terça-feira, 25 de março de 2008

QUAL FOI O MOTIVO DOS MODERNISTAS TEREM IGNORADO LIMA BARRETO?

UM POUCO DE:
LIMA BARRETO


Dentre todos os livros do Lima Barreto, particularmente prefiro o “Diário Íntimo”, prefaciado por Gilberto Freire. É simplesmente maravilhoso pelo fato de mostrar o Lima Barreto exatamente como ele foi... ou como pretendia ser.
Nas pesquisas e estudos ainda em andamento, percebi que Alfredo Bosi o classifica como um dos últimos Pré-Modernistas. Paula Beiguelman, autora do lindíssimo “Por que Lima Barreto”, editora Brasiliense – Sp – 1981. Considero a Paula totalmente suspeitável, pois demonstra uma imensa paixão pela obra do autor de Recordações do Escrivão Isaías Caminha e Numa e a Ninfa: ela o classifica como o “Grande Romancista” - e, independentemente da tietagem da Paula, Lima realmente foi e ainda é um dos nossos “grandes” literatos. O que ela narra é simples e lógico: “Para entendermos Lima Barreto precisamos aprender primeiramente “como ler” e “porquê” ler suas obras, pois contrariamente continuará sendo um simples escritor alcoólatra e sem formação universitária, como afirma Alfredo Bosi.
Os mestres Carlos Emílio Faraco e Francisco Marto Moura, no “Língua e Literatura”, Editora Ática, livro dedicado aos estudantes do 2º Grau, são puramente didáticos, mas colocam Lima Barreto no zênite do Pré-Modernismo. Na verdade eu tenho a certeza de que Lima Barreto só não foi “totalmente” modernista pelo fato lógico de ter falecido antes de conhecer os moços de 22.
Apesar de muitos modernistas terem ignorado Lima Barreto, fato até hoje muito discutido, mas que ele foi ignorado... ah! não tenham dúvidas: foi mesmo.
No desenvolvimento das minhas pesquisas irei ainda concluir estudos já iniciados, sobre um texto significativo do Mário de Andrade sobre Lima Barreto, assim como de outros autores, desnecessário nomeá-los agora. Basta, neste momento, apenas familiarizarmos estudando uma simples Cronologia Biográfica e Artística do Lima, que no início dos meus estudos havia intitulado de: Lima Barreto: Sua Cronologia Biográfica e Cultural.

