai fazendo hipocritamente o seu joguinho pessoal. Oswald chama Guilherme de Almeida de campeão peso-leve da poesia nacional, e com outros lhe opõe perfidamente o irmão Tácito, que assina Carlos Alberto de Araújo com receio de perder os clientes de advocacia”.(BANDEIRA, Manuel - "Poesia Pau-Brasil". In: Andorinha, andorinha. dSeleção e coordenação de textos de Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986. p. 247-48.(texto de 1924, conforme o organizador; sem indicação de periódico).
POEMAS DE TÁCITO DE ALMEIDAPAZ UNIVERSAL
A Graça Aranha


Alegria!

Só no meu país a terra ainda é vermelha.
Esforço para germinar,
ou para suportar o peso dos homens....

Não há mais sangue sobre o mundo.
Ele está todo branco,
linfático,
cor de cidade, cor de riso...

Alegria!

Os povos,
as grandes ruas iluminadas,
e os homens felizes,
esquecidos das trincheiras,
afastados da dor,
amputados da dor...

O passado perdeu-se,
e não conhece mais os caminhos,
os caminhos das almas...
E ninguém sabe que nesta hora,
em toda a parte há pessoas que agonizam,
e há veias que se esvaziam
e há corpos ainda quentes sob a terra fria...

ALEGRIA! ALEGRIA!

A vida na frente de cada homem,
como uma espada polida
que eles vão brandindo.

ALEGRIA!

PAZ UNIVERSAL!

Nunca houve tanta guerra,
tanta luta entre os homens!

Luta amarga para viver,
luta ardente para amar,
luta dolorosa para sorrir...

ALEGRIA!

PAZ UNIVERSAL!

( Editado na revista KLAXON – n.’s 8 e 9 – Dez. 1922 – Jan. 1923 – págs. 17 e 18 – São Paulo )

SALVAR
Mais um desejo, amigo!
É preciso soltar,
Pelas florestas frias e adormecidas,
Todos os nossos desejos tímidos,
Procurando mesmo assombrá-los,
Para que fujam, para que corram
E se desviem por todos os lados...

Mais um desejo!
É preciso que a pálida vida,
Nos seus longos passeios desoladores,
Encontre sempre um desejo perdido
Que ela saivá salvar...

( Editado na revista KLAXON – nº 6 – pág. 6 – em 15 de outubro de 1922 – São Paulo )