Luiz de Almeida


CRONOLOGIA BIOGRÁFICA
E ARTÍSTICA

1881 – 13 de Maio, nasce no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro, à Rua Ipiranga, N.º 18, Afonso Henriques de Lima Barreto, segundo filho da professora pública Amália Augusta Barreto e do tipógrafo João Henriques de Lima Barreto. Em 13 de Outubro é batizado na igreja matriz de Nossa Senhora da Glória, no Rio de Janeiro.
1887 –
Dezembro, de tuberculose, morre sua mãe no Rio de Janeiro.
1888 –
Em Março é matriculado na Escola Pública do Rio de Janeiro, regida por D. Tereza Pimentel do Amaral, à Rua do Rezende n.º 143-A. 13 de Maio, dia que Lima Barreto fazia 7 anos, era assinada a Lei Áurea, abolindo a escravatura. Foi levado pelo pai para participar dos festejos que tomaram o Rio de Janeiro.
1889 – Proclamação da República. Em Agosto, o pai do escritor é promovido de chefe de turma a mestre das oficinas de composição da Imprensa Nacional.
1890 – Em 11 de Fevereiro, o pai do escritor é demitido da Imprensa Nacional. Em 5 de Março João Henriques é nomeado escriturário das Colônias de Alienados da Ilha do Governador. Em Novembro, Lima Barreto recebe, como prêmio escolar, um exemplar da obra de Luís Figuier: “As Grandes Invenções”.
1891 –
Em Março, matricula-se como aluno interno, no Liceu Popular Niteroiense, dirigido por William Cunditt, custeado pelo padrinho, Visconde de Ouro Preto; Em 20 de Março, o pai João Henriques é promovido a almoxarife das Colônias de Alienados da Ilha do Governador.
1893 – Em 30 de Dezembro, João Henriques é nomeado Administrador das Colônias.
1895 –
Em 12 de Janeiro, faz exame de Português, no Ginásio Nacional, Rio de Janeiro e é aprovado. Em 17 de Agosto, faz exame de Francês e também é aprovado.
1896 –
Em 10 de Janeiro, faz exames de História Geral e do Brasil – também foi aprovado. Dia 29 de Janeiro é aprovado no exame de Aritmética. Em Março, matricula-se, como aluno interno, no Colégio Paula Freitas, no Rio de Janeiro, à Rua Haddock Lobo – curso anexo de preparatórios à Escola Politécnica.
1897 –
Em 18 de Janeiro, faz exame de Desenho Geométrico Elementar, na Escola Politécnica (vestibular) e é aprovado. Em 5 de Fevereiro, faz exames de álgebra, geometria, trigonometria retilínea e álgebra superior na Escola Politécnica (Vestibular), e foi aprovado. Dia 1 de Abril, faz exame de física e química, no Ginásio Nacional: aprovado. Em 2 de abri, matricula-se, como ouvinte, na 2ª cadeira do 2º ano do Curso de Engenharia Agronômica da Escola Politécnica (Zoologia). Em 7 de Abril, faz exame de História Natural, no Ginásio Nacional. Foi aprovado. Em 10 de Abril, matricula-se no 1º ano do Curso Geral da Escola Politécnica. Em Novembro, faz exame das cadeiras do 1º ano. É aprovado apenas em física e reprovado nas demais matérias.
1898 –
Em Abril, matricula-se no 1º ano da Politécnica. Em Novembro, faz exames de Cálculo e Geometria Descritiva, cadeiras que faltam para completar o 1º ano. Foi reprovado.
1899 –
Em 15 de Fevereiro, faz exames de segunda época. Aprovado em Geometria. Reprovado em Cálculo. Em 1º de Maio renova a matrícula no 1º ano. Matricula-se no 2º ano, como ouvinte. Em Novembro faz exame de Cálculo e é reprovado.
1900 –
Em 15 de Fevereiro, faz exame de Cálculo em segunda época. Reprovado novamente. Viaja a Barcelona, em exercícios práticos da cadeira de Topografia. Em Novembro, faz exame de Cálculo mais uma vez. Foi aprovado. Faz, ao mesmo tempo, exame das cadeiras do 2º ano. É aprovado em todas as matérias, exceto em Mecânica Racional.
1901 –
Em 21 de Janeiro, faz exame de Mecânica, em segunda época. Foi reprovado. Em Abril, matricula-se no 2º ano, pois continua repetente em Mecânica. Matricula-se também no 3º ano, como ouvinte.
1902 –
Em Março é reprovado novamente em Mecânica. Em Agosto, João Henriques, o pai de Lima Barreto, enlouquece. Em 30 de Agosto, Lima Barreto inicia sua colaboração em jornal acadêmico, escrevendo para A Lanterna, a convite de Bastos Tigre. A Família Lima Barreto muda-se da Ilha do Governador para o Rio de Janeiro, indo residir no Engenho Novo, à Rua Vente e Quatro de Mario, Nº 123. Em 10 de Outubro, o pai João Henriques tira uma licença de três meses, para tratamento de saúde. Em Novembro, Lima Barreto presta novo exame de Mecânica. Foi reprovado novamente. Com Bastos Tigre, edita um periódico de efêmera duração: A Quinzena Alegre.
1903 –
Em 2 de Março sai Decreto aposentando João Henriques de Lima Barreto do cargo de Administrador das Colônias de Alienados da Ilha do Governador. Em 12 de Março, Lima Barreto é reprovado em Mecânica, pela quinta vez. Dia 31 de Março, matricula-se novamente no 2º ano e, como ouvinte, no 3º. Colabora no Tagarela, jornal humorístico de Raul, Klixto e outros, sob o pseudônimo de Rui de Pina. Dia 18 de Junho, inscreve-se no concurso para o preenchimento de uma vaga de amanuense na Diretoria do Expediente da Secretaria da Guerra. Dia 9 de Julho, é classificado em segundo lugar no concurso para a Secretaria da Guerra, com 6,7; o primeiro colocado tirou 6,11. Dia 12 de Agosto, aparecimento do semanário O Diabo, de Bastos Tigre e outros; Foram apenas quatro números e contou com a colaboração de Lima Barreto. Dia 27 de Outubro, é nomeado amanuense (assim eram chamados os escriturários naquela época) da Diretoria do Expediente da Secretaria da Guerra. Dia 28 de Outubro, toma posse do cargo. Passa a residir em Todos os Santos, à Rua Boa Vista, Nº 76. Durante alguns meses exerce as funções de Secretário da Revista da Época, dirigida por Carlos Viana, ex-colega da Politécnica. No Ministério trabalhava Domingos Ribeiro Filho, escritor boêmio que carrega Lima Barreto para freqüentar bares e cafés do centro do Rio, onde freqüentavam os intelectuais cariocas.
1904 –
Começa a escrever “Clara dos Anjos” (primeira versão).
1905 –
28 de Abril inicia no Correio da Manhã uma série de reportagens, sem assinatura, sob o título: “Os Subterrâneos do Morro do Castelo”. Em 3 de Junho, publica no Correio a última série do título mencionado. 12 de Julho – Data do prefácio das “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”: por essa época provavelmente começou a escrever o livro.
1906 – 8 de Outubro, data do prefácio de “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”: tudo indica que escreveu este livro, que só veio a ser publicado em 1919, em fins de 1906 e parte de 1907. 10 de Outubro – entra em licença para tratamento da saúde, até 15 de Janeiro de 1907 (fraqueza geral, diz o exame médico).
1907 –
Em Abril – começa a trabalha no Fon-Fon, como Redator. 20 de Junho – em carta a Mário Pederneiras, demite-se da Redação do Fon-Fon. 25 de Outubro – Primeiro número da “Floreal”, onde inicia a publicação de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. 1º de Dezembro – Sai o terceiro número de Floreal. 31 de Dezembro – Sai o quarto e último número de Floreal.
1909 – Em Fevereiro – Antônio Noronha santos segue para a Europa, levando os originais do “recordações do Escrivão Isaías Caminha. Com Antônio Noronha Santos, edita um panfleto contra a candidatura de Hermes da Fonseca à presidência da República. Intitula-se “O Papão” – “Semanário dos bastidores da política, das artes e”.... das candidaturas”.
1910 –
Em Setembro – viaja para Juiz de Fora – MG. Participa do júri do concurso Primavera de Sangue. Em 1º de Dezembro entra em licença na Secretaria da Guerra e Inicia novo tratamento de saúde, até 28 de Fevereiro de 1911. O alcoolismo tomava contra do escritor – Impaludismo, diz o exame médico.
1911 –
Em Janeiro – começa a escrever “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, concluindo em Março. Em 20 de Abril – começa a colaborar na Gazeta da Tarde, cujo Redator-Chefe é Vitor Silveira. Em 11 de Agosto, o Jornal do Commercio (edição da tarde) inicia a publicação em folhetins do romance “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. 12 de Agosto – participa do movimento para a criação da Academia dos Novos, patrocinada pelo jornal A Imprensa, de Alcindo Guanabara. Em 19 de Outubro – o Jornal do Comércio (edição da tarde) publica o último folhetim do “Triste Fim de Policarpo Quaresma”.
1912 –
Em 1º de Fevereiro – volta a tirar licença para tratamento da saúde até 30 de Abril, (reumatismo poli articular, hipercinese cardíaca). Em 27 de Junho – é posto à venda O Chamisco ou o Querido das Mulheres. Assim o anuncia O Riso: “O Chamisco ou o querido das mulheres. O nec plus ultra da literatura brejeira. Desopilante história de um conquistador irresistível. Esse belo livrinho contém cinco nítidas gravuras. Preço 1$500. Pelo correio, 2$000. Pedidos a A. Reis & Cia. R. do Rosário, 99 Telef. 3803. Rio de Janeiro”. Em Setembro – publica os dois fascículos conhecidos das Aventuras do Doutor Bogóloff: I – Fiz-me então, diretor da Pecuária Nacional, e II – Como escapei de “salvar” o Estado dos Carapicus. Em 10 de Setembro – Aparece Entra Senhórr!..., edição da revista O Riso. No anúncio, publicado na mesma revista, lê-se o seguinte: Entra, Senhórr!... Sensacional romance humorístico. Narrativa de episódios interessantes, passados na alcova de uma horizontal. Belíssimas fotografias ornam esse hilariante romance. Preço 1$500. Pelo correio, 2$000. Pedidos a A. Reis & Cia. R. do Rosário, 99. Telef. 3803. Rio de Janeiro”.
1913 –
13 de Setembro – muda-se para a Rua Major Mascarenhas nº 42, em Todos os Santos.
1914 –
19 de Junho – começa a escrever, diariamente, uma crônica para o correio da Noite, jornal de Vitor Silveira, secretariado por Emílio Alvim. Em Julho – participa do movimento para a fundação da Sociedade dos Homens de Letras. Em 18 de Agosto – primeira estada no Hospício, de 18 de Agosto a 13 de Outubro. Em 1 de Novembro – tira licença para tratamento de saúde, até 31 de3 Janeiro do ano seguinte (Neurastenia, segundo o exame médico).
1915 –
Em 15 de Março – o jornal A Noite indica a publicação, em folhetins, de “Numa e a Ninfa”. Em 27 de Março – inicia a primeira fase da sua longa colaboração na Careta, que vai até 24 de Junho de 1916.
1916 –
Em 26 de Fevereiro – aparecimento, em volume do, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Em Junho - viaja para Ouro Fino – MG. Em 16 de Junho – é licenciado para tratamento de saúde, até 17 de Julho do mesmo ano (Neurastenia, com anemia pronunciada, opina a junta médica que o examinou). Em 25 de Dezembro – inicia a sua colaboração no A.B.C., semanário político, dirigido a princípio por Ferdinando Borla e depois por Paulo Hasslocher e Luís Morais.
1917 –
Em Julho – é recolhido, enfermo, ao Hospital Central do Exército. Entrega ao editor Jacinto Ribeiro dos Santos os originais de “Os Bruzundangas”, que só aparecerão em volume em Dezembro de 1922, um mês após a morte do escritor. Em 21 de Agosto – em carta a Rui Barbosa, declara-se candidato à Academia Brasileira de Letras, na vaga existente com a morte de Sousa Bandeira. A inscrição não foi considerada. Em Setembro – Surge a 2ª Edição do “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. Aparecimento de “Numa e a Ninfa”, em volume.
1918 –
Em 17 de Setembro – começa a publicar no vespertino Lanterna uma série de crônicas, sob o pseudônimo de Dr. Bogóloff. Em 11 de Maio – lança no A.B.C. o seu manifesto maximalista, que termina com o grito de guerra: “Ave, Rússia”! Em 25 de Julho – num artigo, publicado no semanário Brás Cubas, sob o título: “Vera Zassúlitch”, manifesta a sua simpatia pela Revolução Russa (“Não posso esconder o desejo de ver um [movimento] semelhante aqui”...). Em 29 de Julho – requer aposentadoria do seu cargo na Secretaria da Guerra, “julgando-se inválido par o serviço púbico e contando mais de 10 anos, nos termos da Constituição e das Leis”. Em 17 de Agosto – submete-se à primeira junta médica, que o examinou e que o considera inválido para o serviço público, por “sofrer de epilepsia tóxica”. 1º de Setembro - licenciado para tratamento de saúde, até 27 de Dezembro do mesmo ano. Em 4 de Novembro – é recolhido ao Hospital Central do Exército com a clavícula fraturada. Ali fica até 5 de Janeiro de 1919. Em 9 de Novembro – remete a Monteiro Lobato os originais do “Vida e Morte de M. J., Gonzaga de Sá”. Em 27 de Novembro – realiza o segundo exame médico, para efeito da aposentadoria. O resultado é idêntico ao primeiro. Em 26 de Dezembro – sai o Decreto do Presidente da República, aposentando Afonso Henriques de Lima Barreto, 3º Oficial da Diretoria do Expediente do Ministério da Guerra. Tempo líquido de serviço militar: 14 (quatorze) anos, 3 (três) meses e 12 (doze) dias. Muda-se para a Rua Marechal Mascarenhas, Nº 26.
1919 –
1º de Fevereiro – suspende a sua colaboração no A.B.C., pelo fato de ter sido publicado nessa revista um artigo contra a raça negra. Em 22 de Fevereiro – é posta à venda a 1ª Edição do “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”. Em 24 de Fevereiro – candidato à Academia, na vaga de Emílio de Meneses, obtém dois votos nos primeiro e segundo escrutínios e apenas um voto no terceiro e quarto. Em 20 de Março – começa a publicar no semanário Hoje uma série de crônicas de folclore urbano, intituladas: “As mágoas e sonhos do povo”. Em 13 de Setembro – inicia a segunda fase da sua colaboração na Careta, só interrompida com a morte. Em 39 de Outubro – nova eleição para a vaga de Emílio de Meneses. É eleito Humberto de Campos. Em 25 de Dezembro – segunda estada no Hospício, até 2 de Fevereiro de 1920.
1920 –
Em Fevereiro deixa o hospício. Lá deu início ao “Diário do Hospício”, que pretendia aproveitar para o romance “O Cemitério dos vivos”, nunca concluído. Obtém Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras pelo livro: “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, entregue na Academia em 4 de Dezembro. Em Dezembro – aparece, nas livrarias, “Histórias e Sonhos”. Ainda em Dezembro – entrega ao editor Schettino os originais de “Marginália”, que se perderam.
1921 –
Em Janeiro – publica um trecho do romance: “O Cemitério dos Vivos” tem um trecho publicado, em Janeiro, na Revista Souza Cruz, sob o título "As origens", memórias manuscritas não completadas pelo autor. Em Abril, viaja para Mirassol – Estado de São Paulo. A Academia Brasileira de Letras concede menção honrosa ao “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”. Provavelmente em Junho, parece o Gonzaga de Sá “de roupa nova” (expressão de Monteiro Lobato); o editor trocara a capa, colocando os dizeres: “menção honrosa da Academia Brasileira de Letras” e pôs o livro novamente em circulação. Em 1º de Julho – apresenta-se candidato à Academia, na vaga de Paulo Barreto (João do Rio). Monteiro Lobato desloca-se de São Paulo até o Rio de Janeiro com o objetivo de conhecer Lima Barreto. Encontrou-o em estado tão lastimável que preferiu não se identificar, para não humilhar mais o escritor. Ramulfo Prata, médico e escritor, era admirador incondicional de Lima Barreto, e tentou salvar a vida do escritor levando-o para sua casa em Mirassol, interior de São Paulo. Entrega ao editor os originais de Bagatelas, no qual reúne a sua Maior produção na imprensa a partir de 1918, em que evidencia com rara visão e clareza os problemas do país e do mundo do pós-guerra. De passagem por São Paulo conheceu pessoalmente Monteiro Lobato. A ajuda do amigo médico de nada adiantou. A Revista Souza Cruz publica a palestra “O Destino da Literatura” de Lima Barreto que o escritor tinha preparado para pronunciá-la em Rio Preto. O público não assistiu ao pronunciamento do escritor, pois no dia da apresentação ele foi encontrado bêbado numa sarjeta. Em Agosto – entrega ao editor os originais de Bagatelas, que só vão aparecer em 1923. Em 28 de Setembro – retira a sua candidatura à Academia, na vaga de Paulo Barreto, “por motivos inteiramente particulares e íntimos”. Em Outubro e Novembro – publica na Revista Souza Cruz a conferência: “O Destino da Literatura”, a única que fez e que deveria ter sido pronunciada em Rio Preto (Estado de São Paulo), por ocasião da sua estada em Mirassol. Em Dezembro – começa a escrever “Clara dos Anjos” (segunda versão), que terminou em Janeiro do ano seguinte. Candidata-se, em Julho, pela terceira vez à Academia Brasileira de Letras na vaga de Paulo Barreto (João do Rio), mas prevendo que não seria eleito, acabou retirando a candidatura. Monteiro Lobato havia se deslocado de São Paulo até o Rio de Janeiro com o objetivo de conhecer Lima Barreto. Encontrou-o em estado tão lastimável que preferiu não se identificar, para não humilhar mais o escritor. Ramulfo Prata, médico e escritor, era admirador incondicional de Lima Barreto, e tentou salvar a vida do escritor levando-o então para sua casa em Mirassol, interior de São Paulo. Entrega ao editor os originais de Bagatelas, no qual reúne a sua Maior produção na imprensa a partir de 1918, em que evidencia com rara visão e clareza os problemas do país e do mundo do pós-guerra. De passagem por São Paulo conheceu pessoalmente Monteiro Lobato. A ajuda do amigo médico de nada adiantou. A Revista Souza Cruz publica a palestra “O Destino da Literatura” de Lima Barreto que o escritor tinha preparado para pronunciá-la em Rio Preto. O público não assistiu ao pronunciamento do escritor, pois no dia da apresentação ele foi encontrado bêbado numa sarjeta.
1922 –
Em Fevereiro acontece a Semana de Arte Moderna, de 11 a 18 de fevereiro, em São Paulo. Ele não participa da Semana. Provavelmente nesse início de ano foi entregue ao editor Schettino os originais de “Feiras e Mafuás”. Na revista O Mundo Literário, publica o primeiro capítulo do romance inédito: “Cara dos Anjos” – “O Carteiro”.
1922 – 1.º de Novembro, às 17 horas, vítima de gripe torácica e colapso cardíaco causado pelo uso abusivo de bebida alcoólica, Lima Barreto falece em sua casa, na Rua Mascarenhas, n.º 26, em Todos os Santos, subúrbio do Rio de Janeiro, 48 horas antes do falecimento do seu pai João Henriques de Lima Barreto.


OBRAS DO ESCRITOR LIMA BARRETO

I – ROMANCES:
1 – Recordações do Escrivão Isaías Caminha
2 – Triste Fim de Policarpo Quaresma
3 – Numa e a Ninfa
4 – Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá
5 – Clara dos Anjos

II – HUMORISMO:
1 – Aventuras do Dr. Bogóloff

III – CONTOS:
1 – Histórias e Sonhos
2 – Outras Histórias e Contos Angelinos

IV – SÁTIRAS:
1 – Os Bruzundangas

V – CRÔNICAS:
1 – Bagatelas
2 – Feiras e Mafuás
3 – Marginália
4 – Coisas do Reino do Jambom
5 – Vida Urbana

VI – MEMÓRIAS:
1 – Diário Íntimo

VII – CRÍTICAS LITERÁRIAS
1 – Impressões de Leitura

DIVERSOS:
1 – Folhetins
2 – Revistas
3 – Semanários
4 – Outros Periódicos
5 – Jornais
6 – Epistolografia (Correspondências Ativa e Passiva).



A HISTÓRIA DO “DIÁRIO ÍNTIMO”

Quando Lima Barreto faleceu, em de novembro de 1922, seus bens pessoais - que se resumiam a uma biblioteca e muitos manuscritos - ficaram sob a guarda de sua irmã, Evangelina, a única da família que compartilhava com o irmão o interesse pela cultura. Numa mudança do bairro de Todos os Santos (onde a família morava na famosa Vila Quilombo) para Inhaúma, os papéis saíram de ordem e quem sabe alguma coisa tenha se perdido.
Nessa condição foram encontrados, mais de 20 anos depois, por Francisco Assis Barbosa, biógrafo do escritor e organizador da publicação de sua obra completa. A papelada foi comprada pela Biblioteca Nacional em 1949 e encontra-se hoje na Divisão de Manuscritos.
Além da Correspondência, contos, artigos e romances, havia um outro grupo de escritos, composto de álbuns de recortes, cadernetas e papéis avulsos, com poesias, contos populares recolhidos de terceiros, notas de um diário, anotações literárias, etc. Esse material estivera para ser publicado em 1926 pelo editor A. J. Pereira da Silva, que desistiu por considerá-lo "cheio de inconveniências", não sabemos se pelo estado caótico em que se encontravam, ou por estarem ainda vivas muitas das personalidades ridicularizadas no texto por Lima Barreto.
Essa foi a origem do Diário Íntimo (1903 - 1921), segundo o próprio Assis Barbosa, que o organizou, "recuperado página a página de cadernetas de apontamentos e anotações esparsas, às vezes até em tiras soltas, retiradas de calendários e livrinhos de endereços". Publicado primeiramente em 1953 pela Editora Mérito, saiu três anos depois em versão definitiva e aumentada pela Brasiliense.
No Diário, por não pretender publicação, Lima Barreto se mostra por inteiro, nos seus ressentimentos e idiossincrasias, na sua reconhecida preocupação social, nas farpas e ironias políticas, na vida pessoal infeliz, na preocupação com a situação precária do negro na Primeira República. Há esboços de obras ficcionais nunca terminadas, e notas relativas aos seus romances (Isaías Caminha, Gonzaga de Sá, Policarpo Quaresma, Numa e a Ninfa e Clara dos Anjos).


UM TEXTO DE LIMA BARRETO:
"ELOGIO DA MORTE"

Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida.
A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios.
É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.
Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.
É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos.
A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro.
A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos. de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nós pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco.
Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.
Le Bon dizia isto a propósito de Maomé, nas suas Civilisation des arabes, com toda a razão; e não há chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar.
São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade.
Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretárias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.
Todas elas têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos.
A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.
Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.
O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião .de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.
Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.
Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar.
Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.
Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.
Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade.
Ao vencedor, as batatas!
(Marginalia – 19/10/1918)


PESQUISADOR DESCOBRE A CASA DE LIMA BARRETO


(André Luiz dos Santos)

O Professor André Luiz dos Santos, ao iniciar pesquisa para sua tese de mestrado em Literatura Brasileira, descobre a casa onde Lima Barreto morou dos 9 aos 21 anos.
Ao iniciar pesquisa sobre a obra do escritor Lima Barreto para sua tese de Mestrado em Literatura Brasileira, na UERJ, o professor André Luiz dos Santos tinha como proposta mostrar a influência do espaço da casa nos textos do escritor, que nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de 1881. Entretanto, André Luiz, 29 anos, conseguiu bem mais do que isso. Durante a pesquisa, descobriu o sítio, na Ilha do Governador, onde o autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma” morou dos nove aos 21 anos. Até então, não havia nenhum registro do imóvel, que passou por reformas e fica dentro do Parque de Material Bélico da Aeronáutica (PAMB).
A figura da casa sempre teve uma presença marcante na obra de Lima Barreto que, em romances, contos, artigos e crônicas, publicados em livros e periódicos, retratou os costumes e o Rio de Janeiro do fim do século XIX. As constantes trocas de moradia podem ter contribuído para isso. Até mudar-se para o Sítio do Carico, na Ilha do Governador, o menino Afonso Henriques de Lima Barreto já tinha passado por outras sete casas. Nascido na Rua Ipiranga, em Laranjeiras, Lima Barreto morou, ainda, no Flamengo, Centro, Boca do Mato, Catumbi, Santa Teresa e, novamente, no Centro, antes de chegar à ilha.
O ambiente tranqüilo da Ilha do Governador, que na passagem para o século XX ainda era uma área rural, produtora de lenha, cal, frutas e vegetais, ficou registrado em alguns dos 17 livros de Lima Barreto. O escritor citava o bairro em crônicas e utilizava as peculiaridades locais em sua obra ficcional. “Ele emprestou as características das casas para romances como ‘Recordações do escrivão Isaías Caminha’ e ‘Triste fim de Policarpo Quaresma’”, explica André Luiz, que também mora na Ilha.

A DESCOBERTA

Descobrir a casa onde Lima Barreto viveu parte da infância e a adolescência não foi tarefa simples. A partir de mapas do Arquivo Geral da Cidade datados de 1906, André Luiz conseguiu identificar onde ficava o Morro do Carico. “As indicações eram de que a casa ficava na encosta, onde hoje está instalado o Parque de Material Bélico”, conta o professor, cuja pesquisa foi apoiada pela FAPERJ. Depois de muito insistir com o comando do PAMB, em 1998, André Luiz conseguiu permissão para entrar no local. “Tive certeza da descoberta ao comparar a vista da casa com a foto publicada na contracapa de “Marginália”, volume de artigos e crônicas editado em 1956. Apesar das reformas feitas na parte externa, as árvores ao redor da casa, o pântano e o riacho que passa no terreno não deixam dúvidas sobre a origem do imóvel.”
O Sítio do Carico, como era chamada a propriedade, foi citado em crônicas como “Homem ou boi de canga?”, publicada no periódico ABC, em 29 de Maio de 1920; e em “O Estrela”, publicada quatro anos antes, no Almanaque D’A Noite. Em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, o Carico era chamado de Sítio do Sossego. Impressionada com o achado, a atual diretoria do PAMB resolveu inaugurar no local uma placa alusiva.
Feita a descoberta, o atual desafio do pesquisador André Luiz é conseguir o tombamento da construção número 32 da Rua Major Mascarenhas, em Todos os Santos, onde o escritor morou até morrer, em 1922. Antes, Lima Barreto morou na Rua 24 de Maio, no Engenho Novo; e na Rua Boa Vista 76, hoje Rua Elisa de Albuquerque, também em Todos os Santos. Esta última ficou conhecida no local como a casa do louco, devido aos gritos do pai, João Henriques de Lima Barreto, que em 1902 enlouquecera. “A Casa do Louco” dá título à tese de André Luiz.

VIDA MARCADA POR DIFICULDADES

Segundo dos cinco filhos de uma família pobre - o irmão mais velho morreu ainda recém-nascido - Afonso Henriques de Lima Barreto teve a vida marcada por revezes. A biografia do autor de “Clara dos Anjos” conquistou o professor André Luiz dos Santos. “Sempre pensei em escrever sobre um autor que tivesse dificuldades para fazer seu trabalho”, explica.
E não foram poucas as agruras enfrentadas pelo escritor. Logo aos seis anos, Lima Barreto perdeu a mãe, Amália Augusto Barreto, com quem começara a estudar. A dor da ausência da mãe está registrada no “Diário Íntimo”, publicado em 1953, 31 anos após sua morte. No livro, Lima Barreto conta que entregava a pequena mesada que recebia do pai a uma mendiga da Rua do Resende, de quem recebia colo e carinho.

LIMA BARRETO

Aluno do Liceu Popular Niteroiense, Lima Barreto bacharelou-se em Ciências e Letras, cujo curso foi custeado pelo Visconde de Ouro Preto, seu padrinho. O escritor chegou a iniciar o curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas em 1902, a doença do pai, que enlouqueceu, impediu que ele continuasse os estudos, pois tinha que ajudar a sustentar os três irmãos mais novos.
No ano seguinte, Lima Barreto começou a trabalhar na Diretoria de Expediente da Secretaria da Guerra. Paralelamente, passou a colaborar em diversos jornais e periódicos cariocas. Em 1905, atuou como jornalista profissional no Correio da Manhã. Quatro anos mais tarde, seu primeiro romance, “Recordações do escrivão Isaías Caminha”, foi lançado em Lisboa. Apesar da atuação na imprensa, o escritor nunca conseguiu independência financeira. Acumulou dívidas para editar sua obra e sempre teve dificuldades para sustentar a família. Mulato, teve de enfrentar, ainda, a discriminação racial.
Lima Barreto foi derrotado duas vezes nas eleições para a Academia Brasileira de Letras. Inscrito pela terceira vez, acabou desistindo. Nos últimos anos de vida levava uma vida boêmia e lutava contra problemas de saúde. Em 1914, for internado em um hospício. Dois anos depois, doente, foi obrigado a interromper, por alguns meses, suas atividades profissionais e literárias. Em 1918 aposentou-se por invalidez e, em 1º de Novembro de 1922, morreu de colapso cardíaco.

"Em geral, os homens notáveis do passado são admirados e prezados, não pelo que afirmaram peremptóriamente, mas pelo que supuseram".

(Barreto, Lima. Diário Íntimo – pág 82. 2ª Edição – Editora Brasiliense – sp - 1961)


Foto de Lima Barreto, provavelmente de 1919, já doente.


FONTES DE PESQUISA:

- Barreto, Lima. Diário Íntimo - Editora Brasiliense - SP - 1961;
- Bose. Alfredo - História Consisa da Literatura Brasileira. São Paulo. Editora Cultrix - 3ª Edição - 1997;
- Barbosa, Francisco de Assis - A Vida de Lima Barreto. São Paulo. Editora Itatiaia Ltda & Editora da USP - 7ª Edição - 1988;
- Beiguelman, Paula - Por que Lima Barreto - São Paulo. Editora Brasiliense - 1ª Edição - 1981;
- Lins, Osman - Lima Barreto e o Espaço Romancesco - São Paulo - Editora Ática - 1976;
- Barreto, Lima - Literatura Comentada - São Paulo - Editora Abril Cultural - 1980.